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Campo Grande, Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

27/01/2015 16:25

Je suis...

Por Heitor Freire (*)

Os acontecimentos dramáticos que vitimaram 10 jornalistas em Paris estão merecendo um destaque constante em todas as mídias. A tragédia comoveu a todos. Foi uma reação extrema de um grupo religioso que mostrou a sua revolta com uma ação violenta e exagerada.

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A prática do humor por intermédio de charges se consolidou ao longo do tempo, provocando quase sempre uma reação simpática. Mas o que o Charlie Hebdo faz ultrapassa os limites de uma simples charge, deixando de ser uma manifestação de humor para se caracterizar mais como uma instigação ao ódio religioso, racial, humilhando indistintamente a todos, cristãos, muçulmanos etc.

Essa prática não pode, em hipótese alguma, ser confundida com liberdade de expressão. Há inclusive uma charge do Charlie figurando uma orgia sexual envolvendo a Trindade Cristã, que chocou todos independentemente de sua preferência religiosa.

Ou seja, o Charlie foi cutucando a onça com vara curta até que deu no que deu. Os ataques atingiam todas as crenças, os povos do terceiro mundo, e estavam a serviço do racismo e da intolerância, usando a máscara da extrema- esquerda.

Ao longo dos anos o Charlie chamou os negros de macacos, os árabes de fedorentos, os judeus de avarentos, os cristãos de sodomistas e por aí afora. E os políticos de direita aproveitaram o atentado para tentar recuperar a popularidade e a liderança perdida, organizando uma passeata em que os líderes mundiais se abraçaram e aparentemente estavam liderando a passeata em Paris.

Os políticos não perdem oportunidade para se aproveitar dos acontecimentos “duela a quien duela...”; o que querem é levar vantagem. A tragédia virou massa de manobra eleitoral. Como aliás, já aconteceu aqui no Brasil. Carlos Lacerda usou o cadáver do Major Rubens Vaz (que foi morto em um atentado contra ele) para montar uma máquina de demolição do governo Vargas e da figura do presidente Getúlio Vargas.

É interessante que os trágicos acontecimentos na Nigéria não tiveram a mesma abordagem na grande imprensa. Não fez nem cócegas na opinião mundial.

O que acontece na África não é considerado: a Guerra de Biafra (1967/1970) fez mais de 1 milhão de vítimas. Nos últimos três anos mais de 10 mil pessoas morreram em choques étnicos e religiosos na Nigéria. Depois da onda de solidariedade em resposta ao atentado no jornal Charlie Hebdo, surge o apelo de um bispo católico da Nigéria, Igantius Kaigama, para que o mundo olhe para os ataques do grupo Boko Haram: “Estão a matar centenas de pessoas na Nigéria, incluindo crianças e a comunidade internacional tem que olhar para aqui como olhou para Paris”.
Boko Haram é uma organização fundamentalista islâmica de métodos terroristas, que busca a imposição da lei Sharia (código de leis do islamismo) de forma radical no norte da Nigéria.

Oficialmente o Boko Haram alega que luta pela Sharia, que combate a corrupção do governo, a falta de pudor das mulheres, a prostituição e outros vícios. Segundo eles, os culpados por esses males são os cristãos, a cultura ocidental e a tentativa de ensinar algo a mulheres e meninas.

O terror em qualquer de suas manifestações deve ser combatido com rigor. A humanidade é tangida como gado: bastou que a mídia internacional destacasse a tragédia de Paris para que a opinião pública mundial ficasse estarrecida. Como pede o bispo, vamos olhar com a mesma solidariedade para a Nigéria.

Je suis... eu mesmo. Cada um de nós, filhos de Deus, temos a nossa idiossincrasia, e assim devemos, por um sentimento de consciência individual agir como seres únicos e não conduzidos por quem quer que seja.

(*) Heitor Freire, corretor de imóveis e advogado.

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