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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

25/08/2016 15:14

Gênero e sexualidade na Olimpíada Rio 2016

Por Wagner Xavier de Camargo (*)

Há uma semana, ainda no meio das contendas dos Jogos Olímpicos Rio 2016, fui contatado por uma jornalista que ansiava por minha opinião sobre o que ela chamou de “Olimpíada da diversidade”.

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Segundo sua hipótese, ou pelo menos o que os meios de comunicação estavam alardeando insistentemente naquele momento, os jogos olímpicos em curso na cidade carioca seriam os “mais gay” de todas as edições, principalmente tendo-se em vista o coming out de alguns/mas atletas e pedidos de casamento de parceiros/as de mesmo sexo, ocorridos durante as competições.

Exemplos foram a confirmação da judoca brasileira Rafaela Silva de que é lésbica e possui uma companheira, do britânico da marcha atlética Tom Bosworth, que pediu em casamento seu namorado Harry Dineley, da jogadora brasileira de rubgy Isadora Cerullo, que igualmente foi pedida pela companheira Marjorie Enya, dentre outros.

Isso começou a ser furo de reportagem de vários veículos de comunicação pelo mundo, logo na primeira semana da competição (Franceschini, 2016). Jornais como o espanhol El País, o francês Libération e mesmo o norte-americano The New York Times já haviam dado destaque a tal aspecto, a partir das primeiras declarações, das primeiras proposições de casamento e do “clima de aceitação” inspirado pelos jogos cariocas.

Por desenvolver pesquisas que inter-relacionam gênero e sexualidade ao mundo esportivo, disse que poderia refletir sobre os casos e responder às demandas de sua pauta jornalística, mas não desenvolveria um exercício de futurologia, visto que ela insistia em querer saber se daqui para frente todos os jogos olímpicos seriam “desse jeito”.

Em que pese considerar uma surpresa todos esses fatos relativos às sexualidades e aos gêneros de atletas, os quais foram aparecendo e se avolumando durante os jogos, quero discutir aqui em que medida isso tudo apresenta uma ruptura com o modelo esportivo em vigor e postula(ria) uma mudança efetiva em edições olímpicas vindouras.

Primeiramente, gostaria de começar com alguns fatos, inclusive anteriores à Rio 2016. Já antecipo que, de um lado, considero que nossa edição olímpica veio após uma onda de conservadorismo no mundo esportivo – lembremo-nos de Sochi e a última edição dos Jogos Olímpicos de Inverno em 2014, quando o governo russo assinou a lei anti-gay, que cassava e prendia pessoas acusadas de espalhar “propaganda de relações sexuais não tradicionais entre menores” (Levintova, Gordon, Jones, 2013) – e, de outro, vivemos em tempos de observação e cuidado com os direitos humanos de minorias sociais.

Até a edição das Olimpíadas de Verão de Londres 2012 tínhamos um amontoado tímido de atletas assumidos/as no grupo de elite do esporte olímpico: 10 em Pequim 2008 e 22 em Londres 2012, a maioria desses atletas composta de mulheres, que não se identificavam com o regime heteronormativo imposto socialmente.

O número reduzido não é de todo surpreendente, visto que a literatura especializada traz que atletas de rendimento (particularmente do gênero masculino), em geral, não “saem do armário” por conta de seus patrocínios e de suas carreiras, e, quando o fazem, estariam em decadência física ou de marcas, apresentando trajetórias consolidadas (seriam medalhistas ou campeões/ãs olímpicos/as e mundiais) ou mesmo já se encontrariam às vésperas da aposentadoria (Camargo, 2012; Owen, 2006; Anderson, 2005; Kimmel, 1994; Pronger, 2000; Pronger, 1990).

Tais situações confeririam uma ideia, por um lado, de “missão cumprida” para com a nação e com patrocinadores e, de outra parte, de que já não têm de se reportar a ninguém – e, dessa forma, eles estariam “livres” do regime massacrante de treinamento e vigilância do esporte-competição. Depois de assumirem-se com outra orientação sexual, a tendência é engajarem-se em campanhas anti-homofobia no esporte, participando de ações junto a escolas e outras organizações de luta pelos direitos humanos de minorias sexuais.

Talvez com a entrada nessa equação de atletas bem jovens, que recusam o armário a priori, estejamos observando uma mudança de paradigmas para o futuro: se não se tem armário, não se têm amarras e, de pronto, gostem ou não os patrocinadores ou o público, tais atletas se outorgam o direito de estarem fora dos ditames da heteronorma instituída desde o início de suas carreiras esportivas.

Esse fenômeno recente, demonstrado por atletas como Mathew Mitcham, Ian Matos, Tom Delay, Julia Vasconcelos, dentre outros/as, aponta para um novo norte nas considerações sobre sexualidade em arenas esportivas (e que ainda precisa ser investigado).

Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 somaram, ao final, 53 nomes de atletas “fora do armário” (OutSports, 2016), dentre os quais a maioria ainda é do gênero feminino.

Aqui se percebe que a estrutura masculinista e machista do esporte tem um peso irrefutável nos posicionamentos de atletas representativos da famigerada “categoria masculina”, que devem responder às imposições do ser “macho”, “viril”, “agressivo” e, sobretudo, não ser “sensível” perante todos – o choro, quando aparece, deve estar restrito aos momentos de glória, de sucesso e de trajetória eficazmente coroada com o pódio e a medalha.

O problema que vejo relativo a essa “Olimpíada da diversidade”, como argumentou a jornalista, é ainda a pouca ou nenhuma atenção à diversidade real de corpos, gêneros e orientações sexuais.

Por isso arrisco dizer que a abrangência da diversidade nas competições cariocas (para a qual atentei anteriormente) é limitada, pois infelizmente o esporte de alto nível acomoda-se numa estrutura de domínio heteronormativo, que não suporta o dissonante e, no limite, não permite a efetiva ocupação de seu espaço pelos “desviantes”. Imaginem os jogadores hipermasculinizados de rugby ou os neopentecostais futebolistas tendo colegas declaradamente não heterossexuais ao seu lado nas duchas dos vestiários após as contendas!

Em que pese estar feliz pela “representatividade” de minorias sexuais engendrada pelos discursos e posicionamentos desses/dessas atletas que, empolgados e embebidos pelo clima olímpico e pelos embalos da cidade maravilhosa, colocaram suas sexualidades sob as luzes dos holofotes e das especulações midiáticas, entristeço-me ao contabilizá-los no universo dos mais de 11 mil atletas presentes nessa edição dos jogos. Será que não haveria mais alguém?

Particularmente, temo por Caster Semenya, recém-consagrada campeã olímpica dos 800 metros rasos, que se assumiu lésbica para afastar a classificação de “intersex” e pôde competir num vácuo jurídico criado pela ação movida pela indiana Dutee Chamd junto à Federação Internacional de Atletismo Amador (IAAF), mas que tem futuro incerto, tanto no esporte quando na vida, pois sujeitos que estão entre gêneros ou que não se identificam com os lados binários, infelizmente não podem existir e têm seus corpos colocados sob vigilância do Estado e das agências reguladoras.

Dessa forma, o que veio à tona nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 causa surpresa e deixa para a análise de especialistas que problematizam o gênero no esporte uma complexa equação, de um fenômeno ainda incipiente, que seguramente é real e polêmico, que gera representatividade no Olimpo de estéticas sexuais não heteronormativas, mas que talvez seja (ainda) insuficiente para uma mudança efetiva do modelo olímpico, assentado nas lógicas patriarcais, nos posicionamentos sexistas e na inferiorização de sujeitos não hegemônicos.

Contudo, penso que a presença de sujeitos não heteronormativos (assim como a de pessoas com deficiência) participantes na Rio 2016 trouxe um forte potencial disruptivo, que corrobora a crise do modelo olímpico e abre brechas para mudanças profundas nas próximas edições dos jogos. O que ocorrerá, no entanto, é viver para ver!

(*) Wagner Xavier de Camargo é pesquisador do Ludens-USP sobre torcidas virtuais e homofobia, e pós-doutorando em Antropologia Social na UFSCAR

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