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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

10/01/2012 07:05

Sangue, suor e válvulas

Por Antonio Brás Constante*

O primeiro texto de 2012 não era para ser bem este, mas quando (quase as vésperas de Natal) você recebe uma mensagem de um grande amigo, que já não vê a um bom tempo, dizendo que se operou do coração e que o hospital está pedindo doadores de sangue para repor o estoque, a primeira coisa que fazemos é tentar contato com o amigo. A segunda é ir ao hospital. E a terceira (no meu caso) é escrever um texto sobre o assunto, publicando em seguida para não perder o momento.

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Foi o que acabei fazendo ao receber a mensagem do Mestre Gadis (para quem não conhece o Gadis, foi ele quem fez os desenhos da capa do meu livro e é um dos principais culpados por eu ter levado a sério esta brincadeira de escrever, ou de ter começado a brincar com a seriedade da escrita, tanto faz). Por telefone ele me contou que já tinha o problema no coração fazia um bom tempo, mas só agora foi preciso operar e colocar uma válvula. Como ele havia se aposentado há poucos anos, e sempre foi meio maluco (no bom sentido), fiquei imaginando se ele não teria levado a sério demais a frase onde se diz: “prefiro viver dez anos a mil do que viver mil anos a dez”, forçando seu coração além dos limites recomendáveis, sentindo emoções muito mais fortes do que aquelas vividas pelos aposentados que preferem passar os seus dias jogando damas nas praças de seus bairros.

Uma das coisas que chama a atenção neste tipo de operação, é que em meio a toda tecnologia que existe em nossos dias, com TVs, rádios e tantos outros aparelhos já dispondo de circuitos digitais miniaturizados e microchips de última geração em sua fabricação, descobrimos que quando o assunto é consertar o bom e velho coração humano ainda utilizamos válvulas?! (válvula mitral, para ser mais exato). Nada contra as válvulas, mas a medicina bem que poderia pelo menos modernizar um pouco os nomes dos componentes que usa, para que eles não pareçam ser tão obsoletos, principalmente em se tratando de algo que literalmente toca o coração.

Dois dias depois de receber a mensagem fui ao hospital. Ao estacionar me deparei com a novidade das ruas, o tal parquímetro (um tipo de “flanelinha eletrônico” que não cuida do seu carro, mas quer as suas moedinhas mesmo assim). O parquímetro faz exatamente o que os “azuizinhos” faziam (apelido dos fiscais de trânsito da prefeitura de Porto alegre que cuidam da chamada “área azul”, também conhecida como: “pare e pague”), sem necessariamente tirar-lhes o emprego, já que eles continuam desempenhando a árdua função de multar. A maior diferença que noto com a implantação da tecnologia dos parquímetros, é que agora além das despesas de folha de pagamento com os fiscais, a prefeitura também gasta com a manutenção e compra dos equipamentos (cujos ancestrais provavelmente devem ser os caça-níqueis).

E lá estava eu, totalmente desprovido de moedas, sem poder argumentar com uma máquina que só aceitava o vil metal e com uma fiscal de trânsito que deixou bem claro que ela apenas multava, e não estava ali para resolver o problema de moedas de ninguém. O jeito foi suar caminhando e mendigar em alguns estabelecimentos para que eles trocassem cédulas por moedas, para enfim poder seguir tranqüilo meu caminho rumo ao grandioso reduto hospitalar.

Uma vez dentro do hospital, encontrar o banco de sangue foi até bem fácil, preencher a ficha solicitada aos doadores foi um pouco mais complicado, mas descobrir após fazer tudo isso, em um misto de revolta e incredulidade, que eu não podia doar sangue é algo que não tem preço. Já fazia uns dez anos desde a última vez que doei meu viscoso líquido vermelho em outro hospital da capital. Na época me chamaram lá, poucos dias depois da doação, para informar que eu estava com o colesterol alto e que meu sangue era impróprio para consumo (talvez pudesse ser utilizado na cozinha para substituir o azeite). Lembro vagamente que me orientaram a buscar tratamento, mas não recordo de terem me dito que eu estaria proibido de doar sangue no futuro.

E o futuro chegou, e mesmo após eu argumentar que fazia exames anuais (que poderiam ser consultados pela internet) e provavam que meu colesterol já estava normal depois de tantos anos, não adiantou. Meu nome se encontrava gravado em um tipo de lista negra do ministério da saúde, e a única forma de sair de lá seria indo obrigatoriamente ao hospital onde haviam descoberto meu tenebroso problema de colesterol e fazendo um novo exame.

Dá para acreditar em uma coisa dessas? E se o hospital fosse em outro estado? E se tivesse sido demolido, falido ou coisa assim? O que mais me indigna nessa história é que os hospitais agem como se estivessem fazendo um favor ao atender os doadores. Parece até que não falta sangue nos hospitais de nosso País. Ou será que a falta de interesse é ainda maior do que a de sangue?

Saí do banco de sangue aborrecido, chateado, sem vontade cantar uma bela canção. Segui zanzando pelos corredores até encontrar o quarto que procurava. A porta estava fechada e resolvi entrar devagarzinho para não perturbar o meu amigo. Na penumbra do quarto fui me aproximando de seu leito. De costas para mim e deitado sobre a cama eu podia distinguir um vulto coberto por um lençol, todo intubado, que ao perceber minha presença se virou em minha direção, e me fez balbuciar em um misto de surpresa e dúvidas: “Gadis?”, e ele com uma cara ainda mais surpresa do que a minha, os olhos arregalados, e me olhando fixamente de cima a baixo (eu estava todo de preto, com barba por fazer e com uma cara de poucos amigos depois de discutir com o pessoal do banco de sangue) respondeu com outra pergunta: "Morte?" (bem, não foi bem isso que aconteceu, mas quase isso...).

Após o susto descobri na enfermaria que o Gadis havia recebido alta no final do dia anterior. Trocando mensagens com ele nos dias que se seguiram, fiquei sabendo que ele teve lapsos de memória e não se lembrava de quase nada que havia acontecido, falado ou dito em boa parte do tempo que esteve no hospital, inclusive de ter falado comigo ao telefone. E aqui estou eu, escrevendo sobre estes fatos e iniciando este novo ano, desejando a todos que vivam, conquistem e mantenham suas amizades, pois a amizade é um dos maiores e melhores presentes que podemos ter durante nossa temporária passagem por esta vida. FELIZ 2012!!!

(*) Antonio Brás Constante é articulista

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Cruzes, o Carlos de Moraes deve ter passado a noite em um desses bancos de sangue, tentando convencer que o seu sangue é próprio para consumo! Arg! Que péssimo humor, logo às 06:24 hs ... Relaxa, meu caro, pra vc, provavelmente teria que abrir o site e ler: Acidente grave em tal lugar, com 20 mortos e outros tantos feridos . Não leve a vida tão à sério ....
 
Elis Maria Holsback em 10/01/2012 11:08:37
Elis, por mais ofensiva que possa ter parecido o meu comentário, minha intenção foi a chamada crítica construtiva, tanto ao portal quanto ao articulista. Imagino que artigos em um veículo midiático devam versar sobre questões políticas, religiosas, educacionais, lazer, entre outros assuntos que não sejam o cotidiano do autor.
 
Carlos de Moraes em 10/01/2012 07:44:23
Amigo, da próxima vez procure um blog, algo mais indicado para contar suas frustrações e aventuras diárias. Esperava uma reflexão de algo relevante em um artigo como este, como tantos bons textos que já li por aqui.
 
Carlos de Moraes em 10/01/2012 07:24:06
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