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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

17/02/2012 10:15

Sou médico, meu trabalho tem valor -

Por Florentino Cardoso (*)

O titulo deste artigo foi slogan de uma campanha das entidades médicas nacionais em 2004, pela valorização do trabalho médico e da medicina. Passados quase oito anos, a situação pouco mudou, a despeito da luta incessante de instituições como a Associação Médica Brasileira (AMB).

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É certo que conquistas foram obtidas, como no recente movimento na saúde suplementar. Em vários estados do Brasil, operadoras de saúde promoveram reajustes em consultas durante 2011. No entanto, ainda não chegaram aos patamares mínimos reivindicados pelos médicos nem resolveram a dramática defasagem dos demais procedimentos.

A exploração do trabalho médico impacta diretamente a qualidade da medicina, assim como a assistência aos cidadãos. Para quitar suas contas e garantir a sobrevivência, médicos são obrigados a acumular diversos empregos, cumprindo jornadas de 60, 70 ou mais horas semanais. Indivíduo algum, seja de que área for, consegue manter a excelência do seu trabalho com tamanha sobrecarga.

Mais alarmante ainda é ver que a problemática da desvalorização do médico e da medicina parece atender a uma política deliberada. Se juntarmos algumas peças do quebra-cabeça da saúde é a essa conclusão que chegaremos fatalmente, lamentavelmente. Vamos mudar esse rumo!

O Brasil é um dos países que menos investe em saúde no mundo. Meses atrás, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou relatório anual com dados sobre a saúde no mundo, entre eles os investimentos no setor por país. Entre os 192 avaliados, ocupamos a medíocre 151ª posição. Aqui, a parcela do orçamento reservada à saúde é em torno de 7%. A média africana, extremamente mais pobre e com inúmeros problemas sociais, é de 9,6%.

O Sistema público de saúde (SUS) sofre com recursos insuficientes, impedindo a prática da boa medicina. A triste consequência surge com significativa parcela de profissionais qualificados afastando-se cada vez mais da rede pública. Isso sem falar nos salários irrisórios; na tabela do SUS que (só a título de exemplo) remunera uma consulta básica de clínico geral, ginecologista e pediatra em menos de R$ 3,00; na falta de um plano de cargos e vencimentos, de uma carreira de estado, na violência nas periferias, entre tantos outros complicadores.

Tem sido conhecida por todos as péssimas condições de trabalho e de assistência no SUS, ocasionando frustração e desmotivação. Graves obstáculos ao atendimento adequado marcam o dia a dia de postos de saúde, ambulatórios e hospitais. Quanto mais carente a região e mais necessitada a população pior é o quadro, bem evidenciado nas longas filas de espera por consultas, exames e cirurgias. Angustia-nos ver pacientes jogados em macas no meio de corredores, falta de profissionais, de medicamentos e equipamentos. Mortes evitáveis ocorrem, especialmente nas grandes emergências.

Se já consideramos o retrato da saúde pública algo como filme de guerra, vejamos o que mais tem por aí: nos últimos anos faculdades de medicina foram criadas às dezenas de norte a sul do Brasil, a maior parte delas escolas privadas (estarão visando somente o lucro?) sem estrutura mínina para formar bons médicos. Falamos de cursos sem hospital escola, com corpo docente não adequadamente qualificado, bibliotecas precárias, grade pedagógica deficiente.

O resultado é o que vimos dias atrás, quando o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo apresentou o resultado das avaliações de prova facultativa com estudantes do último ano de medicina. Quase metade deles não sabe interpretar uma radiografia, fazer um diagnóstico após receber as informações dos pacientes. Metade também faria o tratamento errado para infecção na garganta, meningite e sífilis e não é capaz de identificar uma febre alta como fator que eleva o risco de infecção grave em bebê. Em outras palavras: o que podemos esperar? E nossos filhos, pais, amigos e parentes de pessoas formadas com tamanha insuficiência de conhecimento? É, de fato, assustador.

Poderíamos parar por aqui para alicerçar o argumento de que médicos e medicina sofrem ataque deliberado nos últimos anos, assim como a assistência à população. Só que há mais, muito mais. Agora mesmo o governo federal, com a cumplicidade de alguns estados, sinaliza com a possibilidade de facilitar a revalidação de diploma de médicos brasileiros formados na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM) de Cuba.

Comenta-se que a ideia é permitir que façam estágio em hospitais públicos, recebendo bolsa (com recursos de nossos impostos), enquanto fazem cursinho de reforço para se preparar para uma prova. Um absurdo, que merece o devido parecer do Ministério Público Federal. Porque essa predileção por Cuba? Não somos contra médicos formados fora do Brasil virem morar e trabalhar aqui, todavia defendemos direito igual para todos.

Existe o REVALIDA devidamente chancelado pelo Ministério da Educação e que deve ser nesse momento o caminho para todos aqueles que querem revalidar seu diploma conseguido no exterior. Fortaleçamos o REVALIDA e não permitamos que qualquer faculdade ou universidade faça revalidação de diploma fora desse contexto.

Defendemos o sistema público de saúde (SUS). Não é possível o SUS continuar com recursos insuficientes e profissionais desvalorizados. Ao fazer vistas grossas à má formação e facilitar o ingresso na linha de frente da assistência de quadros não capacitados formados no exterior, afronta-se as reais necessidades dos cidadãos brasileiros, coloca-se em risco a saúde e o bem-estar dos pacientes, desvaloriza-se os bons médicos e bombardeia-se a nossa medicina – hoje ainda uma referência como excelência.

Como presidente recém-empossado da Associação Médica Brasileira (AMB), registro publicamente para que fique bem claro: reagiremos à altura em nome da boa prática médica e da adequada assistência ao povo brasileiro. Jamais defenderemos castas, pois queremos uma mesma medicina para todos. Deve prevalecer sempre o mérito e não vieses surgidos de arroubos, que não sabemos que interesses defendem. Sou médico e tenho compromisso com a vida, com a medicina e com a saúde da população.

(*) Florentino Cardoso é presidente da AMB (Associação Médica Brasileira)

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isso sem contar que tem desconto na fonte de 27%.
No SUS, o pagamento por consulta é de 3 reais!
Ai é só fazer os calculos...
 
CELSO N JUNIOR em 18/02/2012 11:13:15
No artigo não fala que outras profissões não merecem ganhar mais. A briga é por salarios e por investimentos na saude. O SUS esta em decadencia, e quem fala que ele é bom, deveria fazer uma visita a paises que se preocupam com a saude.
O calculo da Viviane Castro faltou que cada consulta gera retorno, e que vc deve fazer no minimo 100 consultas+retornos p pagar consultorio, secretária, materiais..
 
CELSO N. JUNIOR em 18/02/2012 11:10:56
Fato é que eles não ganham tal mal assim. Se um médico viver apenas das consultas e ganhar R$30,00 por consulta. Pode em um dia de trabalho atender 10 pessoas, e todos nos sabemos que uma consulta não dura mais que 30 minutos, ganhar R$300,00. Agora pense uma semana, uma mês. E sabemos que eles não vivem apenas de consulta médica. Será que ganham tão mal assim?
 
Viviane Castro em 17/02/2012 12:03:41
... o que não é vantagem para a população usuária do serviço, ja que e é isso que desqualifica o trabalho do profissionais em questão: a carga horária estafante. Ou você conhece algum médico sem renome que trabalhe em um só lugar, ou por um só período?

É preciso refletir e se informar antes de criticar! Intere-se do assunto, e discutiremos mais!

Abraço
 
Otávio Tanus em 17/02/2012 11:58:26
Fernando M. Alves, é por causa de pessoas desinformadas como você é que o sistema de saúde é erroneamente avaliado. Não só médicos como qualquer outro profissional de saúde, humana ou animal, recebem SIM salários insuficientes em um emprego na rede pública ou privada. A diferença é que médicos ainda assim conseguem alcançar bons números, pois se submetem a vários empregos simultâneos...
 
Otávio Tanus em 17/02/2012 11:55:58
Ná area empresarial, somos sempre cobrados sobre qualidade, gestão de qualidade, qualidade total... deveria existir algo assim para eles, quem sabe melhoraria o serviço... Não entendo essa colocação. o médico nunca foi desvalorizado, ele se desvalorizou, ou seja, tratando mal seus pacientes. Quem quer ser mal atendido???
 
Carolina Souza em 17/02/2012 11:34:38
Concordo com o Sr Fernando! A minha profissão também tem valor, mas pelo visto só mesmo o médico "merece" reconhecimento, em detrimento de outras profissões. É um absurdo a forma como somos tratados por eles. Como uma coisa, um nada... lado humano??? o que é isso? devem perguntar!!! Onde ficou o juramento feito no dia da colação de grau? Acredito que junto com a ressaca da festa de formatura deles
 
Carolina Souza em 17/02/2012 11:31:16
É dai um cidadão comum. Ou será que outras profissões não tem valor? o Professor, o gari a empregada doméstica e tantas outras? E os nossos militares que vão pro Haiti arriscar suas vidas não tem Valor? Basta! os médicos são os que mais ganham e querem ser tratados como dondoquinhas mimadas? Por que não vão ser políticos então? Ganham mt e nada fazem e ainda são bajulados.
 
Pedro Neto em 17/02/2012 11:29:11
ORDEM dos MÈDICOS do BRASIL - só teremos forças para mudar essa situação quando formos unidos

Muitas entidades (CFM, CRM, AMB, Sindicato, APM, etc) e muitos "Caciques" que não conseguem nem aprovar a Lei do Ato Médico há tantos anos em tramitação em Brasília.
 
Hugo Ramos em 17/02/2012 10:54:08
Meu trabalho também tem valor. Essa mania de médico achar que é deus já nos encheu o saco. Ganha mais que qualquer outra profissão e ainda vive reclamando da vida e tratando paciente do SUS como lixo, além de chegar com horas e horas de atraso. Reclama da precariedade do SUS, mas não reconhece que é um dos sistemas de saúde mais avançados do mundo.
 
Fernando M. Alves em 17/02/2012 10:32:54
A EDUCAÇÃO NO BRASIL ESTA NA MÃO DOS POLÍTICOS, ENTÃO NÃO PRECISA DIZER MAIS NADA. A FORMAÇÃO PROFISSIONAL ESTA CADA VEZ PIOR, EU NÃO CONHEÇO NEM UM COMCELHO DE CLASSE QUE RECUSOU FAZER O REGISTRO DO PROFISSIONAL QUE VEIO DESSA OU DAQUELA ESCOLA.EXISTE UMA GRANDE INDUSTRIA DA DEFORMAÇÃO PROFISSIONAL, PORQUE A FORMAÇÃO FICOU MUITO LONGE. MAS É ISSO AI, NINGUEM DIZ PRA NINGUEM QUANDO ESTA NO MEIO,
 
PAULO G. DIAS em 17/02/2012 10:25:57
engracado, sera que 30,00 reais sao uma boa remuneracao para quem cuida da sua vida? quanto vc paga para cortar o cabelo? quanto vc paga para ir no cinema? quanto vc paga para comer fora? e vc ainda acha que para ter saude 30,00 eh muito??? sinto em dizer, se vc acha 30,00 o suficiente, vc nao da valor a sua vida!
 
joao da silva em 17/02/2012 08:00:31
Nao vi em nenhum trecho da materia desqualificando ou desvalorizando outras profissoes. Muito se fala que o medico ganha bem, mas nao param pra pensar que esse "ganha bem" exigiu anos de formacao somados a altas cargas horarias de trabalho, chegando ao dobro daquilo que o ministerio do trabalho recomenda. Sua vida tem preco? Entao porque quem cuida dela tem que ser mal remunerado? sem mais...
 
Joao da Silva em 17/02/2012 01:32:03
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