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29/11/2016 08:22

Doc, um herói brasileiro

Por Heitor Freire (*)

O que é um herói? Segundo o consenso geral, para um personagem ser legitimado como heroi é necessário que faça uma ação cujo sentido seja considerado excepcional, implicando um sacrifício, de forma que, por essa ação, ele se torne elevado.

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Deve também ser tipicamente guiado por ideais nobres e altruístas: liberdade, fraternidade, sacrifício, coragem, justiça, moral, paz. Precisa ainda ser capaz de enfrentar os desafios que surgem, precisa viver situações de intensidade e frequência que parecerão incomuns ou improváveis. E mais, destacar-se por sua capacidade de agir enquanto os outros não o fazem.

Baseado nesses critérios, constato que Rubens Marques dos Santos é uma pessoa que se ajusta perfeitamente a esse conceito. Quem é ele? Brasileiro, carioca, médico formado pela Faculdade Nacional de Medicina em 1956, tornou-se oficial-médico da Aeronáutica, paraquedista (com mais de 500 saltos), membro da primeira equipe do PARA-SAR (‘PARA’ de paraquedistas e ‘SAR’ do inglês Search and Rescue “busca e salvamento”). Por ser médico, recebeu de seus companheiros o apelido de “Doctor”, logo abreviado carinhosamente para Doc.

No PARA-SAR, participou de muitas missões de busca e salvamento, enfrentando situações muito difíceis, encarando fome, o cansaço, sede, frio, chuva, mosquitos, calor, etc. Atravessando matas, subindo serras e cortando pântanos com deficiência de equipamento adequado, encontrou na “moral do paraquedista” a força de vontade para superar as adversidades.

Em 1963, o resgate de um Catalina da FAB caído na selva amazônica - onde resgatou inclusive um bebê - foi destaque nacional, noticiado pelo jornal O Globo, que o chamou de herói, estampando sua foto com o bebê no colo na primeira página.

Outra missão que viria a ter grande destaque na imprensa aconteceu quando um velho navio mercante de bandeira grega, transportando frutas da Argentina para a África, navegando à altura do nosso litoral sul, pediu socorro urgente para que salvassem o seu comandante que fora acometido de um mal súbito.

Era um lento e antigo cargueiro de nome Hellas, do tempo da Segunda Guerra Mundial. O Doc saltou de paraquedas em alto mar e conseguiu salvar a vida do comandante. Recebeu uma comenda do governo grego por esse ato heróico. Em junho de 1968, aconteceu um fato que mudaria o rumo da vida do então capitão Santos: o brigadeiro João Paulo Penido Burnier, do alto comando da Aeronáutica, tentou desvirtuar a missão do PÁRA-SAR de salvar vidas para a de matar os “inimigos” do golpe militar de 64. 

O brigadeiro pretendia que o esquadrão fosse utilizado para explodir o gasômetro no Rio e a hidrelétrica de Ribeirão das Lages (fatos que seriam atribuídos aos grupos de esquerda, opositores ao regime), que só não foram consumados pela enérgica negativa do capitão Sérgio Miranda (Sérgio “Macaco”), então oficial daquele esquadrão.

Também se opuseram o capitão Rubens Marques dos Santos, condenado a oito dias de prisão, e o sargento Gilson Tardivo Gonçalves, que recebeu a pena de 25 dias de prisão incomunicável. O capitão Sérgio Miranda e o sargento Gilson Gonçalves foram cassados pelo AI-5. A partir daí, o capitão Sérgio dedicou-se a uma luta permanente pela reabilitação de seus direitos, o que não conseguiu em vida.

Só foi reabilitado depois de morto, quando lhe outorgaram o posto de brigadeiro do ar, “post-mortem”. A saga dos heróis do PARA-SAR foi objeto de uma longa reportagem da revista Veja, em 26 de junho de 1985. E o Doc, como castigo, foi transferido para a Base Aérea de Campo Grande, onde depois seria transferido para a reserva, já no posto de tenente-coronel.

Aqui em nossa cidade, dedicou-se inicialmente, ao ofício de médico militar e foi também professor universitário, além de atender como ginecologista e obstetra em seu consultório particular. O Doc é daqueles médicos à moda antiga, que sempre colocou em primeiro lugar a necessidade de seus pacientes, atendendo pelo SUS na maternidade da Cândido Mariano com dedicação exemplar.

Dos meus doze netos, sete nasceram pelas mãos dele. Doutor Santos, como ficou conhecido, foi secretário de Saúde de Mato Grosso do Sul, e também Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica do nosso estado, cargo que exerceu com o zelo de sempre, destacando-se pela competência, consciência e coragem, na firme defesa de seus princípios. Enfim, um verdadeiro heroi. De carne e osso.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

(**) PS. Sei que vou acabar levando um puxão de orelha do meu amigo, modesto como é. Mas cumpro o meu dever de gratidão e reconhecimento ao seu talento e à sua coragem.

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