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15/01/2012 11:30

Evandro Lins e Silva: uma breve homenagem

Por Wadih Damous*

“Uma vida longa dá para tudo.” Certa feita foi assim, parodiando o escritor português Miguel Torga, que Evandro Lins e Silva expôs sua percepção do tempo decorrido e de sua trajetória dentro dele. E, de fato, a vida longa de Evandro deu mesmo para tudo. Para ser o advogado excepcional, tribuno inigualável, defensor dos perseguidos de toda natureza, inclusive os mais de 1.000 políticos vitimados pelo Estado Novo, a quem prestou assistência jurídica gratuita; para ser o homem de Estado, ministro das Relações Exteriores e Chefe da Casa Civil do Governo João Goulart; para ser o membro respeitado do Poder Judiciário, exercendo com denodo democrático e destemor o alto cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, de onde saiu cassado pela ditadura militar por sua incompatibilidade com aquele nefando regime de força. E deu mais. Deu ainda para ser de novo advogado e atuar, como procurador da Nação brasileira, no memorável movimento pelo afastamento do presidente Fernando Collor.

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Com tantos títulos, merecidamente conquistados a custa de seus estudos jurídicos e temperados por uma carreira profissional absolutamente brilhante, Evandro Lins e Silva tornou-se, inegavelmente, um dos maiores vultos da advocacia brasileira. Dele pode-se dizer que compreendeu com exatidão, levando a efeito prático, o papel que esse profissional tem a desempenhar na sociedade e na história do país, desde as lutas abolicionistas de Luis Gama e Rui Barbosa, passando pela ação missionária de Sobral Pinto, o católico militante que defendeu Prestes, comunista e ateu convicto, até chegarmos aos nossos heróis da categoria que, com o risco de suas próprias vidas, enfrentaram os anos sombrios da ditadura militar.

Em Evandro Lins e Silva a advocacia sobressaia-se respeitosa perante a sociedade, porque o profissional sempre esteve, de mistura, amalgamado de dotes técnicos, dirigidos à defesa dos clientes e ao cumprimento do mandato, e do espírito elevado de protetor dos valores necessários à edificação de uma sociedade justa, fraterna e igualitária. Pernambucano de origem, nascido no Piauí, Evandro formou-se na Faculdade de Direito do Estado do Rio de Janeiro em 1932, vivenciando os acontecimentos desencadeados pela Revolução de 1930, que pôs abaixo a República Velha. Dele mesmo nos vem uma breve avaliação do que foram aqueles anos de estudo: “período tumultuado, com a revolução de 1930 de permeio, passando por decreto e sem exames, em curso deficientíssimo, reduzido a quatro anos por uma reforma de ensino, raras aulas frequentadas”. Destarte, pode-se idear que sua notável cultura jurídica tenha sido forjada muito mais por sua vontade autodidata, ao largo da formação escolar clássica. E foi ainda enquanto estudante, ao assistir a um julgamento, que adveio sua paixão da vida toda, a advocacia criminal e o júri, lugar em que seguramente passou a maior parte de sua vida profissional e do qual se tornou um de seus maiores expoentes. Certamente o seu caso de estréia na Corte popular em muito contribuiria para o fatalismo dessa paixão: era a defesa de um réu chamado Otelo, que assassinara a amante, evocando, na forma e no fundo, a tragédia clássica de Shakespeare.

Sobre o grande advogado, jurista, político, homem de Estado, homem de letras (acadêmico da ABL, onde ocupou a Cadeira número 1) homem de esquerda, fundador do Partido Socialista Brasileiro, há tanto o que dizer, sempre avultando, enaltecendo, divulgando os feitos. Os 100 anos que Evandro estaria completando, certamente teriam ainda dado para fazer mais ainda. E não porque tenha faltado algo, mas sim porque de e em Evandro Lins e Silva o fazer coisas implicava no exercício diário da plena cidadania, da busca constante pela justiça. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o próprio Evandro nos revela o segredo de sua humanista missão. Novamente citando Miguel Torga, afirmou então que continua ria “com a mesma pertinácia a ser sinaleiro da esperança no caminho de quantos, neste vale de lágrimas, desesperaram de a encontrar”. E, de fato, Evandro foi e continua ser esse sinaleiro para todos nós.

(*) Wadih Damous é presidente da OAB-RJ.

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