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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

03/12/2014 10:10

Câncer não é sentença de esterilidade

Por Edson Borges Junior (*)

No Brasil, anualmente surgem mais de 500 mil casos de câncer. O número de pacientes em tratamento e que estão em idade reprodutiva é bastante expressivo. Depois do diagnóstico, a primeira coisa que vem à cabeça é “quero salvar minha vida”. E têm razão! Em mais de 70% dos casos, esses pacientes vão se curar. Mas enfrentar um câncer não deve ser encarado como sentença de esterilidade. As técnicas de reprodução assistida são muito eficientes e alcançam ótimos índices com os tratamentos disponíveis.

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Hoje, é perfeitamente possível ser pai ou mãe depois de se tratar da doença. Mas é preciso pensar no assunto e tomar uma decisão antes de começar todo o processo. Embora as técnicas preventivas sejam mais indicadas, preservando a fertilidade através do congelamento de óvulos, espermatozoides e embriões, também é possível optar pela reprodução in vitro.

Vale dizer que, se uma mulher de 35 anos é submetida a uma quimioterapia, as chances de ter a função reprodutiva prejudicada são superiores a 60%. Acima dos 40 anos, esse percentual chega a 90% ou mais. Para os homens, a situação é semelhante. Quimioterapia e radioterapia são extremamente deletérias para a função reprodutiva. Por isso, uma grande preocupação é combinar com o oncologista o momento ideal para prosseguir com o congelamento. A qualquer momento do ciclo, a mulher pode iniciar os medicamentos, aguardar o crescimento de folículos, coletar e congelar seus óvulos. No caso de um casal, a melhor opção é congelar os embriões. Já no caso de crianças e adolescentes, prosseguimos com o congelamento de fragmentos do ovário e dos testículos. Esse processo, contudo, ainda é experimental.

Outra possibilidade de engravidar depois de um tratamento de câncer é a cessão temporária do útero. A paciente geralmente conta com alguém da família, como uma prima, uma tia ou outra pessoa que possa emprestar o útero. Pacientes que sofrem de abortos de repetição também podem recorrer a esse expediente. Neste caso, depois de fecundar o óvulo com o espermatozoide do marido, uma parente empresta o útero – gerando o filho do casal para entregar o bebê depois do parto. Isso não é experimental e há legislação regulamentando a prática.

Dentre tantas possibilidades, o mais importante é as pessoas saberem que podem recorrer à preservação da fertilidade. O paciente não fica estéril. Isso ainda é de pouco conhecimento, tanto da população quanto dos médicos. Apesar da grande preocupação do tratamento do câncer, é importante que médico e paciente pensem a longo prazo, considerando a possibilidade de ter filhos e constituir família. Quem está em tratamento de câncer e não tomou nenhuma medida para preservar a fertilidade ainda tem chances de ter filhos recorrendo a gametas ou embriões doados. Há muito tempo os bancos são bastante ativos. Se o homem ficou estéril, propomos tratamento de fertilização in vitro ou inseminação artificial com gameta doado – que é feito de forma totalmente legal e anônima. Oferecemos uma amostra de sêmen que tem as mesmas características físicas e o mesmo tipo sanguíneo desse homem.

O próximo patamar a ser alcançado é conseguir utilizar células imaturas do tecido do ovário ou do testículo, a ponto de virar um óvulo ou um espermatozoide. Trata-se de uma técnica que favorecerá especialmente as crianças com câncer. Como elas ainda não têm óvulos ou espermatozoides maduros, é possível armazenar esse material. Por enquanto, ainda não sabemos o que vamos fazer. O objetivo principal da ciência é conseguir amadurecer essas células experimentalmente, de modo que elas se transformem num óvulo ou num espermatozoide. Há experimentos neste sentido e não deve demorar para surgir uma solução bem sucedida. Outro passo para o futuro é conseguir gametas artificiais a partir de uma célula qualquer do nosso corpo e, através de técnicas de cultivo, fazer o óvulo ou espermatozoide. Potencialmente, a célula-tronco pode se transformar em qualquer outra célula. Quando isso acontecer, haverá uma verdadeira revolução na reprodução humana.

(*) Edson Borges Junior é urologista, especialista em Medicina Reprodutiva, e sócio-fundador do Fertility Medical Group (www.fertility.com.br), com sede em São Paulo.

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