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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

14/01/2014 14:56

Novos índios

Por Pedro Pedrossian Neto (*)

A formação do Brasil contemporâneo, constituído como um “caldeirão de raças”, ocorreu a partir do contato dissolvente entre mundos completamente distintos e antagônicos. O conflito entre a civilização e a selvageria,mediado pelo português e pelo indígena, resultou na construção de um “povo novo”, o povo brasileiro, cuja singularidade histórica surgia da renúncia da identidade de cada um de seus fundadores – português, índio e negro – em prol de uma cultura mestiça, maleável, morna, propensa a assimilar e a transigir.

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Esta mistura – este “moinho de gente” – teve como força propulsora a fúria do projeto colonial, que esmagou física e culturalmente as populações autóctones, fragmentadas em centenas de etnias e nações pré-colombianas. Estes grupos humanos, outrora culturalmente coesos, tiveram sua identidade dilacerada pelo contraste inevitável entre sua vida neolítica e a superioridade material do europeu.

Aos olhos do curumim, que cultivava o brio do guerreiro selvagem, a vida prosaica da tribo havia se convertido em inelutável vergonha: a pedra polida, o pote de barro e a choupana de palha logo tornaram-se, para ele, uma caricatura diante do machado, da panela de ferro e da arquitetura europeia. O horror à condição silvícola e à sua própria identidade seria o motor de sua destruição como povo.

Sedimentadas as fronteiras do projeto colonial, séculos depois, restaram agrupamentos populacionais em diferentes condições culturais e de integração com a sociedade brasileira. De um lado, em pouquíssima quantidade, tribos isoladas na “Amazônia profunda”, que nos fornecem senão poucas imagens episódicas capturadas pela sorte de algum fotógrafo que os sobrevoa na imensidão verde.

Em maior quantidade, também vigoram tribos contatadas que preservam a condição silvícola, muito embora estejam em pleno processo de assimilação cultural e na ambivalência entre destribalizar-se por completo ou buscar, de alguma forma desesperada, um cada vez mais difícil isolamento (efêmero) que os salve.

Por último, e mais importante, são as etnias já plenamente assimiladas, destribalizadas, mestiças, cristãs, localizadas em eixos com forte vocação econômica, geograficamente próximas as cidades e à vida social brasileira. Falando o português com fluência, sem vestígios de qualquer sotaque, professando uma fé de valores ocidentais, a geração nascida após a década de 1990 – e que hoje é majoritária nestes grupos – pretende uma inclusão definitiva na sociedade que os rodeia – que se ainda não é exatamente a sua, encontra-se a apenas um passo de distância, separadas mais pela barreira da pobreza do que a da diferenciação cultural.

Ao novo índio, volver ao passado ancestral, abdicar da promessa de ascensão social, dos bens de consumo, da eletricidade, do banho quente, da geladeira e do fogão, da casa de alvenaria, é simplesmente impossível – implicaria negar que ele próprio deseja culturalmente ser um brasileiro índio, mais do que um índio brasileiro.Se antes havia o contraste da pedra polida com o machado – já suficiente para deflagrar um conflito autofágico na identidade dos índios –, hoje vigora o abismo entre o isolamento da selva e a vida mundialmente conectada das redes sociais. Não se pode fazer voltar a roda da história...

Os novos índios são – e devem ser assim compreendidos – minorias constituintes do povo brasileiro, e tal como centenas de povos ao redor do mundo, falantes de dialetos, línguas minoritárias, com características culturais e étnicas precisas, podem coexistir pacificamente com sociedades majoritárias e em Estados plurinacionais que os circundam.A agenda de políticas públicas para este grupo, em contraposição ao discurso dominante e teoricamente equivocado que o Estado brasileiro, sob a égide da FUNAI, costuma professar, deve centrar-se na integração, na capacitação pela via educacional, nas ações afirmativas, no “empowerment”, na construção de uma auto-estima que se consolida pelo sucesso pessoal, familiar, profissional e financeiro destas populações. Aos índios isolados o isolamento, aos integrados a integração.

Nada mais equivocado, obtuso, ou simplesmente ilegal que promover, pelas mãos do Estado, o conflito de terras entre índios e não-índios, numa fábrica de conflitos que busca solucionar o problema errado da forma errada. Seria a solução segregar e isolar, num imenso esforço de despovoamento de áreas já habitadas por não-índios, algumas centenas de brasileiros índios em bolsões rurais de pobreza para pretensamente forjar o conforto psicológico de uma barreira física contra diversidades culturais? Este conforto psicológico deve vir pela entrada soberana e integrada dos novos índios na sociedade brasileira como uma minoria respeitada e valorizada, não na forma do gueto.

O Mato Grosso do Sul, talvez mais do que qualquer outro Estado da federação, vive diuturnamente as consequências deste problema. O governo federal promete, a cada prazo descumprido entre as partes conflagradas, comprar terras para os indígenas para mitigar o conflito e evitar a proliferação de mortes no campo. Ainda que o faça, voltando atrás em sua política inconstitucional de expropriação e confisco, nada mais faz do que tapar o sol com a peneira: erra no diagnóstico e em sua solução. Pena, podia ser diferente.

(*) Pedro Pedrossian Neto, 32, economista e empresário, é mestre e professor de economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.

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AFINAL DE CONTAS VIVEMOS EM UM PAIS DEMOCRATICO, ONDE TODOS TEM O DIREITO DE MANIFESTAR, O ASSUNTO ACIMA E NADA MAIS QUE UM DESABAFO,UFA !! BASTA APENAS OBSERVAR DE ONDE VEM AS PALAVRAS DE DESCONSOLO, COM MOTIVOS DE SOBRA.UM VELHO DITADO DIZ "O TEMPO E O SENHOR DA RAZAO" OS ACONTECIMENTOS FUNDIARIOS EM NOSSO ESTADO NAO E DIFERENTE. FELIZMENTE OU INFELIZMENTE MEU CARO A COISA NAO E DO NOSSO JEITO.
TEOFILO DE ALMEIDA
DIRETOR SINDICAL
 
teofilo de almeida em 16/01/2014 22:08:05
Bastante lúcida sua análise, professor. Um fiel retrato da situação do indígena brasileiro que sofre as consequências da falta de políticas públicas adequadas que promovam sua integração na sociedade. Procurei em seu texto e não encontrei uma só linha que desmerecesse o índio ou que falasse apenas de sua situação em particular. Ignore os ataques de ordem meramente pessoais, parciais e raivosos de quem não sabe de suas lutas e te julga a partir de si mesmo.
 
Ludmila Sakarov em 15/01/2014 13:35:38
Uma das melhores análises que já vi sobre este conflito, Parabéns ao autor.
 
clovis baseggio em 15/01/2014 09:10:52
Não só equivoca-se como também foi muito infeliz quando TRANSCREVEU tamanha bobagem, vez q desconhece c/ profundidade a realidade indígena brasileira. Além do que, este problema não é só dos governantes, mas de TODOS, sejam índios ou não, ongs, produtores rurais, classe política, operadores do Direito e da Justiça educadores e estudantes de um modo geral, principalmente os universitários, enfim. Daí, à partir do instante em que TODOS se dispuserem a resolver esta situação, c/ muita boa vontade, inclusive, aí sim, quem sabe, alguma mudança positiva poderá haver, em benefício de TODOS. Caso contrário, se todo mundo ficar puxando sardinha p/ a sua lata, tentando defender seus próprios interesses, a situação tende a perdurar p/ muito tempo ainda, infelizmente.
 
newton galache em 15/01/2014 08:59:58
Julgar uma pessoa pelo sobrenome que carrega, desmerecer sua opinião levando em consideração sua área de formação é o mesmo que dizer que um médico não pode falar com propriedade sobre política e só pelo sobrenome se pode julgar a idoneidade de uma pessoa. O senhor Pedro Pedrossian Neto fala com propriedade e com conhecimento de causa, até porque, como a senhora Adriana Rocha disse, a família conhece de perto a realidade dos conflitos que envolvem os índios e os produtores do MS, não de ouvir falar, como a maioria dos que expressam opinião, mas vivendo o dia a dia das invasões e idas e vindas nos tribunais, tentando fazer valer seus direitos de propriedade e lutando contra essa insegurança jurídica que grassa no País. Um homem, uma família, que ergue a voz por justiça. Como eu, como você.
 
Waltemir Ribeiro em 14/01/2014 22:55:31
Muito bom o artigo. Coloca de forma imparcial o problema. A Sra Adriana Rocha, por outro lado, não coloca um único argumento racional, apenas critica o autor. Dizer que apenas os antropólogos podem falar do problema indigena é o mesmo que dizer que a sociedade inteira não pode discutir o aquecimento global, apenas os ambientalistas. Ora, o problema indígena é uma questão que afeta a todos e todos devem ter o direito de se manifestarem. Adriana: democracia é feita de argumento, de convencimento, não de ataques irracionais. Tenha a coragem de expressar as suas teses.
 
Décio Machado em 14/01/2014 21:59:55
Muito interessante Sr. Pedro Pedrossian Neto. O senhor veio a público e colocou sua opinião, abrindo oportunidade para que todos fizessem o mesmo. Ou seja, abriu o dialogo sobre um tema delicado e completamente contaminado por interesses claros e obscuros. O fato de que o Sr. descende de uma família, que "é envolvida em demandas fundiárias com indígenas em Mato Grosso do Sul", apenas valoriza sua postura dialética. O Sr. poderia ficar quieto atrás da cerca que defende as propriedades de sua família, mas corajosamente abriu a discussão em público, oportunizando a contradição. Tenho certeza que muitos não utilizarão argumentos para discutir, apenas o atacarão, simplesmente, por que o seu sobrenome é Pedrossian.
 
Neido Castilho Júnior em 14/01/2014 19:58:27
Parabéns! Espero que o texto possa alcançar os poderosos de Brasília. Àqueles que não entendem nada de índios...Esta explicada a razão do abandono da política (como vereador de Campo Grande) por parte do mestre e professor Pedrossian Neto. Mostra que o autor alçou vôos bem mais altos que a tribuna de uma Câmara que não tarda a somar com os índígenas, no que se refere a implorar a alguém que compre terras para abrigar os edís que, brevemente, serão os sem teto de MS.
 
Marco Aurélio Luz em 14/01/2014 17:35:01
Pedrossian, um dos maiores lideres do MT e depois do MS, vindo da classe dos ferroviários cruzando nosso estado pediu muitos votos nas aldeia adjacências que o levou a governador, mas que nunca se esqueceu de que é um grande fazendeiro e isso foi passando aos filhos e netos.E esses mesmos índios integrados em especial os terenas, hoje já não lhes servem mais. Deixaram o coronel de lado e não querem mais balinhas e nem espelhos de agrado, querem suas terras de volta. Como o poder acabou, se organizam junto com todos e tudo pra fazer campanha anti-índio. Hoje a lei não é a do mais forte, mas é a lei da razão. Paz no Campo! Demarcação Já!
 
samuel gomes-campo grande em 14/01/2014 17:06:29
O sr. Pedro Pedrossian Neto se equivoca. A disciplina em que é versado não dá conta de explicar quaisquer fenômenos relacionados aos indígenas, de qualquer parte do mundo, a não ser os meramente econômicos. Ainda assim, ao que parece não esta náo é a área de estudos do articulista (economias autóctones), razão esta que torna ainda menos abalizada a sua opinião. Em verdade, muito possivelmente, tendo em vista o seu sobrenome e ascendência, o economista deita a falar sobre uma suposta categoria de novos índios em razão de interesses familiares, uma vez que sua família é uma das envolvidas em demandas fundiárias com indígenas em Mato Grosso do Sul. Pena que dedique seu tempo e sua pena a escrever sobre o que não compreende apenas para defesa própria e de parentes. Nada menos científico
 
ADRIANA ROCHA em 14/01/2014 16:30:11
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