A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

27/06/2016 09:56

O mercado editorial e o leitor brasileiro

Por Marisa Midori Deaecto (*)

Em 2015 o mercado livreiro registrou uma retração de -3,27%, em relação ao movimento do ano anterior. Considerando a variação do IPCA, isso significa um decréscimo real de (-)12,63%. Os dados foram publicados pela Fipe, com o apoio do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e da CBL (Câmara Brasileira do Livro).

Veja Mais
Cinco ações que devem ser evitadas em 2017
A aviação e suas regras

A pesquisa abarca uma amostra significativa, que corresponde a 70% das editoras brasileiras. Observou-se que o desempenho fraco do mercado livreiro, em relação a 2014, puxou a produção e as vendas para baixo, na ordem de -3,99%.

Considerando que o preço médio do livro subiu 4,57%, conclui-se que a retração é ainda maior, de -5,55%. Já as vendas para o governo não apresentaram uma queda brusca, fixando-se em -0,86%.

Embora seja inegável o encolhimento do setor neste último período, o que se reflete na produção de livros em termos absolutos – em 2015, foram produzidos 52.497 títulos (446.848.571 exemplares), entre novos e reedições, contra 60.829 (501.371.513 exemplares) no ano anterior – este não foi, definitivamente, o pior cenário apresentado na última década.

Entre 2002 e 2004 a produção editorial se situava na casa dos 30 mil títulos (39.800, 35.590 e 34.858, respectivamente), tendo registrado um faturamento de 2.477.031.850 reais, em 2004. A curva produtiva segue ascendente durante toda a década e a produção salta, a partir de 2008, para a casa dos 50 mil títulos.

Em 2013, o setor atinge seu ponto mais alto, ou seja, 62.235 títulos (ou 467.835.900 exemplares). Notemos que o número de exemplares é menor do que o computado em 2014.

Diante desse mar de números e para além da constatação óbvia da crise no setor, cumpre perguntar: lê-se muito? Lê-se pouco? O que se lê? Como avaliar a relação entre o mercado e os hábitos de leitura no Brasil?

Para além dos números, o leitor

Para os mais alarmistas, uma lembrança: jamais o editor experimentou uma década tão promissora. Desnecessário reafirmar o papel das compras governamentais, do PNLD, do PNBE, do PNAIC, dentre outros programas, no aquecimento do mercado.

Esses parâmetros fortaleceram o subsetor de didáticos, concorreu para a entrada de grupos estrangeiros e possibilitou a inserção de novas editoras e de novos selos, sobretudo no subsetor de paradidáticos e de leituras infanto-juvenis. Mas é apenas nesse campo que o governo tem participação plena.

E embora a produção de didáticos seja importante, pois ela movimentou 49,10% dos exemplares registrados no ano, deixemos de lado esse filão, pois ele está bem focado no universo escolar. Avaliemos, antes, o comportamento do mercado e sua relação com o leitor “comum”.

É difícil estabelecer, em tão poucas linhas, uma abordagem qualitativa que leve em consideração o mercado e o perfil do leitor brasileiro. Sob a pena de se ignorar variáveis fundamentais para a análise da temática, tais como perfis socioeconômicos, faixa etária, grau de escolaridade e, inclusive, as diferenças regionais do país, os dados divulgados pela Fipe não podem ser lidos sem que se vislumbre o leitor virtual escondido atrás dos números.

A tomar pelas informações da produção anual por temas, excetuando os didáticos, pode-se dizer que o leitor predominante no Brasil é o de livros religiosos, os quais detêm 16,24% dos exemplares impressos em 2015. Os dados coincidem com a lista dos títulos mais lidos, segundo a apuração feita em Retratos da Leitura no Brasil (4a. edição, 2015).

Do total de 2.798 leitores declarados na pesquisa, 42% declararam ler a Bíblia e outros 22% livros religiosos. Contos e romances seguem na esteira com 22% das participações, cada um. Cumpre notar que a Bíblia e os livros religiosos estão na dianteira desde a primeira edição da pesquisa, em 2007.

Agora, com exceção do primeiro lugar, Augusto Cury, todos os demais tratam, direta ou indiretamente, de religião: João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia protestante para o português), Zibia Gasparetto (espiritismo), padre Marcelo Rossi (igreja católica), Cristiane e Renato Cardoso (igreja universal).

Nos dois documentos descortina-se uma triste constatação: no Brasil ainda se lê muito pouco! Por toda a pesquisa fica evidente o contorcionismo realizado para se delinear o perfil do leitor brasileiro.

É sintomático que em um universo de 5.012 entrevistados, distribuídos por todas as regiões do país, na faixa de 5 a 70 anos, entre estudantes e não estudantes, considerando leitor aquele que visitou um livro, ou parte dele, no intervalo de três meses, há, ainda, 44% dos entrevistados que se declararam não leitores!

Inútil, nesse caso, repisar sobre os números tímidos de nosso mercado, sobretudo quando postos lado a lado com a produção dos países mais desenvolvidos.

Por um ciclo virtuoso da economia do livro

O Brasil lê pouco e o mercado é acanhado. Os livros são caros porque as tiragens são pequenas e não se vende bem porque são pífias as livrarias – embora figurem como o lugar privilegiado para a aquisição de exemplares. E a palavra “privilegiado”, aqui, não foi usada em vão.

Além disso, o leitor brasileiro é tradicional e o que predomina é a religião. Ou as leituras motivadas pela escola, inclusive os livros indicados nos vestibulares, determinantes nas reedições. No outro extremo, o leitor se vale da mídia para construir seu campo de interesse. Nesse caso, é inegável o poder da televisão, do cinema e da internet na construção dos best sellers de ocasião.

Trocando em miúdos, os números e os leitores revelam um quadro de difícil superação para além das políticas públicas, que alavancaram o setor na última década, mas não criaram um ciclo virtuoso da economia do livro. É verdade que o fruto maduro apenas se colhe no espaço de uma geração. Todavia, algumas medidas inovadoras poderiam colocar editor e leitor em novo compasso.

Talvez a existência de canais mais efetivos de acesso ao livro, como o fizeram os editores dos livros de porta em porta e as igrejas, possa se tornar o novo foco de políticas futuras, no sentido de privilegiar mais os pontos de venda do que os setores produtivos. Mas este é um assunto para novo artigo.

(*) Marisa Midori Deaecto é professora do Departamento de Editoração da ECA-USP

Cinco ações que devem ser evitadas em 2017
Ao fim de cada ano, realizo uma pesquisa com funcionários de empresas de todo o Brasil para avaliar quais foram as coisas que mais impactaram na prod...
A aviação e suas regras
A aviação conseguiu, em menos de um século, aproximar os continentes, as empresas e, principalmente, as pessoas. Foi uma evolução tão rápida que não ...
Lei Orgânica da Assistência Social – 23 anos
Nos últimos anos, a Assistência Social vem construindo uma nova trajetória, organizando-se sob novos padrões e afirmando-se como parte integrante do ...
Morre no trânsito o equivalente a 2 aviões da Lamia lotados por dia
Por dia, no Brasil, morrem em acidentes de trânsito o equivalente a ocupantes de dois aviões da Lamia, que transportava o time inteiro da Chapecoense...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions