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19/06/2012 10:35

Floradas na serra, sutileza e equilíbrio

Por Guido Bilharinho

O fracasso do grande projeto da Companhia Cinematográfica Vera Cruz derivou de vários fatores, conforme expostos e exaustivamente debatidos desde então. Nunca é por demais repetir que um deles, talvez o mais importante - e que persiste agravado até hoje (e até quando?) - é a circunstância da distribuição dos filmes produzidos pela Companhia estar afeta a empresas estadunidenses. Conquanto elas também tirem proveito do êxito comercial dos filmes que distribuem, seu maior, fundamental e permanente interesse é com sua própria produção nacional, pelo que limitam a propagação de filmes brasileiros, atrasando, inclusive, os repasses à Vera Cruz, conforme consta.

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É sabido que o lucro fabuloso do êxito de O Cangaceiro (1953), de Vítor Lima Barreto, ficou, na sua quase totalidade, para a distribuidora, não por acaso ianque. O próprio diretor nem teve mais condições, ao menos razoáveis, para realizar outros filmes.

Assim, não por acaso também, foi estadunidense a distribuidora de Floradas na Serra (1954), de Luciano Salce (Roma/Itália, 1922-1989), êxito de crítica e de público, o que é raro. Não de toda crítica, porém, nem de todo público.

O fato do diretor ser estrangeiro e, portanto, não afeito e ambientado à realidade brasileira, não o impediu de realizar um dos mais significativos filmes nacionais.

Com base no romance homônimo de Diná Silveira de Queirós, Salce imprime ao drama da heroína a conotação universal que toda problemática humana contém, por mais situada e condicionada seja.

A nada simples estória centralizada em poucas personagens em clínica para tratamento de tuberculosos articula-se em torno de duplo eixo: a doença e o amor surgido entre dois pacientes. O entrelaçamento desses fios ficcionais é eficaz.

Mas, o que avulta, sobressai, centra e concentra a ação e seu significado é esse enastramento, seu desenvolvimento, aprofundamento e desenlace.

Iniciado timidamente, num simples bar à beira de estação ferroviária, cujo ambiente e enquadramento das personagens recorda certas cenas de Orson Welles, o relacionamento entre os protagonistas cresce pouco a pouco e é tratado com parcimônia e sensibilidade, fluindo os acontecimentos com naturalidade e segurança, vencendo, com pertinência e propósito, as etapas conducentes ao clímax e ao desfecho esperado, tal a propriedade de condução e concatenação dos citados fios ficcionais.

A sutileza no tratamento do drama só encontra paralelo no equilíbrio e firmeza com que o cineasta o articula, nuançando-o cuidadosamente com reações humanas carregadas de legitimidade, compondo o quadro geral da situação com requintada ênfase no detalhamento reativo cotidiano das personagens, suas manifestações e atitudes.

A concentração dramática é adequadamente efetuada e conduzida, apresentando-se a problemática emocional e física dos protagonistas e das personagens que as rodeiam de maneira completa, com todos os elementos indispensáveis ao conhecimento e acompanhamento do drama que se desenrola na tela.

O ambiente da clínica e a vinculação médico-paciente e entre estes merecem também de Salce o mesmo e cuidadoso planejamento concedido ao drama central, mercê não só do persistente ritmo de seu encaminhamento como também da pertinência da seleção dos fatos e incidentes que os compõem e impulsionam.

A tudo é dado desenvolvimento e enfoque humano universalizante, extraindo-se da situação, e exibindo-os, apenas os elementos essenciais.

Por sua vez, a ambientação interna e as locações externas da exuberante paisagem seguem a mesma orientação, compondo belo painel contrastante com os dramas angustiosos de condição fisicamente fragilizada.

Todavia, o ponto alto do filme - e um dos mais relevantes do cinema - é a criação da protagonista, de grande e impressionante autenticidade e dignidade, assumindo seus atos, gestos, movimentos e expressões a contextura concreta de realidade palpável e não apenas observável à distância, na tela, encarnada por uma das maiores atrizes do cinema, a legendária Cacilda Becker, numa de suas melhores interpretações.

(do livro O Cinema Brasileiro Nos Anos 50 e 60, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2009-www.institutotriangulino.wordpress.com)

Foto anexa de cartaz do filme.

() Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional.

(Publicação autorizada pelo autor)

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