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22/08/2016 12:55

Olimpíadas, coisas e medalhas

Por Amadeu Roberto Garrido de Paula (*)

O "homo", irmãos do "sapiens", não são apenas estruturas biológicas. A moderna física reconhece a característica do "homo" até mesmo em insignificantes amebas. Até certo tempo, dizer que simples coisas materiais tangenciavam o que conhecemos como mundo biológico seria risível, episódio de manicômio.

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A física atual mais avançada já vislumbra elétrons reprodutores nas coisas inanimadas. Evidentemente, físicos não são do tipo dos que dão a cara para bater; conhecimentos novos somente depois de muitos estudos, pesquisas e testes.

O que não podemos justificar é a expressão "homo sapiens" (homens sábios). Talvez possamos admiti-la, se por sabedoria considerarmos compreensão de fenômenos antes impenetráveis, a comunicação, não por gestos, mas por signos que se completam como linguagem, e o raciocínio que se segue a essas virtudes incomuns.

Se somos homens sábios, como narrar as guerras, os fundamentalismos, o terrorismo, a exploração de um sábio por outro pretensioso e pretendente a ser mais sábio, e, entre muitas outras hipóteses, no plano pessoal, as depressões, os caráteres deficientes, a emoção que supera a razão em muitos momentos, o suicídio, este desconhecido pelos irracionais, que, muito ao contrário, até aos estertores fazem de tudo segundo o instinto da sobrevivência.

Esses "homo non sapiens" empreendem somente guerras necessárias. Predam e são predados. De todo modo, agem em absoluto compasso com o ritmo da natureza. A alimentação é o que importa. Numa savana generosa, não haveria nenhum conflito. Ou, com o tempo, desapareceriam. O tigre a passear ao lado do lobo nada teria de insólito, numa natureza que tivesse evoluído, sem a presença do "homo sapiens", que a combate.

Ninguém pretende dizer, com isso, que a "sabedoria" do homem é algo indesejável, ou que, sob muitos aspectos, não tenha contribuído à evolução animal e ao aperfeiçoamento das coisas inanimadas. Há muitos parques no mundo em que os bichos são cuidados como reis, sem agravo à sua liberdade.

A madeira tosca tomou forma de mesas esteticamente maravilhosas, pela mão dos homens sábios. As desconstruções, porém, simultaneamente foram tantas ou maiores, a ponto de não termos certeza de por quanto tempo perdurará o planeta em que habitamos.

A presença de mínimos elétrons nas coisas inanimadas parece que lhes dão uma capacidade de compreensão peculiar. Primeiro, dependentes dos materiais de que são feitas, sobrevivem por largo tempo ao homem.

Atravessam gerações, tão belas quando de seu nascimento. Damos-lhes o nome de "antiguidades", ora por gosto, ora por desgosto. Para muitos, o pós-moderno é que se agrega de valor, salvo quando percebem que o "pós" é feito de valores e desvalores, em relação ao progresso da humanidade, motivo último visto e arrazoado pela axiologia.

Não sentem dores (pelo menos assim imaginamos), não sofrem, não odeiam e não amam. Nascem e morrem. Não crescem e não vivem, pensamos nós. Mas em seu interior lá estão os eletros, bósons, férmions e condensados de energia. Potenciais que ainda, talvez, ganhem sabedoria num universo que somente se expande. Sabedoria, façamos fé, menos precária que a nossa, profundamente paradoxal.

Acabamos de ver uma Olimpíada, evento mundial de grandiosidade, paz e conjugação dos espíritos. Mas, como disse nosso poeta, "amanhã será outro dia". Todos perceberão o que fingiram e que deveras sentiram. O tempo é implacável e o passado é apagado, salvo em nossa considerada memória imaterial.

A lembrança também compõe nosso presente, assim como o fazem os sonhos em relação ao futuro. Não temos presente, a menos que acreditemos em sua imaterialidade, no momento que acabou de passar e já se fez passado.

Salvo acidentes, próprias do acaso (há os que creem que Deus nos fez num momento de distração), medalhas de ouro, prata e bronze sobreviverão por muito tempo a seus heróis.

Certamente foram conduzidas por seus elétrons a peitos merecedores, assim declinando suas vontades ocultas.

Dessa visão do todo advém a cosmovisão que nos levou a esboçar este escrito: a do respeito ao outro "sapiens", para além de Kant, ao "homo" biológico e às coisas que nos rodeiam, a dizer tudo, imóveis e em silêncio.

(*) Amadeu Roberto Garrido de Paula, advogado, membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.

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