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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

16/07/2011 06:05

O ônus da cultura do funcionalismo público

Por Leandro Vieira (*)

Parece realmente tentador: salário vitalício, benefícios garantidos pelo Estado, estabilidade, carga horária conveniente... Quem nunca desejou passar em um concurso público para dar fim às aflições motivadas pelas incertezas do conturbado cenário econômico-social atual?

De fato, milhões de pessoas em todo o Brasil têm se dedicado à exaustiva maratona preparatória para os diversos concursos oferecidos pelo setor público, em todas as suas esferas. Alguns dedicam anos de estudo, investindo não apenas tempo, mas, também, dinheiro, muito dinheiro. Cursinhos, material didático, inscrições, viagens, estadias... Se tudo for colocado na ponta do lápis, o ROI (retorno sobre o investimento) de algum felizardo deve tardar uma barbaridade.

Tudo bem, cada um sabe onde aperta o sapato e o que é melhor para a sua vida. A grande questão é que o sonho do concurso público tem gerado um prejuízo enorme para o nosso país. A lógica é simples: temos uma boa parcela de nossos talentos buscando vagas em trabalhos que não acrescentam em nada ao avanço da nação.

A maior parte dos cargos públicos volta-se à operacionalização e manutenção da máquina estatal e nada mais que isso. Não estou menosprezando a grande importância do serviço público em nosso país, e tampouco me refiro aos professores e pesquisadores das nossas instituições públicas, longe disso. A questão é que apenas manter a máquina não gera crescimento econômico. É algo como uma locomotiva funcionando sem sair do lugar.

Normalmente, as pessoas que almejam um cargo público têm uma certa aversão a riscos. Entretanto, não conseguem enxergar os grandes riscos que estão por trás de suas escolhas. Enquanto se preparam para os concursos, os candidatos deixam de desenvolver as competências e habilidades extremamente necessárias na iniciativa privada. Não acumulam experiência, não fazem contatos, e colocam em seu currículo apenas os cursinhos preparatórios para concursos. Parecem nunca ter o pensamento “e se eu não passar?”.

Um concursado leva, muitas vezes, mais tempo para passar em um concurso do que um acadêmico leva para se fazer doutor. E em que contribuem os anos de estudo do “caçador de concursos” para o avanço da ciência? Em nada. E para a geração de novos negócios? Pior ainda...

Justamente, um dos principais vetores do desenvolvimento econômico e social de um país é a sua capacidade de produzir ciência, tecnologia e inovação. As modernas teorias acerca do crescimento econômico apontam a inovação como o fator mais importante, não apenas no desenvolvimento de novos produtos ou serviços, como também no estímulo ao interesse em investir nos novos empreendimentos criados.

Nesse cenário, surge o empreendedor como uma força positiva no crescimento econômico, fazendo a ponte entre a inovação e o mercado. Vou mais além: o empreendedor é a figura principal desse processo. Apenas pesquisa e desenvolvimento e investimentos em capital físico e humano não causam o crescimento. Essas atividades tomam lugar em resposta às oportunidades de crescimento, e tais oportunidades são criadas pelos empreendedores.

Lembrando Schumpeter, os empreendedores são os impulsionadores do desenvolvimento econômico, os responsáveis pelas mudanças econômicas em qualquer sociedade. O seu papel envolve muito mais do que apenas o aumento de produção e da renda per capita. Trata-se de iniciar e constituir mudanças na estrutura de seus negócios e da própria sociedade. Essas mudanças são acompanhadas pelo crescimento e por maior produção, o que possibilita que mais riqueza seja dividida pelos diversos atores sociais.

Entretanto, em nosso país a cultura empreendedora cede lugar, cada vez mais, à cultura do funcionalismo público. Por aqui, empreender é apenas a saída para os menos inteligentes, para os mais necessitados, para aqueles que não têm condições de arrumar um emprego decente ou de passar em um concurso público. Está tudo errado. A carreira acadêmica não atrai os jovens em virtude dos baixos soldos e falta de reconhecimento profissional.

O empreendedorismo não os atrai em virtude dos elevados riscos e das enormes dificuldades para se fazer negócios no Brasil. O resultado dessa equação é trágico: empaca-se o avanço da ciência e dos negócios, a oferta de empregos diminui, a economia estagna e mais e mais pessoas passam a almejar um posto nas instituições públicas, alimentando esse círculo vicioso.

É fundamental revertermos essa tendência e trabalharmos no sentido de fomentar a cultura empreendedora em nosso país. Quando coloco os verbos reverter e trabalhar na primeira pessoa do plural, quero puxar a responsabilidade para as nossas mãos, cidadãos comuns.

Não podemos esperar que o poder público faça a sua parte, pois o Estado faz justamente o contrário: inibe a atividade empreendedora ao elevar a carga tributária e criar empecilhos burocráticos absurdos, buscando sempre financiar os altos gastos do setor público com mais tributos e endividamento. A impressão que passa é de que o Estado é um inimigo da sociedade. Já que não podemos vencê-lo, devemos resistir fortemente à tentação de nos juntarmos a ele.

(*) Leandro Vieira é mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e certificado em empreendedorismo pela Harvard Business School.

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Vamos devagar com o andor...
Observa-se, em seu texto, certa ambivalência ao criticar a atividade pública e ao mesmo tempo considerar importante o serviço público em nosso país. “To be or not to be, that is the question”.
Se todos os talentos fossem direcionados somente às áreas das ciências, das pesquisas etc. faltariam também competentes em outras áreas das atividades humanas. O serviço público, com todos os seus defeitos, também precisa de gente competente, de boa formação cultural.
Considero pueril o pensamento de que a atividade pública nada acrescenta ao avanço da nação. Contesto afirmando que a atividade pública é um componente importante da engrenagem do desenvolvimento da nação. Se todos os países têm a sua máquina pública, desempenhada por funcionários públicos, logo a atividade pública é importante ao desenvolvimento da nação.
A afirmação de que apenas manter a máquina pública não gera crescimento econômico, é como propor a extinção do serviço público. Os impostos recolhidos dos cidadãos são para serem revertidos em serviços públicos. E quem os processará se não existir o serviço público?
Não se questiona o pensamento positivo do empreendedorismo, muito patente nas escolas americanas. Mas o empreendedorismo não pode ser voltado somente à atividade privada, onde, por sua característica, o empreendedor trabalha com liberdade e assume os riscos de suas empreitadas. Há empreendedorismo também dentro dos serviços públicos, porém com maior responsabilidade.
Por outro lado, nem todas as pessoas querem ser cientistas, filósofos, matemáticos, engenheiros, médicos, comerciantes, empresários etc. Há aqueles que escolhem como profissão ser funcionários públicos, e outros, militares, áreas de recursos humanos etc., e nem por isso deixam de ser importantes para o desenvolvimento da nação.
 
Júlio Cardoso em 22/07/2011 06:23:29
Senhor Leandro Vieira,
Vamos devagar com o andor...com o seu ônus da cultura do funcionalismo público.
Observa-se, em seu texto, certa ambivalência ao criticar a atividade pública e ao mesmo tempo considerar importante o serviço público em nosso país. “To be or not to be, that is the question”.
Se todos os talentos fossem direcionados somente às áreas das ciências, das pesquisas etc. faltariam também competentes em outras áreas das atividades humanas. O serviço público, com todos os seus defeitos, também precisa de gente competente, de boa formação cultural.
Considero pueril o pensamento de que a atividade pública nada acrescenta ao avanço da nação. Contesto afirmando que a atividade pública é um componente importante da engrenagem do desenvolvimento da nação. Todos os países têm a sua máquina pública, desempenhada por funcionários públicos, logo a atividade pública é importante.
A afirmação de que apenas manter a máquina pública não gera crescimento econômico, é como propor a extinção do serviço público. Os impostos recolhidos dos cidadãos são para serem revertidos em serviços públicos. E quem os processará se não existir o serviço público?
Não se questiona o pensamento positivo do empreendedorismo, mas ele não poderá ser voltado somente à atividade privada. Há empreendedorismo também dentro dos serviços públicos. Por outro lado, nem todas as pessoas querem ser cientistas, filósofos, matemáticos, engenheiros, médicos, comerciantes, empresários etc. Há aqueles que querem ser funcionários públicos. Há outros que quer ser bombeiros, policiais militares etc. E nem por isso devem ser menosprezados.
 
Júlio Cardoso em 21/07/2011 12:47:04
Excelente texto, direto ao ponto fundamental do atual estágio em que vive a nossa sociedade e a visõ de oportunidades no Brasil. Retrata de forma simples a situação de empregabilidade de nosso país, muito diferente a que as grandes agências de emprego, pregoam em seus sites próprios e agências coligadas e que também acabam sendo difundidas pelas redes de televisão formadoras de "opinião".
 
Flávio Márcio em 16/07/2011 09:33:26
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