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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

20/07/2016 17:18

Matar e morrer

Por Ives de La Taille (*)

Interessante, e tragicamente, o tema que vou procurar desenvolver rapidamente aqui havia sido escolhido por mim alguns dias antes da festa comemorativa da queda da Bastilha. No dia 15 de julho de 2016, li no site do jornal Le Monde a respeito do crime acontecido na Promenade des Anglais na França a seguinte indagação: “O ataque com o caminhão que causou pelo menos 84 mortes na cidade de Nice, na noite do 14 de julho, será o feito de um desequilibrado ou de um jihadista convencido?”.

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E se eu cito aqui a frase do cotidiano francês, é que ela justamente ilustra – se é que esta palavra fraca pode ser empregada aqui e agora – a meu ver uma recusa talvez inconsciente do mundo ocidental em reconhecer que ele mesmo pode causar este tipo de tragédia.

Com efeito, na pergunta citada há apenas duas opções: ou o crime foi cometido por alguém com problemas patológicos (um doente, portanto), ou alguém inspirado por alguma transcendência, por alguma ideologia importada de alhures, no caso o fundamentalismo islâmico que reivindicou ultimamente vários atentados aqui e ali no planeta.

E se não fosse nem uma coisa nem outra?

Esqueçamos momentaneamente o sinistro crime cometido no dia 14 de julho de 2016 e lembremos outros, de memória também sinistra: Estados Unidos, 1999: dois estudantes matam treze pessoas. Alemanha, 2002: um estudante mata dezessete pessoas. Brasil, 2003: um estudante atira em oito pessoas. Estados Unidos, 2007: um estudante mata trinta e duas pessoas. Finlândia, 2007: um estudante mata oito pessoas. Finlândia, 2008: um estudante mata dez pessoas. Alemanha, 2009: um estudante mata quinze pessoas. Brasil, 2011: um ex-estudante mata doze pessoas.

E há outros exemplos. Além de matarem cegamente quem estivesse na sua frente, esses criminosos tinham pelo menos duas coisas em comum. A primeira: não justificaram seu crime em nome de um fundamentalismo religioso, aliás, não reivindicaram nenhum valor transcendente para seus atos. A segunda: após a carnificina, mataram-se.

Seus casos em nada lembram o de Anders Behring Breivik, norueguês que, em 2011 assassinou 77 pessoas e longe de se suicidar em seguida ou enfrentar uma inevitável morte por bala policial, permaneceu vivo e disposto, sem vergonha nem culpa, a enfrentar a justiça de seu país.

Voltando aos jovens que atiraram a esmo, é claro que os artigos de jornal que foram redigidos após os massacres darem ênfase à matança. Porém, ao meu ver, não deram o destaque necessário aos suicídios que sucederam aos crimes, suicídios estes que, note-se, enfraquecem a tese de que se trataria de ‘desequilibrados’ no sentido de pessoas mentalmente doentes.

Um ou outro talvez fosse de fato ‘patologicamente perturbado’, mas generalizar esta explicação parece-me simples demais. Parece-me cômodo demais. Insisto: os tristes episódios de que tratamos devem ser pensados como crimes, mas também como suicídios.

Ora, o suicídio é um ato bastante presente na cultura ocidental atual. Então, falemos um pouco mais deste ato que, segundo Albert Camus, representa o único problema existencial realmente sério: “julgar que a vida não vale a pena ser vivida, é responder à questão fundamental da filosofia”.

“No conjunto do planeta, o suicídio mata em torno de 100 pessoas por hora”, escreveram Baudelot e Establet. Escreveram eles também que “a taxa de suicídios entre os jovens de 15 a 24 anos triplicou na segunda metade do século 20”. No ano de 2000, houve 815 mil suicídios, contra 510 mil mortes ocasionadas por crimes e 310 mil por guerras, eis o diagnóstico da Organização Mundial da Saúde.

Por que tal ‘epidemia’? Durkheim com a sua tese da anomia pode ainda nos ajudar a responder a esta pergunta, pois uma coisa me parece certa: quando há épocas, como a nossa, durante as quais o número de mortes voluntárias aumenta, razões culturais estão em jogo, razões que apontam para o diagnóstico que vivemos numa cultura de alguma forma doente.

De minha parte, dediquei toda uma reflexão que me fez chegar à conclusão de que vivemos numa cultura do tédio na qual enfrentamos uma ‘vida em migalhas’, geramos relações superficiais, abolimos a solidariedade, vivemos num deserto de valores, vivemos num mundo que sofre do ‘mal de vivre’ no qual “a máquina hedonista é uma máquina que produz depressivos, que ela recicla com antidepressivos”.

Esse diagnóstico, e outros, levam à seguinte conclusão: vivemos num mundo no qual é muito difícil atribuir sentido às coisas em geral, e, logo, atribuir sentido à vida. Ora, o que é o suicídio senão a decorrência de que viver não faz mais sentido e, logo, não vale mais a pena? É provavelmente o que aconteceu com esses jovens de que estamos falando.

Mas então, porque também mataram? Somente posso dar uma pista a ser explorada. Essa mesma ‘cultura do tédio’ considera a si própria como o reino do prazer e da felicidade povoada de líderes, de vencedores, de celebridades.

Logo, quem não consegue ser feliz, quem se acha ‘perdedor’ e ‘zé ninguém’ deve apenas culpar a si mesmo e aguentar a humilhação e a invisibilidade social. Acrescente-se a isto que numa cultura do tédio, a moral, que serviria de freio para não agredir outrem, é luxo.

Logo, pode nascer naqueles que se sentem ‘perdedores’ um sentimento cego de vingança. E pode nascer também a vontade de deixar marcas trágicas de seu desespero. Foi pelo menos o que quis Richard Durn, francês que, em 2002, abriu fogo sobre conselheiros municipais matando vários de seus membros para depois suicidar-se.

Escreveu ele no seu diário: “Eu não me respeito, eu não me amo (…) Imagino-me sempre perdendo. Por isso tenho vergonha, então fico paralisado (…) Por que fazer de conta que estou vivendo? Apenas posso, durante alguns instantes, sentir-me vivendo matando”.

De qualquer forma, uma coisa me parece certa: se Durn e outros não tivessem tido a vontade de acabar com suas próprias vidas, eles não teriam acabado com a vida de outras pessoas.

Voltando a Mohamed Lahouaiej Bouhel, o assassino de Nice, será ele ‘desequilibrado’? Talvez. Mas com bastante capacidade de planejamento para levar a cabo seu ato! Será ele um jihadista? No momento em que acabo esse artigo, ainda não se sabe ao certo (o Grupo Estado Islâmico reivindicou o crime, mas isto não prova nada enquanto não forem encontradas evidências da relação de Bouhel com os chamados ‘radicalizados’).

A hipótese de que ele esteja mais próximo dos jovens assassinos de Columbine do que do Estado Islâmico não deve ser, creio, descartada (como o tem feito o Governo Francês que logo falou em atentado terrorista). Mas uma coisa é certa, para ele tratava-se de matar, sim, mas também de morrer.

(*) Ives de La Taille é docente aposentado do Instituto de Psicologia da USP

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