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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

26/02/2015 09:58

Ensino superior: inclusão ou exclusão?

Por Ronaldo Mota (*)

Somos um país de 200 milhões de habitantes, sendo que, dos 24 milhões de jovens ema idade universitária típica (18 a 24 anos), somente 15% deles frequentam ensino superior (3,5 milhões). É um dos menores índices entre países de porte econômico semelhante e muito aquém dos principais parceiros ou competidores no cenário internacional.

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Há aproximadamente 13 milhões de profissionais com título superior no Brasil, que somados aos 7,3 milhões de matriculados neste nível de ensino, supondo que todos se formem, beiramos os 10% da população total, o que reflete baixo nível de escolaridade.

Por tais evidências negativas, o Plano Nacional de Educação, que é Lei, estabelece que no Brasil tenhamos matriculados 33% dos jovens entre 18 a 24 anos no ensino superior até 2024. Hoje, estamos distantes da metade do caminho.

A principal fonte de alunos do ensino superior, em tese, deveria ser o1,8 milhão de formandos dos 8,7 milhões de matriculados no ensino secundário, sendo que desses 1,6 milhões fazem o Exame Nacional de Ensino Médio, o Enem. Por outro lado, aproximadamente,12 milhões de candidatos têm procurado acesso ao ensino superior a cada ano, 8,7 milhões via Enem, evidenciando que a maioria deles não érecém-egressa do ensino médio, mas, sim,concluiu o nível médio há mais tempo e busca, anos depois, o retorno aos estudos.

Certamente constitui limitador ao crescimento do número de universitários o baixo número de formandos no ensino médio e as dificuldades conhecidas daqueles formados no ensino médio há mais tempo em retomarem seus estudos. Se os formandos atuais do ensino médio evidenciam graves deficiências, natural supor que, para aqueles formados há mais tempo, o afastamentodas salas de aula e a falta de tempo para os estudos tornam tais dificuldades ainda mais severas. Talvez no item memória eles sejam prejudicados, mas possivelmente sejam compensados por terem, em geral, uma atitude mais madura, a depender de utilização de metodologias e tecnologias inovadoras especialmente adaptadas a estas circunstâncias.

Uma das maneiras seria comparar os rendimentos médios dos dois grupos no Enem. Porém, este exame, em que pesem tentativas anteriores de torná-lo um exame mais de raciocínio do que de mero exercício de memória, nas suas versões mais recentes, a ênfase tem sido gradativamente em detalhes conteudistas e em especificidades de informações, restando pouco espaço para raciocínios, lógicas aplicadas e mensuração da capacidade de resolver problemas a partir de informações disponibilizadas.

O Governo Federal, ao adotar, em nome da qualidade,nota mínima no Enem para acesso ao financiamento FIES, pode eventualmente atingir, ou excluir, principalmente este público trabalhador que busca no ensino noturno e na rede privada concretizar o sonho não realizado quando concluiu o ensino médio.

Quanto à real possibilidade de incluir este público trabalhador e recuperá-lo dentro do contexto do ensino superior, há estudos mostrando que, em se adotando estratégias apropriadas e um conjunto de disciplinas de nivelamento, os resultados finais deste grupo são equivalentes, às vezes superiores, aos grupos com deficiências menores iniciaisque não participam do programa de recuperação.

A título de exemplo de experiência internacional, em trabalho recente, os pesquisadores Erick Bettinger e Bridget Long, das Universidades de Stanford e Harvard, respectivamente, tratam de necessidades de estudantes mal preparados, analisando se disciplinas de nivelamento ministradas no início dos cursos surtem efeito em termos de rendimento acadêmico posterior. Os resultados por eles obtidos, ainda que em realidade distinta, evidenciam que os alunos que frequentaram disciplinas (matemática e inglês, basicamente) de recuperação tiveram melhores rendimentos e, proporcionalmente, desistiram menos do que os demais, com bases acadêmicas anteriores similares.

No Brasil, dentro da mesma inspiração, e em conjunto com aqueles pesquisadores, pretendemos estudar se há significativa diferença em termos de melhoria de aproveitamento e diminuição de abandono quando, por exemplo, em um curso de engenharia, ao invés de submeter de imediato os calouros às disciplinas de física e cálculo, estas são precedidas de disciplinas de nivelamento. Além de recuperar os conteúdos do ensino médio, o estudante faz intenso uso de novas metodologias e tecnologias inovadoras, preparando-os para o mundo das ferramentas digitais aplicadas à educação e ao convívio, sem medo, com plataformas de aprendizagem, ao tempo que eles são estimulados ao hábito do aprender a aprender, em complemento ao simples aprender. Raciocínio semelhante se aplica às mais diversas carreiras, cada qual com suas peculiaridades e especificidades.

O Brasil precisa desesperadamente de um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável, sem o que não enfrentaremos nossos desafios, entre eles o de aumento de produtividade, diretamente relacionado ao nível de escolaridade do seu povo. Os estudos, especialmente no nível superior, em complemento a preparar profissionais para carreiras específicas, contribuem, ao ampliar o nível de escolaridade,para a melhoria de qualidade de vida, no nível individual, e por um país mais competitivo e sustentável, no plano coletivo.Haveremos que aprender a conjugar escala e qualidade, ofertando ensino superior de padrão aceitável e para muitos.

(*) Ronaldo Mota é reitor da Universidade Estácio de Sá e professor titular aposentado da Universidade Federal de Santa Maria

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