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04/12/2012 08:43

O leão de sete cabeças

Por Guido Bilharinho (*)

Exilado de um país e de um subcontinente, nos quais, de tempos em tempos, seus nacionais mais lúcidos, patriotas e decididos, são perseguidos, torturados e mortos, Gláuber Rocha (Vitória da Conquista/BA, 1938-1981), depois de no Brasil pensá-lo e transfigurá-lo em arte, lança-se no panorama internacional.
Sua primeira realização nesse período, O Leão de Sete Cabeças (Dar Leone à Sept Têtes, Itália, 1970), elege o continente africano como matéria e forma de sua inserção no mundo. Não o faz, porém, linear e convencionalmente como é usual no cinema. Ao invés do espetáculo da exploração de suas riquezas e domínio de seus povos, Gláuber os estigmatiza na eleição de estereótipos elaborados a partir da concreta faticidade.
A realidade africana, nucleada e bipolarizada entre exploração externa e contexto interno formado pelas condições locais e consequências da atuação predatória das nações desenvolvidas, é filmicamente constituída por mosaicos fragmentados unidos pelo fio narrativo que a expõe, compondo condensado painel situacional.
Os principais lances desse cenário perfazem-se um a um em instantâneos que o vão engendrando e revelando, desenvolvendo e urdindo, construindo e desconstruindo. Nada, no entanto, que não se saiba da exploração internacional da região, mas, no caso, apresentada de maneira contundente e mesmo raivosa.
As linhas narrativas tecem-se em torno da atuação de pequeno grupo de representantes e mercenários imperiais e do papel de dois líderes locais.
Se no cômputo final do filme evidencia-se sua nervura ficcional, o decorrer dos desdobramentos factuais estabelece-se por meio de blocos que se seguem e se sobrepõem.
A articulação entre as partes não se processa linearmente e nem as personagens intervêm e se relacionam convencionalmente, mas, simbólica e sinteticamente, traduzindo cada cena corte transversal na realidade, ora concreto, ora alusivo, sempre, porém, denunciador.
Por vezes, manifestam-se justificativas e explicações por meio de discursos de personagens.
Sucedem-se, assim, diálogos, intervenções pessoais, manifestações diversas, danças, músicas, passeatas, paradas militares, agressões, reuniões, envolvimento e cooptação de dirigentes locais deslumbrados por alçados a pretensas altas funções, torturas, personagens simbólicas como o “profeta”, a loura Marlene e lideranças africanas autênticas.
O leão de muitas cabeças é explorado, caçado e submetido, mas, não vencido e anulado. A sequência final de grupo de guerrilheiros armados internando-se na região ao som de canção libertária, de vigorosa beleza imagética, é emblemática, além de óbvia em seu significado e mensagem.
A maneira elisiva de Gláuber construir cinematograficamente visão do quadro africano não esconde, ao contrário, explicita sua atormentada insatisfação com a problemática continental. Se não atinge grau elevado de criatividade, também não abdica de construção autoral de sua configuração imagética.
Constitui, a bem dizer, ficção operativa aplicada à conjuntura temporal e espacialmente vinculada à análise de seus traços e trâmites procedimentais, ocasionadores de posicionamento subordinativo, adjetivo, objetal e residual no contexto de ordem/desordem planetária desequilibrada, desigual e injusta.
O pragmatismo imoral de se aceitar as coisas tais como são e transcorrem é escarmentado pela própria ocorrência e propósito fílmico, jazendo implícita, mas, evidente, sua condenação, que não se limita a reconstruir o contexto, porém, nele intervindo e fatiando-o para melhor atuar em seu interior.

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(do livro Seis Cineastas Brasileiros, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2012-www.institutotriangulino.wordpress.com)

(*)Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema e história regional e nacional

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