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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

03/08/2016 15:48

Os jogos olímpicos e o maior espetáculo de todos os tempos

Por Katia Rubio (*)

Quando o barão Pierre de Coubertin reinventou os Jogos Olímpicos, ele jamais poderia imaginar o espetáculo que essa celebração se transformaria. Na condição de utopista defendia uma celebração que não apenas destacasse o mais veloz, o mais forte e o mais habilidoso, mas imaginava ser capaz de promover a educação pelo esporte e fazer cessar os conflitos mundiais.

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Embora desde o princípio da criação do Comitê Olímpico Internacional fosse enfático na separação entre esporte e política, rapidamente percebeu que sem concessões e negociações não seria possível levar seu projeto adiante. Aliou-se prematuramente aos ingleses, pais do movimento esportivo, para assegurar a viabilidade do sonho olímpico, aliança que lhe custou o afastamento da massificação do esporte previamente desejada.

Ali começava a caracterização de um movimento esportivo muito mais aristocrático do que popular, aprofundando ainda mais as diferenças entre esportistas amadores (os aristocratas) dos esportistas profissionais (atletas que praticavam esporte e também trabalhavam). Essa distinção, que marcou a história olímpica ao longo do século 20, relaciona-se também com outras tantas contradições vividas dentro de um movimento regido por uma carta de princípios que permanece quase intacta por mais de 100 anos.

Ao longo das três primeiras décadas do século 20, Coubertin viu sua proposta olímpica se alterar rápida e radicalmente. Até morrer, em 1937, ele assistiu à interrupção do ciclo olímpico com a não realização dos Jogos de 1916, por causa da Primeira Grande Guerra, a transformação dessa celebração em um grande espetáculo com os jogos olímpicos de Los Angeles em 1932, mas nada que se comparasse aos jogos de Berlim em 1936, sob a coordenação de uma bem preparada equipe de propaganda nazista, que fez a melhor edição olímpica até então, afirmação vinda do próprio Coubertin.

Reiniciado em 1948 os Jogos Olímpicos jamais seriam os mesmos. Interesses políticos e econômicos transformaram radicalmente um projeto utópico de celebração da paz entre os povos e confraternização entre nações. Os Jogos Olímpicos cresceram em importância e visibilidade tornando sua realização cada vez mais complexa, exigindo dos realizadores mais e mais esforços para cumprir as determinações para sua execução.

Mas não apenas obras grandiosas ficam para a história dos Jogos Olímpicos. Alguns feitos atravessam os séculos, muitos séculos, como atestam os muros do estádio, em Olímpia, na Grécia, onde estão inscritos os nomes dos atletas vencedores da prova de velocidade das competições olímpicas da Antiguidade.

Certamente Hitler e Goebbels, seu maior propagandista, perceberam o potencial da competição e transformaram os Jogos Olímpicos de 1936 em uma vitrine da suposta supremacia ariana. A capacidade de Berlim, e da Alemanha, produzir o maior espetáculo esportivo de todos os tempos, e atletas também espetaculares, não impediu que seres habilidosos como Jesse Owens quebrassem a lógica dessa supremacia. E ali também se afirmava o papel e a importância do atleta para todo esse sistema complexo chamado Olimpismo.

O que é possível observar depois de 1936, ao longo de todo o período da Guerra Fria, e agora em plena ocorrência do profissionalismo, é que, embora o Olimpismo seja definido como uma filosofia, ele se materializa como negócio. E a mola propulsora desse sistema é o atleta, o protagonista do espetáculo esportivo, historicamente relegado a um segundo plano na rede de poder e cargos dentro das Confederações esportivas e do Comitê Olímpico Internacional.

Ao longo de mais de um século de Jogos Olímpicos as verdadeiras marcas dessa competição ainda vivem nos tempos, gestos técnicos e realizações de atletas que competiram individual ou coletivamente.

Desde a primeira participação brasileira nos Jogos Olímpicos de 1920, em Antuérpia, acumulam-se histórias das mais variadas espécies sobre atletas nativos ou naturalizados brasileiros. São elas heroicas como as longas travessias do oceano a bordo de navios de passageiros ou cargueiros travestidos de navios de guerra, como foi o caso de 1932. Há cenas de cunho heroico, como foi o caso de Adalberto Cardoso que não pode desembarcar em Los Angeles em 1932 por falta de dinheiro para pagar sua inscrição na competição e mergulhou no mar próximo a São Francisco, voltando de carona até o local de sua prova, que correu descalço, alcunhado a partir daí de Iron Man.

Ou do já bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva que competiu tuberculoso nos Jogos Olímpicos de Roma, ou Aída dos Santos, a única mulher na delegação brasileira sem a companhia de qualquer técnico ou dirigente nos Jogos de 1964 e ficou na 4ª colocação no salto em altura. Há ainda a disposição férrea de um grupo de mulheres decididas a superar o preconceito e a falta de estrutura e de respeito como é o caso do futebol feminino que impõe sua marca desde 1996.

São muitas histórias, várias com final feliz, e outras nem tanto, mas todas com um ponto em comum: elas alteraram a vida de pessoas, cidades e do próprio país apresentando a marca da superação, da busca do melhor de si, ao materializar um resultado digno do esforço fora do comum.

Se os Jogos Olímpicos podem ser vistos como a metáfora das disputas bélicas que a sociedade contemporânea procura abolir, a superação dos limites continua a ser a atitude que mais contagia as gerações que se espelham nos atletas que competem como o seu ideal de “vir a ser”. Isso porque essa manifestação prodigiosa de habilidade é aquilo que leva o humano à transcendência, que o imortaliza, que o torna quase divino. A essa disposição é dado o nome de excelência, um dos valores olímpicos.

O que assistiremos nas próximas semanas pela primeira vez em solo brasileiro é a replicação de tantas histórias do passado. Mudam os uniformes, mudam os personagens e seus estilos de cabelo e gestos, mas na essência o que os Jogos Olímpicos apresentam é a possibilidade humana de se aproximar da imortalidade dos deuses com uma realização única como a conquista de um recorde ou os degraus do pódio.

E nesse momento, sacraliza-se o gesto e seu executor, e as questões de ordem material, política e econômica são alocadas em um outro plano. E isso não é alienação. Isso é a força do imaginário heróico que impulsiona não apenas os atletas, mas nós humanos na realização daquilo que parece impossível e que o esporte vivencia como poucos fenômenos culturais.

(*) Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da USP (Universidade de São Paulo) e membro da Academia Olímpica Brasileira

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