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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

20/01/2011 11:04

Chuvas: quem é que vai pagar por isso?

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna (*)

Não existe explicação que justifique a repetição freqüente e previsível, verão após verão, de tantas perdas de vida e de patrimônio em função das chuvas. Temos gente com conhecimento, tecnologias, recursos, então, por que este problema repete-se em todos os verãos, como já previu Tom Jobim, na música “Águas de março”?

Dizem que não é de bom tom, e que chega a ser cruel, no momento da tragédia, quando se contam os mortos e os prejuízos, cobrar culpas e responsabilidades. Entretanto, em respeito aos que morreram agora, e em respeito aos que poderão morrer no próximo verão, temos de remexer nesta ferida.

Lembro a pergunta do Lobão, na canção Revanche: “Quem vai pagar por isso? Até quando as autoridades permitirão, por ação ou omissão, a ocupação das áreas de encosta frágeis pela sua própria natureza, que irão deslizar de qualquer jeito, com ou sem floresta por cima?

Até quando as margens de rios e as áreas de várzeas continuarão sendo ocupadas, mesmo com todos sabendo que mais dia ou menos dia encherão? Antigamente, só os mais pobres eram afetados, mas agora, os ricos e a classe média também contam seus mortos. Antes, o problema atingia mais duramente as áreas de risco, mas agora até as áreas consideradas seguras estão sendo atingidas. E alguns ainda resistem em admitir o impacto das mudanças climáticas.

Precisamos aprender com os erros, pois se não fizermos isso, é certo que voltaremos a repeti-los. E entre os mais graves erros está o de só liberarem recursos para as Prefeituras diante da emergência ou calamidade! Por que não se liberam recursos antes, já sabendo que cada real gasto em prevenção economiza mais de 10 na reparação do desastre?

As leis de uso do solo, os planos diretores, as políticas de licenciamento, estão completamente ultrapassadas ou mesmo mal feitas e precisam ser revistos para impedir a ocupação das áreas frágeis ainda desocupadas. Onde estão nossos vereadores tão céleres para conceder títulos e aprovar emendas ao orçamento para seus bairros?

Quanto às áreas já ocupadas, onde estão nossos prefeitos e governadores para promoverem sua desocupação, com ordenamento e inteligência, pois se continuar a não ser feito por bem, a natureza fará por mal, verão após verão! As populações de baixa renda que foram deixadas à própria sorte para ocupar áreas de risco e não edificantes precisam ser realocadas.

Onde estão nossas autoridades do Governo Federal e seus programas habitacionais para essas populações de baixa renda? Poderiam estar incentivando mutirões remunerados e o cooperativismo para que os próprios futuros moradores construíssem suas próprias casas, após receberem a devida capacitação, e apoio técnico necessário, em áreas seguras, gerando trabalho e renda, aproveitando para incorporar tecnologias limpas e ecoeficientes.

As unidades de conservação, parques e bosques urbanos não seriam só para a proteção da natureza, mas para proteger as pessoas da natureza. Na medida em que as áreas de risco fossem desocupadas, em seu lugar seriam criadas essas unidades de conservação no local, e cada metro quadrado daria ao município o direito de receber repasses federais e estaduais que os compensassem pela perda de receita com os impostos, que deixarão de arrecadar sobre estas áreas protegidas, como já é feito pelo ICMS Ecológico.

Os profissionais de imprensa, por sua vez, vivem em momentos assim situações equivalente a dos correspondentes de guerra. Como se proteger e ao mesmo tempo estar na linha de frente dos acontecimentos? Como lidar com fontes emocionadas, desinformadas, mal informadas? Como improvisar quando o equipamento falha? Como encontrar as alternativas para transmitir os dados a serem divulgados? Como lidar com o emocional e o profissional diante dos dramas vividos pelas pessoas e pelo próprio profissional?

Ate aonde ir neste envolvimento sem prejudicar a tarefa de colher e transmitir a informação? Como lidar com pessoas fragilizadas sem ser invasivo ou insensível diante da dor alheia? Como fazer o seu trabalho sem atrapalhar ao trabalho dos outros, do pessoal do resgate? Como colocar o foco na noticia, ir à raiz do problema, fazer as perguntas certas às pessoas certas? Não dá para se imaginar que toda essa capacitação e prontidão para as respostas acontecerão por um acaso. Onde estão os cursos de capacitação para profissionais de comunicação que precisam cobrir desastres e calamidades?

A solidariedade humana surpreende em momentos de desastre, como surpreende também o despreparo. Muito trabalho voluntário é perdido por que falta coordenação, sistemas de aviso e comunicação, planejamento das ações, onde o trabalho voluntário ajuda e onde atrapalha, onde é mais necessário, etc. E nada disso é possível fazer durante o desastre. Então, precisa ser feito antes. Entretanto, onde estão os cursos de capacitação para voluntários? Como eles podem ser avisados e serem mantidos informados?

A quem recorrer para serem encaminhadas para a linha de frente de trabalho voluntários? Quem os ampara psicologicamente diante dos dramas e perdas que irão assistir e com os quais terão de conviver? Sim, por que ao lado das perdas materiais, as pessoas sofrem com terríveis perdas espirituais, que podem ser tão ou mais devastadoras que as perdas materiais. As pessoas podem desmoronar por dentro, perder o estimulo e a motivação para lutar e se reerguer.

Como lidar com crianças resgatadas sozinhas, que se tornaram órfãos da noite para o dia, perderam a casa e todas as referências? O lar não está na casa perdida, nos bens materiais, nos documentos históricos. O lar é espiritual. Está onde estiver a família ou o que sobrou dela. Pode estar num estádio que reúne os sobreviventes.

(*) Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista. Em Janeiro de 1996, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita desde então a Revista do Meio Ambiente.

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Manda a conta prá São Pedro! Quem sabe assim as pessoas que construíram suas casas nas encostas, saibam dar mais valor a suas vidas e a de seus familiares, e saibam que não vale a pena jogar a culpa no governo, esse é o preço que estão pagando pelo risco que correram, apenas para alimentarem suas vaidades e seus interesses pessoais, pois indenização nenhuma vai cobrir o preço de terem perdidos suas famílias. Pensem bem antes de reconstruírem suas casas nesses lugares, o Brasil é tão vasto, e grande parte ainda desabitado, não mas eles preferem ficar no centro hurbano, nas encostas. Tenham mais conscência!
 
Angélica de Souza em 20/01/2011 03:07:49
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