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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

28/06/2011 11:11

Ateucracia e heterofobia, por Robinson Cavalcanti

Por Robinson Cavalcanti (*)

A humanidade conviveu e tem convivido com regimes não-democráticos: monarquias absolutas, teocracias, ditaduras, aristocracias, oligarquias, que privilegiam famílias, etnias, religiões, partidos ou classes.

Com a substituição do poder personalizado pelo poder institucionalizado, surgiram os Estados Nacionais, as constituições e a democracia, como “o povo politicamente organizado”. Na maioria das vezes, o formalismo democrático e a liturgia das eleições apenas legitimam grupos, que controlam os aparelhos do Estado.

Ao povo cabe apenas escolher periodicamente, entre os escolhidos, os seus senhores. Presencia-se no Ocidente, sob a fachada da democracia, uma nova autocracia: a dos ateus e agnósticos e materialistas secularistas -- netos do Iluminismo -- contra a maioria religiosa dos cidadãos. Essa ideologia aparece mais nítida com o término da Guerra Fria, e pretende confundir Estado laico com Estado secularista.

Por Estado laico se entende aquele legalmente separado das igrejas, sem religião oficial, com a igualdade perante a lei, que se constitui um avanço para a civilização, e que foi uma das bandeiras do protestantismo histórico no Brasil.

O Estado secularista expressa uma ideologia militante de rejeição da religião, de sua negação como fato social, cultural e histórico, ou a considerando intrinsecamente negativa. No passado, tivemos a influência da filosofia positivista que, com sua “lei dos três estados”, advogava a marcha inexorável da história de uma etapa religiosa inferior para uma etapa superior, pretensamente científica ou positiva.

Essa filosofia marcou grande parte das ideologias contemporâneas, inclusive o marxismo, cujos regimes, oficialmente ateus, procuravam “colaborar” com esse processo histórico perseguindo implacavelmente a religião e tornando compulsório o ensino do ateísmo. O que essa elite iluminada tem dificuldade de aceitar é o fato de que, no século 21, a religião em vez de diminuir está aumentando, no que Giles Kepel denomina “a revanche de Deus”, e que dá o título do novo “best-seller” de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, “Deus Está de Volta”.

Há todo um malabarismo intelectual para “explicar” essa anomalia, e, por outro lado, se procura promover um combate sistemático para contê-la. O antirreligiosismo teve como epicentro a Europa Ocidental, estendeu-se para a América do Norte, e se espalha pela periferia do sistema mundial, chegando até nós.

Há uma prioridade de se atacar as religiões monoteístas de revelação, porque julgam que o monoteísmo promove a intolerância e a revelação traz conceitos e preceitos autoritativos retrógrados (o pecado, por exemplo) que se chocam com as visões tidas como superiores da autonomia das criaturas. Mais particularmente, esse ataque se centra contra o cristianismo.

A intolerância para com a religião implica impossibilitar sua expressão nos espaços públicos ou que seus seguidores ajam publicamente por motivações religiosas. A religião, para seus adversários secularistas, deveria apenas ficar confinada às quatro paredes dos templos e dos lares, à subjetividade de cada um, condenada à irrelevância.

Essa elite se sente iluminada, superior, com o papel histórico de proteger as pessoas delas mesmas, de corrigir seus “atrasos” e de “educar” a humanidade, seja pelo apropriação dos aparelhos ideológicos do Estado (educação, mídia), seja pelo uso do aparelho coercitivo do Estado (leis, justiça, polícia).

Na esteira desse movimento temos tido a chatice do “politicamente correto” (moralismo de esquerda), a luta por retirar símbolos religiosos dos espaços públicos, acabar com os dias santificados, proibir a saudação “Feliz Natal” (deve-se apenas desejar “Boas Festas”), e a defesa de bandeiras como a liberação sexual, o aborto (no lugar do direito à vida, o direito da mulher a dispor do “seu” corpo), a eutanásia e a licitude das “orientações sexuais” -- a chamada agenda GLSTB (gays, lésbicas, simpatizantes, transgêneros e bissexuais).

Por sua mobilização política (e não por “descobertas científicas”) se promoveu a retirada dessa anomalia do rol das enfermidades e dos ilícitos -- e se instituir o casamento homossexual -- e se parte para proibir os que querem deixá-la, cassar o registro de psicoterapeutas, forçar a maioria a mudar seus padrões morais e criminalizar os que não aderirem.

Enquanto a Europa e a América do Norte já evidenciam um novo ciclo de perseguição religiosa, corre no Congresso Nacional um projeto de lei que faria o autor desse artigo ser condenado a até cinco anos de prisão por escrevê-lo.

Enquanto a minoria materialista tenta forçar uma ateucracia e a minoria homossexual tenta fomentar uma heterofobia -- ódio aos que insistem no seu direito de afirmar a normatividade da heterossexualidade, e de não aceitar a normalidade do homoerotismo -- eles recebem o apoio (cavalo de troia) de outra minoria: o liberalismo teológico. A nós, a maioria, cabe, democraticamente, o direito à resistência!

(*) Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife (PE).

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Parabens!! Tirano como seu deus.
 
Hector Fonseca em 06/07/2011 12:48:11
Eric Dutra, democracia não é "o que a maioria do povo quer", democracia é governo do povo. Se democracia fosse o que vc afirma, a única religião permitida no país seria o catolicismo, em outros países seria o protestantismo.
Há uma diferença entre eleição da maioria para representantes e disposição de direitos a todos os grupos. Não tem como ter um presidente para cada grupo social do país, mas todos tem direito a seus direitos(redundante, eu sei, mas é o que é).

Robinson Cavalcanti, comentar o texto por partes. Começa relativamente bem, mas:
Texto: "O Estado secularista expressa uma ideologia militante de rejeição da religião, de sua negação como fato social, cultural e histórico, ou a considerando intrinsecamente negativa. No passado, tivemos a influência da filosofia positivista que, com sua “lei dos três estados”, advogava a marcha inexorável da história de uma etapa religiosa inferior para uma etapa superior, pretensamente científica ou positiva."

Não. O estado secularista abrange TODAS as religiões e a falta dela, pois não deve tomar partido em particularidades. O Estado laico basea-se em evidências cientificamente comprovadas, e não em achismos ou crendices populares. Pois, um fato, por mais que não se acredite, ainda é verdade. A existência de diversos deuses e diversas interpretações do mesmo deus(catolicismo ortodoxo/romano, protestantismo e suas diversas subdivisões, islamismo, judaísmo...), mostram que se pautar em religiões como fim máximo não é certo. Contudo, nada impede que, por exemplo, o Estado considere o homossexualismo uma abominação(Levíticos 18:22) ou anti-natural, se provarem isso cientificamente(o que até agora não fizeram, pesquisas mostram que ocorrem em diversas espécies na natureza). Essa é apenas uma questão onde o Estado se mantém neutro quanto a religião. Pode-se dizer que deu certo pra alguns Estados Europeus, não?

Texto: “politicamente correto”
Não é correto então? Eu posso então, dizer que um homossexual não é hábil pra trabalhar na minha empresa SÓ porque é homossexual? Ou um negro não pode ser diretor de algum setor SÓ porque é negro? Vale lembrar, eu não poderia mover nenhuma ação que te lese SÓ pelo fato e você ser religioso ou hétero. A lei vale pros dois lados.

Texto: "Por sua mobilização política (e não por “descobertas científicas”) se promoveu a retirada dessa anomalia do rol das enfermidades e dos ilícitos -- e se instituir o casamento homossexual -- e se parte para proibir os que querem deixá-la, cassar o registro de psicoterapeutas, forçar a maioria a mudar seus padrões morais e criminalizar os que não aderirem."

Estudos mostram, desde 1960, que Homossexualidade não é anomalia. Está desatualizado, uns 50 anos apenas. http://www.pnas.org/content/105/27/9403.abstract ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Estudos_de_Kinsey ; http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_arquivos/6/TDE-2006-11-29T194745Z-92/Publico/Dallmer%20Palmeiras%20Rodrigues%20de%20Assis.pdf, ou ainda uma simples questão lógica de senso comum: não fosse a homossexualidade algo natural, não haveriam gays, visto que todos foram criados em famílias e sociedades heterossexuais.
A igreja X ou Y tem todo direito de tentar "curar" gays, se houver consenso legal(entre maiores de idade ou responsáveis) quanto a isso; mas colocar suas garras para a sociedade como um todo, não.

Texto: "a defesa de bandeiras como a liberação sexual"

Acho que alguns padres precisam disso, visto os escândalos de pedofilia(http://is.gd/GFhpZ5, http://is.gd/XLqVTi, http://is.gd/tn9wLr, http://is.gd/F9cC1e, http://is.gd/au428Y, http://is.gd/q9jvoY, http://is.gd/Q6Rg1w todas tiradas da globo, a propósito) talvez, só talvez, a repressão sexual de uma forma de vida cuja característica evolutiva primária é a reprodução(seja das próprias células ou do corpo todo) não é algo muito bom a ser feito.

Texto:"(no lugar do direito à vida, o direito da mulher a dispor do “seu” corpo)"

As aspas no seu, novamente um dogma religioso, que não pode ser provado senão pela fé em um livro cheio de falhas e contradições de milênios atrás.

Texto: "Enquanto a minoria materialista tenta forçar uma ateucracia..."

Não é ateucracia, o estado nem os governantes com essas leis estão incitando a descrença de religião alguma. Uma mulher cristã ainda terá todo direito e não abortar. Um católico terá todo direito de ser hétero e se casar com uma mulher. Achar que não ou é falta de raciocínio lógico ou perversão do contexto.

Texto: "...minoria homossexual tenta fomentar uma heterofobia -- ódio aos que insistem no seu direito de afirmar a normatividade da heterossexualidade, e de não aceitar a normalidade do homoerotismo"

Então, eu como heterossexual tenho que IMPOR ao homossexual que seja como eu, e isso está certo? Que nem muitos faziam quanto a escrever com a mão esquerda ser algo proibido e "coisa do demônio", não muitos anos atrás? Há uma diferença entre não aceitar a normalidade da homoafetividade com bases cientificas(o que até agora não conseguiram) e recusar ela por dogmas e valores particulares.
 
Daniel Martins em 29/06/2011 10:21:17
Indiscutível porém agregável o artigo: o que não se nota ou divulga é o fato de que os homossimpatisantes e os próprios homossexuais ( e incluo nesta todas as outras denominações e tribos por eles criadas) que todos não passam de massa de manobra, votos e moedas para os cofres públicos e privados. Tentem fazer uma "parada gay pobre" sem apoio de políticos, da mídia e sem gastar milhões de reais em souvenirs, plumas e paetês e verão o tamanho do apoio recebido. É indiscutível o direito individual e por isso, diante da enxurrada ideológica que estão tentando impor a "ferro e batom" à maioria social, me obrigo a defender meu direito, também constitucional de ser heterossexual e nortear minha família por este caminho.
 
Adriano Remonatto em 29/06/2011 08:32:12
Sou ateia por nascimento, como afirmava Nietzche, defendo o Estado laico e secular, porém, não apoio o politicamente correto, como a banalização do sexo, a promoção de anomalias, como o homossexualismo, como algo natural, a adoção de crianças por casais gays, etc. Entretanto, sou favorável ao aborto assistido, pelo fato de que criminá-lo não diminui a prática, veja-se as estatísticas estarrecedoras sobre o tema, e aumenta o número de mulheres mortas ou com graves problemas de saúde em decorrência de tentativas mal sucedidas de interromper gestação. Quanto à eutanásia, entendo que, cada um é senhor de sua vida, e pode dispor dela quando achar que é o momento, sobretudo em casos de doenças terminais, desde que, é claro, isso não signifique fugir às responsabilidades. Se não há chances de melhora, por que prorrogar o sofrimento de pacientes e familiares? A eutanásia é, antes de tudo, um ato extremo de amor.
 
marly siqueira caramalack em 28/06/2011 07:33:06
Sou protestante e concordo com o Bispo, não vivemos mais em uma democracia pois o sentido de democracia é "o que a maioria do povo quer", isso o que vemos é uma demagogia, "o que a minoria quer", todos devem ter seus direitos respeitados mas o governo deve ser voltado a maioria pois se não fosse desta forma não seria nescessario mais de 50% dos votos para se leger Presidentes, Governadores e Prefeitos.
 
Eric Dutra em 28/06/2011 03:49:25
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