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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

21/03/2013 10:23

Éramos Três

Paulo César Pereira da Silva (*)

Em 7 de fevereiro de 1971, deixei um recado para a esposa no espelho do banheiro e saí para comprar pão e alguma coisa na feira.
Tinha casado no dia anterior.
Desci a Rua Silveira Martins, onde fui morar, no Catete. Logo adiante, quase na mesma quadra havia uma pequena mercearia.
Quando cheguei, estavam somente o dono do comércio e Ciro Monteiro (Formigão) que, já com uma cerveja aberta e se acompanhando com a caixa de fósforos tentava entoar “Até pensei”, de Chico Buarque de Hollanda.
Percebendo que ele não conhecia direito a letra e se perdia na música, comecei a soprar em seu ouvido, no tom em que ele cantava.
Repetindo uma ou duas estrofes, parou e disse-me: canta, garoto, você conhece a letra e música. Assim fiz e terminamos a bonita canção do Chico: - ... toda a dor da vida me ensinou essa modinha que de tolo, até pensei que fosse minha.
Aí mais uma, outra e mais cerveja.
Sabe outra, garoto?
E cantei com o acompanhamento do saudoso Formigão na caixa de fósforos, Chão de Estrelas, Luzes da Ribalta, Rosa, A Deusa da minha rua, Noite do meu bem, Brigas, Amélia, Laranja madura, Última inspiração, Carinhoso, Camisa listrada, Eu e a brisa, Eu sonhei que tu estavas tão linfa, Iracema, Marina, Lembranças, Se todos fossem iguais a você, Três apitos, Professorinha e rolava música. E mais cerveja.
Lá pelas tantas, já mais íntimos um do outro, falei:
“Ciro, eu queria te perguntar uma coisa, e se for verdade, gostaria que me confirmasse.
Contam que num certo dia, numa mesinha quadrada, com tampo de mármore, em Vila Isabel, estavam você, Noel Rosa, Aracy de Almeida – a cantora favorita de Noel – e outro sambista, quando chegou do Centro um amigo de vocês, com um papel na mão. Entregando-o a Noel disse-lhe: olha o que compuseram pra você, por não sair da Vila.”
Noel Rosa tinha problemas de saúde, uma doença congênita no queixo, problemas respiratórios, fumava muito, morreu novo, aos vinte e sete anos de idade, e não gostava mesmo de sair de Vila Isabel.
Wilson Batista, compositor conhecido dos cabarés da Lapa e frequentador do bar Esquina do Pecado, na Praça Tiradentes, que já vinha travando um duelo musical com Noel, compôs a música Conversa Fiada, cuja letra foi levada a Noel por esse amigo em comum.
Diz que Noel leu a letra do samba de Wilson Batista, chamou você e lhe pediu que desse um ritmo de samba na caixa de fósforos, cantando assim, da primeira a última tal qual o fato que causou inveja a Antonio Salieri ao ler as partituras manuscritas de Mozart, sem um erro sequer:
Quem é você que não sabe o que diz
Meu Deus do céu que palpite infeliz
Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz que, sempre
Souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também.
Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem você que não sabe o que diz.
Na vila tem feitiço e tem farofa...
A esta música deu o título de Palpite Infeliz.
Diz que quando Noel morreu, Silvio Caldas e Sebastião Fonseca fizeram para ele uma homenagem póstuma, com o título Violões em funeral, que diz assim:
Vila Isabel veste luxo
Pelas esquinas escuto
Violões em funeral.
Choram bordões choram primas
Solução de todas as rimas
Numa saudade imortal.
Entre as nuvens escondidas
Com em prece vestida
A lua fica a chorar
E o pranto que a lua chora
Goteja, goteja agora
Nos oitis do boulevard.
Adeus cigarra vadia
Que mesmo em tua agonia
Cantavas para morrer
Tu viverás na saudade
Da tua grande cidade
Que não te há de esquecer.
Adeus poeta do povo
Que ressuscitas de novo
Quando na morte descansas.
Senhor de pele mais clara
No qual o Senhor encarnara
A alma sonora do samba.
Toda cidade soluça
Comovida se debruça
Junto ao caixão de Noel
Estácio, Matriz, Salgueiro.
Todo o Rio de Janeiro
Consola Vila Isabel.
Nesse particular, Sebastião Fonseca foi mais generoso e justo com o menestrel da Vila do que Wilson Batista que ignorou a morte de Noel.”
Quando terminei, Ciro Monteiro, chorando, escorrendo lágrimas de seus olhos, me disse:
“É verdade, garoto. Como é que você sabe disso? Você é um menino velho!”
Recordamos outras canções e já no final da tarde, eu disse que precisava ir embora, pois, tinha casado ontem e vim, apenas, comprar o pão para o café da manhã.
Ciro falou:
“Rapaz, me desculpa, mas vou te dar dois convites. Estou inaugurando um bar moderno, bem próximo da Universidade Federal Fluminense, onde você disse que sua esposa faz Jornalismo. Quero ver vocês lá para que eu possa confirmar essa história e livrar a tua pele.”
Olhei para o dono do estabelecimento me despedindo, quando ele me falou:
“Vá com Deus, garoto. Você nunca vai esquecer esse dia. Nem eu.”
Na terça-feira seguinte, estávamos com “Le Petit Paris” em Icaraí, eu, minha mulher e o Formigão.
Éramos três.
Campo Grande, 24 de novembro de 2009.

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(*) Paulo César Pereira da Silva é juiz aposentado. Atualmente é diretor-presidente do Instituto Luther King.

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Gostei muito da crônica e fico hoje imaginando a situação: sair pra comprar pão na manhã seguinte ao casamento, encontrar Ciro Monteiro e se envolver tanto na MPB!!! Realmente a nossa musica tem esse poder.
 
Maria Jose Pereira da Silva em 24/03/2013 20:49:48
Momento único para este portal de notícias... Diariamente busco informações do cotidiano, mas, raramente conseguem prender a minha atenção.
"Éramos Três" configura-se num marco, em termos textuais e registro de um fragmento da história da nossa Música Popular.
Permeado de ricos detalhes, o fato nos envolve, de forma contagiante, embalando-nos virtualmente pelo rítmo caprichoso de uma caixa de fósforo.
Todavia esclareço que, para mergulhar neste assunto, é necessário conhecer a arte de Chico Buarque, Ciro Monteiro, Noel Rosa, Wilson Batista, Aracy de Almeida e, enfim, muito da MPB e (lógico) de boemia...
Resta-me parabenizar o autor pela feliz abordagem pelo tema bastante agradável e pertinente a nossa memória cultural.
 
Edgar Soruco em 21/03/2013 13:56:29
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