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28/02/2014 14:20

Muros em mim

Por Breno Rosostolato

Outro dia, assistindo ao canal History, um programa que até então me parecia despretensioso, me chamou a atenção por belas paisagens e um jeito diferente de apresentar as belezas da Inglaterra. As imagens vinham de um helicóptero e todo o programa consistia em sobrevoar o país, revelando suas particularidades. Porém em um determinado instante algo que me tranqulizava se transformou em desconforto. Em muitas destas paisagens era possível ver muros que se estendiam por quilômetros, em alguns pontos não existia mais muros, mas logo depois, mais uma sequência. Senti-me instigado a pesquisar sobre outros países que ainda preservavam muralhas, cercas e se isso era apenas uma homenagem à história daquele lugar. Guerras do passado, construções que protegiam o território, pontos estratégicos de observação ou até mesmo países que possuem através dos muros a concepção arcaica e destrutiva de uma nação cindida e fragmentada. Enfim, que muros são esses e qual a necessidade da construção destes.

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Durante minha pesquisa, não só me surpreendi com muitos lugares que possuem estes muros levantados, como inevitavelmente, pensar neste artigo logo me remeteu ao, talvez, o mais famoso dos muros, o de Berlim na Alemanha, erguida em 1961 pelo regime socialista. Fim da guerra e derrota da Alemanha e do terceiro reich fez com que os países aliados fatiassem o país. Estados Unidos, França e Inglaterra ficaram com a parte Ocidental e, portanto, um regime capitalista. A outra metade ficou com a extinta União Soviética, fundando Berlim Oriental, capital da Alemanha Oriental. Em 9 de novembro de 1989 o muro começa a ser derrubado com o fim da União Soviética. O fim de um das maiores mazelas da humanidade, unificando assim a Alemanha e marcando o fim da Guerra Fria.

A derrubada do muro de Berlim à base de chutes e marretadas, significou um gesto de desespero de um povo que já não aguentava mais de 40 anos de opressão e angústia. Uma queda que foi acompanhada pelo mundo que buscava novos rumos e principalmente, ressignificar as mentalidades, dar fim a censura e restabelecer a liberdade e autonomia de um povo.

Acontece que ao contrário do que se esperava com todo o simbolismo da queda do muro de Berlim, uma nova era de ideologias e abertura entre os países, parece não ter acontecido exatamente assim. Vão se erguendo ao redor do mundo inúmeros preconceitos e arbitrariedades de concreto, madeira e aço. São verdadeiros cercados de intolerância, obstáculos de discriminações que denunciam um passado de guerras, divergências, violência e conflitos que não foram resolvidos. Um passado muito presente e que alguns países cultivam os fantasmas deste passado. Ao se deparar com estas construções somos remetidos a prisões, verdadeiras jaulas, talvez porque o homem seja realmente o selvagem e prefere ignorar este passado do que aprender com ele.

O que dizer, por exemplo, dos 750km de extensão, que Israel ergueu ao redor da Cisjordânia, em Sawahre, seus construtores defendem a ideia de que assim é mais seguro, e que o enorme muro protege contra ataques terroristas. Mas olhando mais perto, sua construção foi engendrada de maneira arbitrária e invade ostensivamente o território palestino, cujos habitantes denunciam uma clara apropriação indevida de território. Esta é uma das maiores instalações fronteiriças do mundo. Já na Irlanda do Norte, a cidade de Belfast construiu paredes, chamada de “linha de paz”, que de paz não tem nada. Este muro foi levantado em 1969, separando áreas habitacionais católicas e protestantes que mesmo depois de um acordo de paz, insistem em ficar de pé. Outra destas cercas segregadoras é um cercado que existe entre as duas Coreias, em Imjingak. Fitas amarradas com recados escritos pelos sul-coreanos revelam o desejo de reencontrar os parentes e entes queridos que estejam do outro lado, na Coréia do Norte. Um gesto louvável reacende a chama da paz, da coerência e da sensatez. Representantes das Coreias concordaram em promover uma reunião de famílias separadas desde o fim da guerra na península, no começo da década de 50.

Essas barreiras nas fronteiras dos países fazem com que muitas pessoas manifestem sua indignação e tentem ultrapassar a todo custo estes muros. Para se ter ideia, por ano, pelo menos 1.000 migrantes perdem a vida, geralmente de sede, tentando atravessar esses muros, haja vista, por exemplo, a travessia do deserto entre os Estados Unidos e o México. Uma travessia arriscada, severa e assassina.

As guerras armamentistas, mas também aquelas de poder, cambiais e territoriais, constituem mentalidades equivocadas e separatistas, base do preconceito e da segregação, deixando milhões de pessoas refugiadas e famílias inteiras desmanteladas. Com o tempo esses muros intimidadores perdem a força e deixam de ter significado limitador, assim como aconteceu com a maior de todas as muralhas, a da China. Hoje um ponto turístico.

Fato é que as cisões, as divisões e o mais grave, as separações que estas construções criam na sociedade vão para além do terror de ficar longe de quem se ama ou não permitir o livre-arbítrio, mas são os muros emocionais que são levantados dentro de nós que realmente são os mais preocupantes. Muros que são intransponíveis porque são construídos pelo preconceito e a discriminação. Muros que marginalizam todos que desejam se aproximar. Muros que classificam as pessoas e que resultam nas verdadeiras violências urbanas. Ricos que não convivem com os pobres, pessoas que não toleram o diferente, sujeitos que vivem em padrões específicos e aniquilam quem não vive ou pensa como tal. O jovem que desdenha o idoso por não valorizar a experiência. A homofobia, a misoginia e o racismo são os muros que exterminam. Devemos travar lutas, as nossas lutas internas, começando por demolir os nossos próprios muros, para assim, conseguir enxergar o que de fato está do outro lado.

(*) Breno Rosostolato é psicólogo clínico, terapeuta sexual e professor da Faculdade Santa Marcelina - FASM

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