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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

19/10/2012 08:13

Um “establishment” universitário na UFGD

Por Jorge Eremites de Oliveira (*)

Desde sua implantação, em 2006, até os dias de hoje, a UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) tem estado sob o domínio de um “establishment” universitário, isto é, de um grupo sociopolítico que, empoderado legalmente, mantém forte controle, influência e autoridade sobre os rumos da instituição e a vida das pessoas na academia. Ali existe a tentativa de implantação de um projeto político hegemônico, apresentado como sofisma de democracia, com nítida vinculação político-partidária, comprometendo o futuro da instituição e seu papel estratégico para a região onde está inserida.

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 Esse “establishment” é encabeçado por um líder legal, de espírito político provinciano, cuja liderança é desprovida de grande carisma e tradicionalidade, apesar dos esforços midiáticos para reverter a situação. O grupo usa de vários mecanismos burocráticos e legais para manter-se no poder: 1) assoberba servidores com mais e mais trabalhos ligados ao funcionamento de uma instituição administrativamente pesada, ao invés de torná-la mais leve para favorecer as atividades fins de ensino, pesquisa e extensão; 2) promove o patrulhamento ideológico contra vozes discordantes, não raramente rotuladas de reacionárias, conservadoras, oposicionistas e de direita; 3) cerceia o pensamento crítico quanto às suas ações político-administrativas, imprescindível para o desenvolvimento institucional e a democracia interna; 4) faz acordos para beneficiar aliados políticos, inclusive pessoas oportunistas e carreiristas, criando uma espécie de hipossuficiência política aos não aliados; 5) promove a cooptação de associações e sindicatos de trabalhadores e entidades estudantis, sobretudo de certos dirigentes; 6) exalta a instituição como “a melhor universidade de Mato Grosso do Sul”, denotando ausência de humildade e contradição em relação a dados publicados sobre a graduação e pós-graduação no país; 7) apoia candidato próprio a pleitos eleitorais no município, prova que seu projeto de hegemonia é extramurros; etc. Isso tudo atesta, portanto, que o “establishment” pratica violência social e política para atingir seus propósitos, observada em relações sociais assimétricas que impedem o reconhecimento das vozes discordantes como sujeitos.

Por isso, o que no passado foi um sonho, no presente se apresenta como pesadelo para quem defende na academia o pluralismo de ideias, a liberdade de pensamento, a educação libertária e apartidária, o desenvolvimento científico e tecnológico e o planejamento estratégico. Em um ambiente assim, geralmente quando alguém apresenta uma proposta ao conselho diretor em determinadas faculdades, sua ideia não é apreciada pelo mérito que possa ter, mas pelo fato de sua autoria estar ou não ao lado do referido “establishment”. Não é por menos que, diante desta situação, muitos professores-pesquisadores e até mesmo alguns técnicos administrativos pediram demissão da UFGD ou solicitaram redistribuição para outras universidades. Outros ainda o farão assim que tiverem oportunidade, inclusive pessoas há muito estabelecidas no estado, com vínculos de parentesco e sentimento de pertencimento à região. Questões dessa natureza não são devidamente discutidas nas instâncias de deliberação da universidade, sob o argumento simplista de que tudo não passaria de mera mobilidade de servidores públicos diante do crescimento do ensino superior no país.

Frente a este contexto sociopolítico, de difícil mudança no curto prazo, há fatos de maior visibilidade na sociedade nacional que possibilitam compreender a situação. O julgamento pelo STF do “Mensalão”, por exemplo, é interessante para compreender a prática de certos grupos que ascenderam ao poder central a partir da década de 2000. A condenação pelo crime de corrupção ativa de José Dirceu e José Genoíno, dois ícones do PT, chama à atenção para algo que Hélio Bicudo, Fernando Gabeira e outros já haviam percebido. Refiro-me ao fato de muitos militantes de esquerda terem pegado em armas para enfrentar a ditadura militar (1964-1985) em nome não apenas da democracia e da liberdade. Eles defendiam algo maior, a implantação de uma ditadura de esquerda de viés totalitário. Guardadas as devidas proporções, é esta mesma busca pelo poder e hegemonia política que aconteceu no governo Lula (2003-2010) e é isso o que acontece na UFGD sob o domínio de um “establishment” associado a setores do PT. Para mudar esta situação será preciso desalienação política e indignação em relação ao estado de coisas, autonomia de pensamento, superação do individualismo acadêmico, capacidade de organização e mobilização, publicização de avaliações críticas e disposição para disputar o poder na forma da lei. Isso deve ser feito com vistas à construção de um projeto autenticamente republicano, democrático, apartidário e estratégico de “universitas”, superando o enclave político-administrativo criado e representado pelo referido “establishment”.

 

(*)Jorge Eremites de Oliveira é doutor em História/Arqueologia pela PUCRS e professor de Antropologia Faculdade de Ciências Humanas da UFGD. Email: eremites.br@gmail.com.

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Caro Jorge, quero parabenizá-lo pela sua coragem e pela sua capacidade de sintetizar a realidade da “nossa” universidade de forma fidedigna, cristalina e absolutamente irretocável. Mais que isso, de forma didática!

Não espere uma avalanche de cumprimentos públicos pelo seu primoroso artigo, mas acredite que, assim como eu, muitos colegas estão orgulhosos de você.
 
Wellington Lima dos Santos em 22/10/2012 12:11:10
Oi Jorge. O que mais me assusta é que se alterarmos o nome da universidade do seu texto, ele continua válido para uma porção significativa das UFs brasileiras, em cujas investimentos privilegiam os meios, em especial funções administrativas, em detrimento das funções fim, ENSINO, PESQUISA e EXTENSÃO.
 
Josué Raizer em 22/10/2012 08:54:18
Parabéns é o mínimo que posso dizer para o doutor em História e Antropologia e que é professor na UFGD, portanto, com pleno conhecimento de tudo que ocorre dentro daquela Instituição. Venho dizendo sobre essa manutenção ideológica e sociopolítica para a qual convergem os ideais administrativos da UFGD. Mas quem se importa?
Obrigado Professor. E aproveitando o ensejo que a oportunidade me oferece, lhe convido para o meu programa no canal 11 de nossa Via Cabo, DOURADOS EM REVISTA, para um bate papo sobre esse assunto. Em lhe interessando, deixo aqui meu numero de celular para contanto. 9633 4229 e 8172 4436
 
Prof. Benê Cantelli em 21/10/2012 18:01:00
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