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Campo Grande, Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

28/07/2011 10:00

Tempos românticos, por Heitor Freire

Por Heitor Freire (*)

Em nossa Campo Grande pré-capital, vivíamos tempos românticos. A vida transcorria de uma forma tranquila, serena, gostosa, mágica.

Nesses tempos por mim vividos, a memória me remete aos antigos cartórios que acabavam sendo também pontos de encontro dos profissionais ligados à sua área de atuação: corretores de imóveis, advogados, contadores que por ali passavam não só no exercício do seu “múnus” profissional, mas também para bater papo, rever amigos.

Um dos grandes incentivadores dessa prática era o Ulysses Serra. Em seu cartório se reuniam também os literatos e escritores, e o local acabou se tornando o embrião da nossa Academia de Letras e de diversos movimentos literários.

Inicialmente eram os cartórios em número de seis: o do Antônio Leite Serra (1º), do ministro Waldyr Santos Pereira (2º), do Pedro Pedra (3º), do Murilo Rolim (4º), do Ulysses Serra (5º), e o do Izaías Ferro (6º). Depois surgiu o da Gilka Martins (7º), o da Ana Giugni de Oliveira (8º) e, por último, o do Múcio Santos Pereira (9º).

Os cartórios tinham também outra característica: a fidelidade e permanência de seus funcionários, que se transformavam em verdadeiros seguidores dos titulares, quase como uma sombra.

A única exceção a essa regra que eu saiba, aconteceu com o cartório do Murilo Rolim, onde trabalhava o João de Oliveira Rodi, que, cooptado pelo Oscar Salazar (genro e sucessor do Antônio Leite Serra), migrou para o cartório deste e ali permaneceu até sua aposentadoria.

Lembro-me, por exemplo, do Ossian Virgilio de Senna, fiel escudeiro da Gilka Martins e coluna mestra de seu cartório. Tão próximo que todos os dias a levava de carro, de sua casa para o cartório e vice-versa. Foi ele quem deu estrutura, funcionalidade e credibilidade ao seu cartório.

O titular do cartório do 3º Ofício, Pedro Pedra, era um pessoa muito querida por todos. Apesar de seu cartório ser o de protestos de títulos – uma atividade que naturalmente faz com que as pessoas se sintam oprimidas –, ele conseguia, com simpatia e carinho, falando sempre em voz baixa, atenuar o constrangimento inerente à natureza de sua atividade. Agia com total humanidade.

Certa vez, antes da criação do nosso estado, presenciei uma cena que retrata com muita fidelidade o que estou afirmando. Eu estava no cartório para pagar um título, quando chegou com grande empáfia um advogado da Caixa Econômica, vindo de Cuiabá, reclamando em altos brados que um determinado título encaminhado pelo seu banco para protesto já havia ultrapassado o tríduo – prazo legal de três dias após a notificação do devedor, para se proceder ao protesto – mas o protesto ainda não tinha sido efetivado.

O “seu” Pedro, chamou uma funcionária, pediu a ela para procurar o tal título e apurar o que acontecera. Depois de muito tempo, já com o advogado bufando com ares de “otoridade”, “seu” Pedro perguntou novamente: “Minha filha, você não achou o título?” E a moça respondeu: “Não achei porque está com o senhor. O senhor mandou segurar”.

O “seu” Pedro ficou vermelho como um pimentão virou-se para o advogado e disse: “Pois é, doutor, eu mandei segurar, mas o senhor pode esperar mais uns dias que o devedor vai pagar, ele é gente fina”. Não coube outra atitude ao advogado senão retirar-se, ameaçando representar contra o “seu” Pedro na corregedoria.

Por essa e outras atitudes de benevolência, que eram características de “seu” Pedro, eu mesmo iniciei, tempos depois, um movimento para que fosse erigido um monumento em sua homenagem localizado na Praça do Rádio Clube, envolvendo as Federações do Comércio, da Indústria, a Associação Comercial, a Câmara de Valores Imobiliários (que eu presidia na oportunidade), o Sindicato dos Corretores de Imóveis e outras entidades, arrecadando fundos para atingirmos esse objetivo.

O monumento foi inaugurado com a presença do prefeito, Lúdio Coelho, do presidente da Câmara de Vereadores, Francisco Giordano Neto – que na ocasião proferiu mais um de seus memoráveis discursos – e das demais autoridades, além da presença de um público considerável. A cerimônia aconteceu num sábado de manhã. Uma homenagem justa e merecida.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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