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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

04/07/2016 10:37

Islamofobia não pode ser resposta para homofobia

Por Francirosy Campos Barbosa (*)

O que a morte de 50 pessoas na boate Pulse tem a ver com o Islã? Nada. Entretanto, o leitor pode dizer: o atirador era de família muçulmana, então era muçulmano, portanto, foi mobilizado pela regra do Islã, que vê na homossexualidade um interdito. Sim, o Islã vê na homossexualidade um interdito, assim como, o Judaísmo e o Cristianismo e todas elas religiões monoteístas. Mas, não se resolvem crimes de homofobia com islamofobia.

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Em primeiro lugar, vamos diferenciar muçulmano de fiel, categorias que ouço no campo e que faz sentido no contexto religioso. Se autodeclarar muçulmano não é o mesmo que ser fiel, porque, o primeiro significa que a pessoa nasceu na religião ou se converteu à mesma, o fiel é aquele que pratica a religião, segue seus dogmas. Da mesma forma que muitos brasileiros dizem: “sou católico não praticante”, há também os “muçulmanos não praticantes”, como era o caso desse atirador, basta ler os vários relatos sobre a sua personalidade.

“Toda alma é depositária das suas ações” (Alcorão 74:38)

Ao dizer que a homossexualidade é interdita estou pontuando uma regra islâmica que separa o comportamento entre lícito (halal) e ilícito (haram). A sexualidade no Islã é halal quando se trata de casais (homem e mulher casados); por sua vez, a homossexualidade ativa é interdita, ao contrário da homossexualidade passiva. Entende-se por ativa aqui, quando a homossexualidade é exposta, incentivada, pública, isto é, tem a prática sexual; a passiva, por sua vez, reconhece a sua orientação, mas não estabelece nenhum contato sexual.

Em seu livro Le génie de l´islam” Tariq Ramadan (2016) faz ponderações discordando de algumas leituras literalistas que apontam todo homossexual como não muçulmano. Ele se coloca contrário a isso, dizendo que a restrição está na publicização, como apontei acima, e também considera que no Alcorão o julgamento se refere ao ato e não à pessoa. Nesse sentido, retomo a premissa de que um muçulmano-a homossexual não deixa de ser muçulmano-a pelo ato em si, mas sim, quando não reconhece que este ato seja ilícito na cosmologia islâmica.

Podemos dizer que esse é o consenso geral das tradições islâmicas, sunita ou xiita. No Irã, por exemplo, autoriza-se a mudança de sexo, mas sabe-se que muitas pessoas optam por fazê-la não por vontade própria, mas para seguir uma normativa do sistema islâmico do país. Neste caso, percebe-se que o tratamento ao tema se restringe ao aspecto da transexualidade e hermafroditismo (khuntha), assim como homens “afeminados” (mukhannath), conforme apresenta em seu texto Mohammad Hashim Kamali.

Hoje em dia, temos uma série de pesquisadores-as muçulmanos-as que se debruçam sobre a temática de um “Islã Progressista ou Islã Inclusivo”, tal qual consideramos na academia, que significa a preocupação com as realidades LGBTQIAs em comunidades islâmicas; alguns nomes importantes para este debate são: Amina Waduh, Asma Barlas, Ludovic Muhamed Zahed, entre outros.

Claro que nada do exposto resolve a questão, nem tenho pretensão de fazê-lo em tão pouco espaço textual, apenas aceno para alguns pontos a fim de que militantes LGBTQIAs e muçulmanos-as possam dialogar sem os entraves que a questão possa colocar. Considerei interessante o comentário feito por Luiza Coppieters (professora de Filosofia, militante feminista e LGBT) no meu post do Facebook (22/06/16) quando eu anunciava a escrita deste texto:

“Há um jogo político na disputa Mundo Ocidental vs Mundo Islâmico que quer marcar ideologicamente o Ocidente como um lugar de liberdades individuais, como a existência de LGBT, enquanto o Mundo Islâmico é O mal e fruto de todas as mazelas da humanidade? Isto é, jogam com as questões LGBT pra tentar se diferenciar com o que seria o MI.” [sic]

O comentário de Luiza nos faz retomar o tema deste artigo A Islamofobia não pode ser a resposta para Homofobia, o jogo político fica evidente no caso de Orlando quando o reforço da identidade do atirador como muçulmano ganha projeção. É fato que muitas lideranças LGBTQIAs se colocaram contra esta associação fácil do “muçulmano terrorista”, e o comentário de Luiza, a meu ver, também vai contra esta aproximação entre Islã e terrorismo.

Há grupos de muçulmanos, cito aqui o Coletivo de Muçulmanas e Muçulmanos Contra Golpe, entre outros, que também se colocam contra a homofobia e qualquer outro tipo de perseguição que interfira na dignidade humana: xenofobia, intolerância religiosa, misoginia.

O pressuposto utilizado pelo grupo é exposto no próprio Alcorão: “Se alguém matar uma pessoa seria como se ele matasse toda a humanidade, e se alguém salvar uma vida, seria como se ele salvasse a vida de toda a humanidade”(5: 32). Neste sentido, a tragédia ocorrida em Orlando é completamente anti-islâmica e foge aos preceitos da religião.

No adab (comportamento) islâmico não cabe qualquer tipo de discriminação. O fato de ser interdita a homossexualidade não dá o direito a outros-as muçulmanos-as de fazerem comentários maldosos, aliás, no Islã isto é considerado fitna (julgamento moral que pode desqualificar uma pessoa), que vai na contramão do adab islâmico.

É preciso tomar cuidado com o que se fala de uma outra pessoa muçulmana ou não muçulmana. Em sendo assim, podemos considerar que a dignidade humana é regra alcorânica, retomando o exposto acima de que o ato é errado (ilícito, haram) na cosmologia islâmica, mas a pessoa deve ser respeitada em sua integridade.

E, para finalizar, cabe ressaltar que muçulmanos-as repudiaram e lamentaram o atentato ocorrido em Orlando, Flórida; por isso, não se pode apelar à islamofobia para se responsabilizar um ato tão bárbaro que atinge a todos. Para os-as muçulmanos-as é claro o entendimento da passagem do Alcorão: “Todos comparecerão ante Deus!” (14:21)

(*) Francirosy Campos Barbosa é pós-doutoranda pela Universidade de Oxford, docente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (SP), integrante da Rede Não Cala e organizadora do livro Olhares Femininos sobre o Islã: imagens, etnografia e metodologias

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