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Campo Grande, Domingo, 22 de Janeiro de 2017

03/07/2014 13:48

Qual festa junina fazemos?

Por Rafael Rossi (*)

Muito tradicionais por todo Brasil, as festas juninas encantam a todos e todas que por elas passam para se deliciar com comidas típicas, músicas, alegria, danças e brincadeiras. A paçoca, pipoca, quentão e outras comidas e bebidas fazem o sucesso entre os frequentadores mais diversos entre si. Porém é preciso perguntar: Qual festa junina fazemos? Uma aproximação daquelas realizadas no campo entre suas populações para festejar a colheita? Ou uma por nós idealizada?

Pode ser clichê falar que “caipira” é uma figura de linguagem que minimiza o homem e a mulher do campo, mas mesmo assim ainda é necessário. Praticamente todos nós conhecemos alguém que é ou fora camponês. Muito comum conversar com as pessoas e a maioria possuir pais e mães de origem camponesa. Sempre perguntei como eram os costumes de antigamente e ainda hoje no campo e a resposta é sempre a mesma: trata-se de gente que vive, trabalha, produz relações sociais, é honesta, têm orgulho em dizer que está produzindo e pagando seus impostos, enfim, camponeses e camponesas são pessoas honradas, com muitas estórias pra contar, com muito suor e trabalho a se orgulhar.

Até quando reproduziremos uma imagem que não corresponde e denigre esses trabalhadores? Não conheci e nem conheço um camponês que se vista normalmente com roupas remendadas de modo absurdo, ou que sorriem bestialmente quando lhes faltam um dente na boca. Igualmente é absurdo crer que essas pessoas são “burras” ou simbolizam o “atraso”. Em todo o Brasil é imensa a produção camponesa na contribuição dos alimentos consumidos.

As escolas e seus coordenadores precisam pensar na responsabilidade que têm com a formação das crianças ao montarem uma festa que, apesar de bonita e alegre em muitos casos, reproduz preconceituosamente uma visão não condizente com as populações do campo. A solidariedade é algo, por exemplo, típico do campesinato. Todos ajudam na preparação da festa e todos usufruem do trabalho coletivo. Não há competição entre os presentes, como nas competições de muitas festas juninas organizadas por pessoas da cidade que acreditam estarem produzindo uma festa tradicional.

Precisamos lembrar que exemplos de fraternidade e companheirismo vêm da terra e de sua gente como o hábito de presentear um amigo/a com alguma comida que fizemos e nosso amigo ou amiga nos devolver o recipiente também com alguma comida. Não se trata de uma reflexão banal para rotularmos essa ou aquela festa junina, mas sim pra não incorrermos no erro histórico, político, cultural e social de desmerecer aqueles povos que vivem e trabalham no campo e tanto contribuem com aqueles que habitam os espaços urbanos.

(*) Rafael Rossi, professor do curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFMS em Campo Grande

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