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Campo Grande, Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

24/07/2013 14:48

Sou um caminhante lento, mas nunca caminho para trás

André Luís F. Lourenção (*)

“Sou um caminhante lento, mas nunca caminho para trás”. A frase que marcou meu final de semana, não muito mais do que isso, mas de alguma forma marcou, faz parte de um livro, denominado “Livre”. Leitura esta destinada a mentes inquietas como a minha e como a de vários leitores desta coluna. A história de um ser humano, reunindo suas forças para continuar seguindo em frente. Ela realmente faz pensar...

Junto com esse livro, e não menos importante, também havia a incumbência dominical de terminar a correção de uma tese de doutorado para publicação. Tese esta que foi por mim defendida em 2011. Esta tese é bastante prática e aborda um comparativo entre híbridos Bt e suas isolíneas convencionais. Desde 2007, ano de liberação desta tecnologia no Brasil, o mercado agrícola foi cada vez mais abastecido por híbridos com tecnologias Bt, com supressão principalmente à lagarta-do-cartucho do milho. Na época, este trabalho comparativo tinha um tempo específico para divulgação, pois dentro de alguns anos estes comparativos não seriam mais necessários, já que a tecnologia vinha aumentar produtividade e facilitar a vida do produtor rural. Estaríamos sim, caminhando...

Mas hoje vejo que não foi bem este o ocorrido. Na safrinha 2013, nos deparamos com lavouras Bt inteiramente atacadas, com prejuízos claros, com produtores realizando até cinco aplicações sem sucesso no controle. As áreas de refúgio e a rotação de princípios ativos ou genes Bt são negligenciados por produtores. Por parte das empresas, falta também a dedicação na resolução de problemas-chave, como a falta de sementes convencionais no mercado. O produtor que planta híbridos convencionais hoje é taxado como não tecnificado, retrógrado talvez, pois não usa tecnologia. Será mesmo? O produtor tecnificado não é aquele que compra toda e qualquer tecnologia, mas sim aquele que sabe aplicá-la em sua propriedade, aquele que está no azul. Também é tecnificado aquele que rejeita aquilo que é oferecido como tecnologia, mas que, muitas vezes, atende a todos os interesses, menos o dele próprio.

Pois, vamos aos resultados práticos da tese. Naquela época, e ainda hoje, as proteínas Bt exercem controle sobre a lagarta-do-cartucho. Híbridos Bt exercem controle semelhante a híbridos convencionais sob o bom manejo de pragas. Uma aplicação de inseticida em híbridos Bt também melhorou seu desempenho. As produtividades de híbridos Bt, de maneira geral, foram um pouco maiores. Entretanto, quando se conseguiu um bom manejo de pragas, ou seja, o híbrido Bt e sua isolínea convencional estiveram livres da praga, não houve diferença entre suas produtividades.

Portanto não existe mágica! O que ocorre na prática é que o produtor dificilmente consegue manter sua lavoura convencional livre de ataques, estando aí a grande vantagem da utilização de híbridos Bt. A densidade de plantas ou estande de híbridos Bt também foi estatisticamente superior aos convencionais, demonstrando maior segurança na utilização desta tecnologia. Após esta análise, o que interessa é o preço das sementes e quanto de lucro a utilização desta tecnologia pode agregar.

Portanto, nossa caminhada na busca por melhores produtividades e maior lucratividade na atividade realmente é lenta e se desvia, como em uma trilha. Muitas vezes nos perdemos e precisamos refazer o percurso. O percurso passa por entendermos as tecnologias e buscarmos a informação para adotarmos ou não tais práticas. As recomendações técnicas para utilização de híbridos Bt passam por híbridos convencionais. Sem rotação de genes e alternância com convencionais, dificilmente alguma tecnologia Bt permanecerá por muito tempo viável. Por isso volto a pensar em “Livre”. Aceitar a tudo é caminhar pra trás. Caminhar lentamente muitas vezes é necessário para seguir em frente, ainda mais quando se tem tanta bagagem...

(*) André Luís F. Lourenção é engenheiro agrônomo formado pela UFGD em 2002, mestre em entomologia e conservação da Biodiversidade (UFGD, 2005) e doutor em agronomia (UFGD, 2011). Na Fundação MS, ocupa o cargo de Gerente Técnico-Científico.

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