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29/04/2013 14:02

Do Capitão América ao Bin Laden

Bruno Peron (*)

Bruno PeronOs Estados Unidos - e para benefício de sua inexplícita política cultural - têm obsessão histórica pela criação de heróis e outros personagens ufanistas. Não é à toa que o culto à personalidade neste país reproduz-se no êxito mundial de seus atores e sua indústria cinematográfica. Dois destes heróis chamam atenção: Capitão América, que combate em nome do Bem, e Bin Laden, que aterroriza em nome do Mal. O mais curioso nesta relação maniqueísta é que os paradigmas divinos e infernais, que se contrastam no plano das ideias, assumem dimensões planetárias.

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Num destes dias de rotina cronometrada (já, portanto, habituado ao relógio inglês), entrei na estação de metrô de Euston em Londres e uma mulher me pediu informação de itinerário. Depois que a encaminhei na direção certa, perguntei de onde era e me respondeu: "Da América". Retruquei-lhe: "Eu também. Do Brasil." Pasmou. Olhou-me então com estranhamento, como se o breve diálogo não estivesse bem ajustado. Provavelmente achou que eu fosse responder Chicago, Los Angeles, Dallas, Houston, Kentucky Fry Chicken ou Starbucks Coffee. Mas a América é um continente com trinta e cinco países em vez de outra referência ao Tio Sam.

O cenário de (des)informação que muitos desenham mentalmente e com convicção tem a ver com a facilidade como se justifica a gestão mundial - que inexiste nos termos das relações internacionais - como se fosse um jogo eletrônico. Ademais, só há ganhadores e perdedores nos polos competitivos dos Estados Unidos; os intermediários relegam-se à invisibilidade.

Desta forma, os Estados Unidos mantêm presença militar no Oriente Médio a contragosto dos povos desta região, que pouco podem fazer diante dos tanques que liquidam civis e das câmeras que selecionam imagens autorizadas para divulgação, e não hesitam em protestar e queimar a bandeira EUAna; os Estados Unidos são o maior portador de armas nucleares no planeta, mas não aceitam que Coreia do Norte e Irã também as fabriquem para dissuadir outros Estados de uma possível invasão; e o atentado na maratona de Boston em abril de 2013 já rendeu um suspeito identificado como "muçulmano" em vez de procedente de tal ou qual país. Outra vez e desnecessariamente o fator religioso impera sobre outros aspectos que identificam uma pessoa.

Por um lado, Capitão América foi criado em 1941 nos Estados Unidos durante o período da Segunda Guerra "Mundial". É um dos heróis típicos que colorem os desenhos animados e os gibis EUAnos. Por outro lado, conta-se que Osama Bin Laden nasceu na Arábia Saudita, de família rica e influente no âmbito petroleiro. Dizem os relatos que Bin Laden só conheceu a Al Qaeda - organização considerada pelos Estados Unidos autora dos atentados de 11 de setembro de 2001 - quando se interessou no Islamismo; então passou a financiar guerrilheiros afegãos.

Quiçá Capitão América seja mais real que Bin Laden no plano das fantasias que sustentam a vida diária da média dos cidadãos. Sendo assim, está em dúvida se Bin Laden realmente existiu; em caso afirmativo, se realmente o mataram em maio de 2011; na hipótese de que o tenham exterminado perto da capital paquistanesa como afirmam as agências de notícias que fizeram a reportagem, não se sabe quem será o próximo adversário que justificará o revide ao terrorismo com atrocidades piores que as cometidas pela adversidade que se faz questão de combater.

Não se sabe ao certo se foi realmente Osama Bin Laden e os planos de sua organização Al Qaeda ("A Base") que derrubaram as duas torres do World Trade Center em Nova York e lançaram um avião contra um prédio do Pentágono. No entanto, a política exterior EUAna conquistou seus objetivos estratégicos no território anteriormente controlado pelo personagem mundial Bin Laden apesar das milhares de perdas humanas. A suposta relação do Afeganistão com o terrorismo rendeu benefícios aos Estados Unidos na justificativa de sua invasão àquele país após o 11 de setembro de 2001. Era o Bem contra o Mal, Capitão América contra Bin Laden.

Entre um personagem e outro, fica o sabor do cinismo de um país e da apatia da meia-cidadania.

(*) Bruno Peron, é articulista, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mestre em Estudos Latino-americanos pela Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) e cursa doutorado pleno em Administração Cultural em Birkbeck College, Universidade de Londres

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