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29/06/2012 10:00

Festas juninas, entre passado e futuro: aqui e agora

Por Jaime de Almeida (*)

Falando de festas, geralmente hesitamos entre duas perspectivas quase excludentes: buscar regularidades imperceptíveis de um fenômeno imemorial, ou enfrentar a concretude única da festa, aqui-e-agora.Imersos numa cultura letrada, ciosa de grandes transformações sociais ocorridas ao longo de um tempo cuidadosamente medido que tende a acelerar-se vertiginosamente, nossa tendência recorrente é apreciar festas tradicionais, como as de São João, no registro da saudade.

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As festas juninas são nossa grande oportunidade anual de reviver artificialmente um tempo que nunca vivemos efetivamente. Para a maioria, elas evocam a nostalgia da infância escolar, quando nos iniciamos na representação letrada, urbana e saudosista/progressista do passado nacional, segundo o programa folclorista estabelecido nos começos do século XX. Muitos somaram a esse primeiro estrato vivido da memória outras festas da adolescência e agora, melhor ainda, emocionam-se profundamente ao introduzir seus filhinhos na cultura festiva de São João.

A temporada das festas juninas chega a superar a do carnaval em cidades nordestinas que competem pela massa de turistas em férias escolares e parlamentares. Em outras regiões, nas festas de peão acopladas às exposições agropecuárias, os jovens já não precisam fantasiar-se de caipiras e agora são country.

Menos massivo, agora com muitos novos destinos, o êxodo rural continua drenando populações rurais para o mundo urbano. Nesse território desconhecido e perigoso, as igrejas evangélicas, que são a mais importante rede de sociabilidade, flexibilizam sua radical ruptura com as tradições festivas católicas e começam a admitir “arraiais gospel”, pois é difícil convencer as famílias recém-chegadas a proibir a participação de suas crianças nas festinhas escolares regidas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Neste solstício de inverno de 2012, as festas juninas recriam mais uma vez a ilusão coletiva de retorno à inocência e alegria de um passado rural perdido para sempre. Enquanto isso, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20) reforçou nossa nova percepção do tempo: o futuro já não nos promete a realização de todos os sonhos de progresso da humanidade – agora, em lugar de acelerar, muitos ativistas sociais procuram frear o crescimento das forças produtivas, replantar florestas e acertar o passo com os povos ancestrais.

O nome Rio+20 assinala a urgência da contagem regressiva em que cada década é convocada a prestar contas das medidas efetivamente tomadas em defesa do equilíbrio planetário. Estamos intimados a avaliar o que se fez desde junho de 1992, quando a mesma cidade sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92).

Há 20 anos, comemorava-se o V Centenário da América; as festas juninas ganharam temas e acentos ecológicos; o grande assunto era a denúncia de corrupção feita por Pedro Collor contra o seu próprio irmão, o presidente Fernando Collor de Mello. Logo as alegres multidões de jovens tomariam as ruas com suas caras pintadas. Quando findava setembro, o presidente renunciou e o país acreditou que ali se encerrava, enfim, o ciclo político perverso aberto pelo golpe militar de 1964.

Nas festas juninas de 2012, sem ânimo para olhar os santos do mês nos mastros tradicionais, muitos brasileiros observam perplexos a foto em que Lula e Maluf se abraçam nos jardins de certa mansão da Avenida Paulista.

(*) Jaime de Almeida é professor do Departamento de História, da Universidade de Brasília. Possui Bacharelado e Maîtrise em História pela Universidade de Paris VIII; Licenciatura e Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo; e estágio pós-doutoral na Universidade de Paris I.

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Parabéns pelo artigo! Lindo. O mais importante do texto que eu achei, foi o paradoxo entre o passado e o futuro, muito bem distribuido na linguagem, com uma ótima pitada na política.
 
Gilson Giordano em 29/06/2012 12:10:18
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