23/02/2012 08h04

Lendo Manoel de Barros

 
Fábio Coutinho de Andrade (*)

Lendo Manoel de Barros vêm-me à mente imagens de um passado não tão distante. A família reunida na fazenda de meu tio em um feriado qualquer, os peões fazendo a sangria dos bois para alimentar a churrasqueira, a festa a correr solta e nós, crianças, a brincar com moldes de argila, retirada da represa que corria ao fundo.

O descanso da tarde convidava-me a caminhar pelos arredores, ora a pé, ora a cavalo, sozinho ou acompanhado pelos primos, enquanto os adultos faziam a sesta. Não muito longe dali estacávamos os cavalos para um refresco na límpida cachoeira, tendo o cuidado de prender o cabresto de nossas montarias em um ramo qualquer, pois o caminho de volta seria longo, se feito a pé.

As noites eram animadas, com o estalar das madeiras em brasa na churrasqueira, que nunca cessava, e que conduzia um aroma característico pelo ar, do qual eu gostava e que ainda hoje me recordo com muita nitidez. O frescor da noite nos convidava à quietude do repouso e dormíamos ao som dos grilos, sapos e outros habitantes desse estranho mundo.

Pela manhã o cheiro do café já me acordava e, à mesa, doces caseiros, leite tirado na hora e fervido, o qual eu sorvia quase de um gole só e, após me refestelar, perguntava a Dondô, peão local, se meu cavalo já estava arriado. “Sim”, me respondia, “tá pronto, faltante só amarrar a barrigueira”. E lá ia eu preparar o animal para mais um dia de andança ou de corrida com quem se dispusesse a tal.

Por vezes ia espiar os adultos pescando na lagoa, atividade a qual nunca fui muito afeito, embora gostasse de apreciar o sabor dos pintados e pacus na hora do almoço, pegos naquela manhã. Outras vezes, avançando a tarde, encontrava algum tio empolgado pelo ritmo das músicas e da festa e ouvíamos um tiro, desferido em direção ao alto. Finda a festança cada um retornava às suas habituais ocupações, na espera de uma reunião próxima.

Imagens que não me fogem da mente de. Mas ficou-me a lição e a memória de dias felizes, resgatados, parcialmente, nas páginas do livro do poeta Sul-Mato-Grossense Manoel de Barros. Sim, Manoel, eu também, em criança, “vi um incêndio de girassóis na alma de uma lesma”.

(*) Fábio Coutinho de Andrade é advogado.

Envie seu Comentário

Os comentários feitos no Campo Grande News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Campo Grande News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
2010 © - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.
As notícias veiculadas nos blogs, colunas e artigos são de inteira responsabilidade dos autores.
Tendência Gestão Ativa Bimboo

Rua da Paz, 960 - Jardim dos Estados
CEP 79020-250 - Campo Grande - MS
(67) 3316-7200