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Campo Grande, Sexta-feira, 02 de Dezembro de 2016

22/05/2011 07:18

Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa

Por Marcos Bagno (*)

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua. Jornalistas desinformados abrem um livro didático, lêem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam.

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula.

A variação linguística é parte constitutiva das línguas humanas. O que significa isso? Significa que nenhuma língua humana, por menor que seja o número de seus falantes, é uma entidade homogênea, compacta, invariável. Na verdade, um dos postulados básicos da sociolinguística (disciplina científica que mais se dedica ao estudo da variação) é "toda língua é um feixe de variedades".

Nesse sentido, podemos até dizer que a palavra "língua" é um substantivo coletivo: sob esse rótulo se abrigam dezenas e dezenas de modos de falar essa língua que variam segundo diversos fatores -- a classe social, o sexo do falante, a idade, o grau de instrução formal, a profissão, a etnia, as redes sociais em que ele circula etc. A norma codificada nas gramáticas é apenas um modelo idealizado de língua, inspirado nos usos de um punhado de escritores do passado. Assim, ela deixa de fora 99% de todos os fenômenos gramaticais que de fato estão em ação na língua viva.

Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje.

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra.

Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro e pode ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”. É dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la também.

O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?"

(*) Marcos Bagno é professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília, doutor em filologia e língua portuguesa pela Universidade de São Paulo, tradutor, escritor com diversos prêmios e mais de 30 títulos publicados,[1] entre literatura e obras técnico-didáticas.

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Ah, e só pra complementar, eu sou assumidamente preconceituosa, arrogante, racista e tudo mais que queiram me acusar. Sou mesmo, e daí? Desprezo cada dia mais o brasileiro, com o qual pouco a pouco deixo de me identificar, e as razões estão expostas de maneira vergonhosa e lamentável.
Pobre Brasil!!!!
 
marly siqueira caramalack em 26/05/2011 02:38:55
Juvenal Cezarino, primeiro: eu não ignoro os estudos linguísticos, já que fiz dois anos de letras, abandonei o curso justamente por essa matéria.
Segundo: o que você considera um erro, é uma questão de estilo. A norma culta não proibe, embora aconselhe que se evite, o uso de termos com o mesmo valor semântico ou sintático, e isso é muito diferente de um erro crasso.
 
marly siqueira caramalack em 26/05/2011 02:30:17
Penso que só pode Haver liberdade linguística quando o cidadão aprender de fato a lingua formal, o que não acontece na prática. o que existe é uma ignorância generalizada e agora temos que achar isso "normal". Será que muita gente teria a paciencia ou a capacidade de ler um artigo com um texto tão enquadrado na norma culta quanto esse acima? Será que o autor ficou com medo de parecer ignorante ou desinformado ? Será que podia usar qualquer forma linguística para isso. Né "Mano". É nois.. falei..!!!
 
GILMAR SOUZA CRUZ em 25/05/2011 07:21:22
Marly,

É uma pena que você ignore os estudos linguísticos, os quais estão presentes no Brasil desde 1960. Felizmente, os documentos que embasam a educação brasileira contemplam os estudos linguísticos, pois entendem que a escola, enquanto reflexo da sociedade, deve estar aberta para a pluralidade dos discursos.
Os que entendem o mínimo dessa ciência chamada Linguística sabem que ela não prega o extermínio da norma padrão, mas que esta não seja a única abordada em sala de aula, haja vista que a língua portuguesa é riquíssima em variedades.
Acho que é uma atitude muito preconceituosa julgar o que deve ou não ser dito, mas deve ser considerado o que é adequado ou não para determinadas situações.
Marly, você fez uma critica a determinados usos da gramática normativa, mas escreveu o seguinte: Professor, não insista, eu jamais vou assistir um filme, não tenho competência para tanto, e nem sei mesmo do que se trata.

Para bom entendedor, as conjunções “e” e “nem” são aditivas, ou seja, não é preciso o uso das duas, haja vista que ninguém fala “Não fui à escola, mas porém fui ao médico”.
Assim como você utiliza essas formas coloquiais em sua forma escrita, muitas pessoas a usam.
 
Juvenal Cezarino em 24/05/2011 10:08:45
Marly,

É uma pena que você ignore os estudos linguísticos, os quais estão presentes no Brasil desde 1960. Felizmente, os documentos que embasam a educação brasileira contemplam os estudos linguísticos, pois acreditam que a escola, enquanto reflexo da sociedade, deva estar aberta a pluralidade dos discursos.
Para quem entende do assunto, sabe perfeitamente
 
Juvenal Brito em 24/05/2011 09:55:12
Esse Carlos Bagno é um tremendo "cara de pau";
 
Jôni Coutinho em 22/05/2011 09:50:09
Tá, mas a Língua enquanto elemento de unidade nacional é aquela padrão, culta. A escola deve se preocupar em enriquecer o vocabulários dos egressos das chamadas camadas sociais, e não perpetuar erros crassos, um assassínio diário da língua-mãe.
A língua é um organismo vivo, dinâmico e complexo, mas vamos com calma. Outro dia desses uma jornalista escreveu neste mesmo veículo algo como "irá ser", modismo intragável esse de usar o auxiliar em qualquer situação, como se o verbo pricncipal fosse um velho caquético que não se aguenta sobre as próprias pernas. Não teria sido mais simples (e mais bonito) se ela tivesse escrito "será"?
Professor, não insista, eu jamais vou assistir um filme, não tenho competência para tanto, e nem sei mesmo do que se trata. Seria algo como emendar a película, reestruturar o som, algo assim? Mas se o senhor me convidasse para assistir a um filme, eu poderia pensar no assunto.
 
marly siqueira caramalack em 22/05/2011 08:30:55
Arrazoooooo BAGNO!!!
 
carla zurutuza em 22/05/2011 07:30:31
NÃO SOU BOM DEPORTUGUES MAS CONSIGO ENTENDER O QUE O OUTRO DIZ, E CONCORDO QUE NOS BRASILEIROS DEVEMOS TER IDENTIDADE E NÃO FICAR COPIANDO E CRIANDO TEORIA, TEMOS QUE SER BRASILEIRO- EXEMPLO QUANDO APRENDI LER ERA MAIS OU MENOS ASSIM EX: LOGIM ERA LOGIM E NÃO LOGUIM- DEVEMOS É PARAR DE COPIAR E DIZER CORRETAMENTE SER BRASILEIROS , LINGUAJAR BRASILEIRO, POR QUE LINGUA PORTUGUESA SE MORO NO BRASIL, NÃO TEMOS IDENTIDADE- GUARANI-XAVANTE-TUPI ELES PRESERVAM MAS NOS BRASILEIROS NEM SABEMOS FALAR. TEMOS QUE LER O QUE ESTA ESCRITO DEIXEM A PRONUNCIA PARA QM PRECISA. FUIIIIIIIIIIIIII
 
VIDAL DA SILVA em 22/05/2011 06:15:32
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