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17/05/2015 14:00

O fogo criador e suas cinzas

Por Adelto Gonçalves (*)

I

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Sinais de Cinza – Estudos de Literatura (Guimarães, Opera Omnia, 2012) reúne estudos preparados pelo crítico e ensaísta António Manuel Ferreira, professor de Literatura Portuguesa da Universidade de Aveiro, ao longo de uma carreira acadêmica ainda em seu meio caminho. Seu título saiu do romance Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1919-1978), como justifica o autor, ao lembrar que, se a literatura nasce do fogo criador, também é cinza, ou seja, “testemunha vital de um combustível”. E, do mesmo modo, é cinza que pode motivar uma fagulha a partir de uma leitura e, portanto, constitui “um ato de cíclico renovamento”.

É o que diz o professor Ferreira no prefácio que escreveu para este livro que dividiu em cinco partes temáticas e que, a rigor, abrangem as linhas de estudo a que se tem dedicado nos últimos anos. São textos que anteriormente foram publicados em revistas universitárias e que, agora, têm a oportunidade de serem lidos por um público mais amplo. Por coincidência, os títulos das divisões remetem a estudos que o professor tem dirigido e editado em seu labor universitário.

A primeira parte, “Teografias”, aliás, título de projeto que o professor coordena, é constituída por seis estudos que procuram discutir a representação do Deus cristão nas obras de José Régio (1901-1969), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário Sacramento (1920-1969), Eça de Queiroz (1945-1900), Machado de Assis (1839-1908), Jorge de Sena e Paulina Chiziane (1955).

Desses, dois são dedicados a Paulina Chiziane, a primeira romancista negra de Moçambique, cuja obra constitui, segundo o ensaísta, “um manancial riquíssimo de indagação teológica, cujo alcance hermenêutico conglomera, nas mesmas questões, os preceitos judaicos-cristãos e as tradições religiosas moçambicanas”. Para Ferreira, Paulina reflete em sua escrita uma leitura protestante da Bíblia, mas, em grande parte dos casos, a convocação do Deus cristão tem o propósito de condenar o colonialismo e o imperialismo, ou seja, o Deus imposto aos africanos pela lei da espada do colonizador.

Seja como for, diz o professor, a Bíblia funciona nos livros de Paulina como um dos intertextos mais recorrentemente privilegiados.

No último ensaio da primeira parte, dedicado a Fernando Pessoa, Ferreira observa que a poesia de Alberto Caeiro, heterônimo pessoano, dialoga, de forma explícita e paródica, com a figura e a mensagem de São Francisco de Assis (1182-1226), ainda que a sua antipatia pela Igreja Católica seja evidente, como se vê no poema oitavo de “O guardador de rebanhos”.

II

Em “Percursos de Eros”, que reúne quatro ensaios que abordam o homoerotismo nas literaturas portuguesa e brasileira, está o ensaio “Sinais de cinza: derivas homoeróticas na obra de Jorge de Sena”, que traz a metáfora-gênese deste livro. Nos demais ensaios são abordados contos brasileiros, o “teatro veloz” do ator brasileiro Ivam Cabral (1963) e a obra João Vêncio: os seus amores, de Luandino Vieira (1935), romancista angolano nascido em Portugal.

Na terceira parte, “Escrever a ruína”, há um texto sobre a poesia de Joaquim Manuel Magalhães (1945), outro sobre a obra de Fernanda Botelho (1926-2007) e um terceiro a respeito de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, romance que o ensaísta considera ter alcançado a proeza inigualável na literatura em Língua Portuguesa de se apresentar visualmente fragmentado e organicamente coeso, dando a falsa impressão de pertencer à estética romanesca do século XVIII, mas que ultrapassa o século XIX para se enquadrar na “pulverização estrutural e axiológica da nossa contemporaneidade”.

Nas duas últimas divisões do livro, o leitor encontrará análises percucientes das obras de autores portugueses como Augusto Abelaira (1926-2003), Miguel Torga (1907-1994), Branquinho da Fonseca (1905-1974), Eugénio de Andrade (1923-2005), Eugénio Lisboa (1930) e novamente Aquilino Ribeiro. E ainda estudos sobre as obras dos poetas moçambicanos Alberto de Lacerda (1928-2007), Rui Knopfli (1932-1997) e Luís Carlos Patraquim (1953). Enfim, ler este livro, praticamente, equivale a fazer um excepcional curso de Literatura em Língua Portuguesa.

III

António Manuel Ferreira, que é hoje talvez o estudioso que mais bem conhece a literatura que se escreve em Língua Portuguesa em todo o mundo, tem colaborado também em cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Moçambique e no Brasil, especialmente na Universidade de São Paulo (USP). Organizou a edição das Obras Completas, de Branquinho da Fonseca, publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa, em 2010, em decorrência de sua tese de doutoramento Arte Maior: os contos de Branquinho da Fonseca, igualmente editada pela IN-CM em 2004. Fundou e dirige a revista de literatura Forma Breve e a série de volumes temáticos Voltar a Ler.

Atualmente, coordena o projeto Teografias – Literatura e Religião, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de Portugal, pelo qual já saíram à luz três volumes: “Sentimento Religioso e Cosmovisão Literária” (2011), “Gramáticas da Criação: Adão, Eva e outros mitos” (2012) e “Metamorfoses da Santidade” (2013).

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Sinais de Cinza – Estudos de Literatura, de António Manuel Ferreira. Guimarães, Opera Omnia, 502 págs., 12,40 euros, 2012. E-mail: operaomnia@sapo.pt Web: www,operaomnia.pt

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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