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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

12/03/2011 07:23

Um japonês sorridente

Por Heitor Freire (*)

Campo Grande tem uma colônia japonesa bastante populosa e atuante em nossa coletividade, podemos testemunhar a imensa contribuição que ela deu e dá para o nosso desenvolvimento.

Alguns japoneses têm uma característica: estão sempre sorrindo, afirmando com a cabeça e dizendo “sim sinhô”, como que agradecendo e ao mesmo tempo agradando aos circunstantes, e de certa forma desculpando-se por qualquer ato que tenha desagradado. Outra característica verbal dos antigos era “garantido no?”

Entrosaram-se em nossa sociedade de uma forma muito interessante. No começo eram arredios trabalhando como lavradores, tintureiros, fotógrafos, cafeicultores, aplicados e concentrados em suas atividades. Havia ainda os que se dedicavam às hortaliças, verduras, frutas, comercializando os seus produtos na antiga feira da Rua 7 de Setembro, onde hoje é o mercado municipal.

A segunda geração foi a que provocou o começo da integração através das escolas. Familiarizando-se com os colegas, aos poucos, foram se introduzindo no meio social.

Embora inicialmente avessos a um relacionamento conjugal fora da colônia, logo depois, naturalmente, começaram os casamentos com os brasileiros, criando assim um entrelaçamento que propiciou maior integração entre as duas culturas.

O nosso japonês sorridente é o José Yasuke Okama, dono do Bar do Zé. O Zé, quando sorri, aperta os olhos que se transformam numa linha reta. E está sempre sorrindo.

O Bar do Zé, cujo nome original era Bar São Jorge, foi aberto em 1953, por seu pai, Kintoro Okama, no local onde funcionava o Café Suave, dos Zahran; quando ele faleceu sua esposa, dona Hatsu – carinhosamente chamada por todos de dona Maria – continuou com o bar. Ela atendia com muita alegria e era tratada com uma deferência tão especial por todos, que chegava às raias da reverência. Está viva até hoje, com 89 anos bem vividos.

Campo Grande é uma cidade que tem preservado por muito tempo, os seus locais de encontro, os quais, naturalmente, com o passar dos anos vão sendo modificados.

Nos tempos de antanho, tínhamos a Farmácia São José. Logo depois, vieram o Armazém do Troncoso – que resiste até hoje –, o Gabura’s que enquanto existiu na Rua 14, foi das mais movimentadas lojas de roupa da cidade e o Bar do Paulo, que foi desativado. Mas dentre todos esses, um dos poucos que passou por tantas transformações mas permanece invicto, no tempo e no espaço, é o Bar do Zé – que já foi até anúncio na revista Piauí, pelo fato de ser um dos raros estabelecimentos que ainda servem café, até hoje, feito em coador de pano – com uma longevidade digna de nota.

Quando o Zé assumiu a direção do bar, com o gradativo recolhimento de sua mãe devido à idade, naturalmente o lugar teve a sua denominação mudada para Bar do Zé, que por força das circunstâncias teve de assumir esse novo e popular nome.

O local foi palco de grandes acontecimentos, como a luta para que a universidade da nossa cidade se tornasse federal, a luta pela divisão do estado, e as grandes discussões políticas que envolviam a todos com debates acalorados.

O Bar do Zé era a maior imobiliária a céu aberto do Brasil. Ali se discutiam e fechavam grandes vendas de imóveis urbanos e também de fazendas. Tinha ainda um ativo mercado de venda de gado. Estas atividades constantes movimentavam constantemente o bar. O Zé, inclusive, com muito senso de oportunidade, soube participar de alguns negócios transacionados em seu bar.

O bar foi cenário de muitos acontecimentos, e o Zé, naturalmente, protagonizou alguns deles. O dr. Jorge Antônio Siufi – meu professor de direito penal, grande e festejado cronista de Campo Grande –, brindou-nos com o seguinte episódio: “Num determinado dia, apareceu uma pessoa que pediu um pastel; depois de olhar para o dito cujo, pediu para trocá-lo por um quibe. Comeu o quibe, limpou a boca e foi saindo. Zé interpelou o cidadão: ‘Ei, não vai pagar o quibe’? E ele respondeu: ‘O quibe eu troquei pelo pastel’; ‘Pois pague então o pastel’. Ao que o outro retrucou: ‘Ué, o pastel eu não comi’. E foi saindo, deixando o nosso Zé com o olhar perdido no espaço”.

O bar foi também local de grandes e memoráveis peixadas, promovidas pelo saudoso Urbano Pereira. Juvenal de Brito, polêmico como poucos, utilizava o bar para os seus acalorados discursos, contando com uma platéia animada e participativa.

Zé quando assumiu o bar, abdicou do sonho de uma graduação superior – terminou o segundo grau, com o curso técnico de contabilidade –, dedicando-se ao trabalho e conseguindo proporcionar aos seus irmãos menores o tão sonhado canudo: assim, dos seus nove irmãos, conseguiu formar sete: quatro médicos e médicas, dois engenheiros e uma cirurgiã-dentista.

O Zé constitui-se, naturalmente, numa instituição em nossa cidade e uma referência de trabalho e dedicação. Como sempre, atrás de um grande homem, há uma grande mulher, e a Amélia – que poderia ter sido a legítima musa da famosa canção – é verdadeiramente uma mulher de verdade, e foi sempre o braço direito do marido, trabalhando diuturnamente ao lado dele com muita alegria. Atualmente o bar é dirigido pelo filho deles, Márcio, chegando assim, à terceira geração.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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