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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

13/08/2011 07:02

Um grande chef, por Heitor Freire (*)

Por Heitor Freire (*)

Campo Grande teve, entre seus filhos, um grande chef de ascendência libanesa, recentemente falecido e que soube trabalhar com muita competência em seu mister profissional. Trata-se de William Chebel Duailibi. Filho de Chebel Duailibi, que comercializava diamantes.

Quando era ainda adolescente, William teve uma atuação que marcou a história da inauguração da piscina do Rádio Clube. O acontecimento da inauguração foi tão marcante que polarizou a atenção de toda a nossa sociedade de então. Foi tão chique que um das dondocas resolveu nadar com seu anel de brilhantes. Ao sair da piscina, olhou para o seu dedo e cadê o anel?

Foi um drama. Choro, reclamação, condenação do marido: “Onde se viu nadar com anel de brilhantes?”. Enquanto todos comentavam, William, que já era um nadador competente, mergulhou uma, duas, três vezes, até que conseguiu encontrar o anel no fundo da piscina. Foi uma consagração. Saudado como verdadeiro herói e salvador de um casamento.

Foi sargento da Aeronáutica. Mas o seu espírito de comerciante, aliado ao seu sangue fenício, logo começou a se manifestar gerando uma insatisfação com a rotina da caserna, não conseguindo identificar o que lhe causava esse estado de coisas.

Sua vida começou a tomar o seu rumo natural quando seu tio Jorge Duailibi, comerciante tradicional em nossa cidade, dono da loja A Brasileira, adquiriu para ele, uma franquia, criando uma lanchonete que marcaria época em nossa cidade: o Haiti, na Rua Don Aquino, o que o levou a pedir baixa da Aeronáutica. Foi um sucesso desde o começo. Inicialmente houve uma grande expectativa na cidade, que logo se confirmou com a preferência que conquistou.

A inovação do Haiti marcou uma nova forma de fazer e de comercializar salgados. O mate gelado – produto da nossa fronteira com o Paraguai – também contribuiu para consolidar essa lanchonete. Após um longo período, William passou o negócio para frente.

Depois de alguns anos resolveu montar um novo negócio. No mesmo ramo, criou o Mini-Lanches, localizado na Rua 14 de Julho, no térreo do Edifício São José, que também marcou época. Os salgados ali servidos eram de primeira qualidade: esfihas, quibes, coxinhas; o suco de laranja era o carro-chefe. Vendia tanto que às vezes, ao fechar a lanchonete, o William, beijava a máquina de produzir o suco. Servia também refeições ligeiras.

O William era careca. E resolveu inovar também no visual. Foi o primeiro que eu saiba, em Campo Grande, a fazer implante de cabelo. Quando os primeiros cabelos começaram a brotar naquela careca luzidia, acontecia que os fios saíam um pouco desalinhados conferindo-lhe um aspecto cômico.

Uma vez um freguês, querendo tirar sarro na cara do William, perguntou-lhe: “Como é esse cabelo que fica assim tão desalinhado, esquisito, de onde foi tirado?” William paciente e didaticamente informava que era retirado da parte posterior da cabeça e que ao crescer, por falta de apoio, ficava com esse aspecto, mas que quando nascessem os outros fios implantados, teria sustentação. No dia seguinte, novamente o tal cliente fez a mesma pergunta e William, novamente explicou pacientemente.

Quando no terceiro dia a pergunta foi repetida: “De onde foi tirado o cabelo?” Percebendo o caráter de gozação, respondeu agressivamente: “Do pentelho da sua mãe seu fdp”. E já pulou o balcão para dar uma surra no gozador, que saiu correndo com meio quibe na boca.

Durante esse período, William disputou uma concorrência na Vasp, com o objetivo de ganhar a Comissaria – provedora de salgados e comestíveis para as suas aeronaves – e acabou ganhando. Também nessa especialidade ele inovou pela qualidade dos salgados e pela sua variedade. Ele sempre foi muito criativo.

Naquela época, a Vasp era a Vasp, ou seja, uma empresa área que só ficava atrás da Varig. O padrão dos alimentos que o William fabricava, era de nível internacional. Aos poucos ele foi influenciando as demais comissarias do país.

O William, tendo sempre uma visão pioneira e corajosa: buscava alternativas ligadas ao ramo da alimentação. Percebendo um novo nicho no mercado, dedicou-se também ao ramo de Buffet.

Ele e o Cantero (José Ramão Cantero) foram precursores nesse ramo. O Cantero, de ascendência paraguaia, tinha em comum com o William o fato de terem servido como sargentos na Aeronáutica e serem ambos fornecedores dos serviços de bordo dos aviões comerciais da época: na Vasp (William) e na Cruzeiro do Sul (Cantero).

Quando o Cantero deu baixa da Aeronáutica, dedicou-se ao ramo de alimentos. Primeiro com uma churrascaria na Avenida Afonso Pena, que levava o seu nome, onde ele se destacou com a ponta de costela e a apresentação de conjuntos paraguaios, criando um clima típico. Depois adquiriu um terreno com frente para a Rua 26 de agosto e fundos para a então Avenida Marginal, hoje Fernando Corrêa da Costa, onde localizou o seu Buffet.

O William, tanto nas lanchonetes como no Buffet e na comissaria, teve uma grande ajudante: da. Diva, que aguentava suas broncas e também dava as dela e assim aos tapas e beijos trabalharam juntos por muitos anos. Ele tratava a da. Diva, como pessoa de sua família, dando-lhe toda atenção.

Foi durante sua longa vida maçônica, o Grande Mestre de Banquetes do Grande Oriente do Brasil, onde também deu uma contribuição muito importante, fato sempre lembrado e agradecido pelo Grão-Mestre Fadel Tahjer Iunes.

William foi casado com a Joalina, sua esposa de toda a vida, tiveram três filhos: Marcos, Milene e Cláudio. Logo após o casamento, eles foram morar na Rua 7 de Setembro, em uma vila de propriedade do dr. Paulo Coelho Machado. Ali moravam também os casais recém-formados: Jorge Elias Zahran/Maria José e Arassuay Gomes de Castro/Mariazinha. Ele comentava que nessa ocasião só eles (William e Joalina) tinham geladeira e arrumavam um espaço para os casais amigos guardarem carne.

Ele era um homem voltado para a família. Sempre foi muito previdente. Quando os irmãos Oliva (Vicente e José) lançaram o edifício Don Aquino, ele, de cara, comprou quatro apartamentos: um para ele e um para cada um de seus três filhos. Construiu também um conjunto de sobrados no Bairro Taveirópolis. Deixou um patrimônio razoável.

A Joalina era filha do tenente Guimarães, da reserva do Exército, casado com a da. Mira (Mirandolina), cacerense que nunca perdeu o sotaque. O tenente Guimarães, alegre como todo cuiabano, morreu de um enfarte fulminante numa tarde de domingo no Jockey Club de Campo Grande. Sua morte foi muito sentida pelo inesperado. Era muito querido.

Aos domingos, às vezes em que almoçávamos juntos na casa de meu irmão Hugo, então casado com a Jaci, irmã da Joalina, depois do almoço, enquanto eu fazia a minha sesta, os dois ficavam jogando pôquer: um tentando roubar do outro.

Quando do casamento da minha filha Raquel, William já estava afastado do ramo, perguntou quem faria o jantar e como não havíamos ainda tratado disso, ofereceu-se para fazê-lo. Reuniu novamente a sua equipe com da. Diva à frente e deu-nos de presente o jantar – de gala – que foi servido no Clube Estoril. Isso há 18 anos.

Quando veio a falecer, depois de um longo período doloroso, de uma doença progressiva, teve um velório muito concorrido, apesar do tempo chuvoso. Foi homenageado em discurso emotivo pelo dr. Fadel Tahjer Iunes, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil e também pelo Santa Rosa (Luiz Gonzaga), que disse, entre outras coisas, que era necessário que alguém escrevesse sobre ele. Também fez uso da palavra nessa ocasião sua filha Milene, com uma fala marcada pelo amor e pela saudade, que emocionou a todos.

Pois bem Santa Rosa, concordando com sua fala de então, fica a minha intenção de atender seu pedido.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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Tenho acompanhado, com grande satisfação, as crônicas do Dr. Heitor neste veículo.
Originário de Aquidauana, filho de militar, depois de algumas andanças, cheguei com a família por aqui no final de 1959...
De lá para cá, também presenciei a história de Campo Grande, hoje sendo contada em doses homeopáticas pelo articulista.
Vivi na campo Grande em que só tínhamos energia elétrica em casa das 18 às 22 horas. Uma cidade em que poucas ruas possuiam pavimentação asfáltica, sinaleiros no trânsito nem pensar...
Tempo das Ruas: Campo de Marte (hoje Arthur Jorge); Constituição (hoje Pe. João Crippa); Schnoor (hoje João Rosa Pires); Y Juca Pirama (com seu calçamento de paralepípedos, que se iniciava na Cabeça de Boi e terminava nos trilhos da NOB-e que hoje tem toda a sua extensão como Cândido Mariano); da Av Mato Grosso, que na década de 1960 tentaram mudar de nomenclatura em homenagem a um Presidente americo assassinado, mas que "não pegou", e por aí vai.
Tempos em qua assistíamos, aos sábados e domingos, partidas pelo Campeonato da LEMC, nas categorias Aspirante e Principal, no Estádio Belmar Fidalgo.
Cito os acima, apenas para, além de parabenizar Heitor Freire, também, render minha singela homenagem aos 112 anos da Cidade Morena.

 
EDSON TROMBINE LEITE em 13/08/2011 12:20:30
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