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08/02/2014 09:00

Um relógio salvou a cidade

Jacinto Flecha

No meu longínquo tempo de estudante em colégio interno, raros colegas podiam conferir as horas girando o pulso esquerdo. Junto com os demais, eu regulava minha expectativa pelas badaladas metódicas do sino da matriz, acionado pelo relógio da torre a cada quarto de hora. Na vida pacata do interior, bastava o relógio da matriz para ser pontual.

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Hoje há relógios em braços, bolsos, bolsas, lojas, ônibus, metrô, telefones, computadores, painéis de carro, mas nem por isso a pontualidade cresceu. No corre-corre diário, cada minuto no mostrador lembra compromissos impossíveis de cumprir com pontualidade, pois engarrafamentos não dependem da minha autorização. Bons tempos aqueles do relógio das igrejas...

(Será que hoje ele vai incriminar os relógios atuais?)

Não, caro leitor, hoje estou muito tranquilo em casa, num silencioso feriadão, e vou apenas transcrever um conto medieval francês. Nem entra o relógio, nessa cidade que foi salva por outro marcador de tempo. Leia tudo, o conto é ótimo:

No bosque junto à vila de Dégagnazès havia um mosteiro com trinta monges vestidos de branco. Na realidade eram trinta e um, mas o trigésimo primeiro não entrava na conta. Era um mongezinho não maior que uma criança, muito corcunda e um tanto coxo, conhecido como “o inocente” devido à sua simplicidade. Era o pastor do mosteiro, e era bom, pois os animais gostavam dele. Ao raiar do dia, saía do estábulo onde dormia ao lado das ovelhas, e com elas atravessava os bosques floridos, à procura dos locais de pastagem.

O monge amava suas ovelhas, quase tanto quanto amava sua flauta de bambu. Ele mesmo a fizera, e quando a levava à boca e soprava, podia-se dizer que falava, pondo ordem em todas as atividades da vizinhança. Quando saía do mosteiro tocando alegremente, os galos compreendiam que era hora de cantar, e cantavam a plenos pulmões. Os camponeses compreendiam que era hora de levantar, e se levantavam. As flores que se fecham durante a noite começavam a se abrir. O vento que dormia nos bosques começava a sacudir as árvores, para acordar os passarinhos.

Ao meio-dia ele tocava uma música faustosa e as ovelhas se deitavam sobre as patas cruzadas, para descansar, enquanto os camponeses interrompiam o trabalho para comer o pão. Ao fim do dia, quando voltava ao mosteiro tocando uma música lenta e suave, as galinhas compreendiam que era hora de dormir. Sem a flauta do monge, Dégagnazès não saberia viver conforme a ordem e horário que agrada ao bom Deus.

Um dia a região foi devastada pelos ingleses. Os camponeses se refugiaram com todos os animais no mosteiro. Como não era fortificado, os ingleses entraram e apreenderam o gado, tapeçarias da igreja, cálices de ouro e toda a prata. Mas não ligaram para as ovelhas do mongezinho. Quando se foram, recomeçou ele a sair no horário de costume, tocando sua flauta e acordando os galos, como sempre fazia.

O prior ficou furioso. Era um homem grande e vermelho, que queria ser sempre o mais forte. Como os ingleses estavam por perto e podiam voltar, decidiu fortificar o mosteiro. Reunindo seus vinte e nove monges, mandou-os trazer pedras da montanha negra e quebrá-las, a fim de levantar rapidamente um grande muro. Mas os monges declararam que a tarefa era impossível:

— Precisaríamos de cem anos para isso. Nem o diabo faria em menos tempo.

— Então voltem para as celas, seus desocupados. Eu vou procurar o diabo.

O prior não sabia aonde ir e o que fazer para encontrar o diabo. Mas sabia que ele não se faria de rogado, e realmente lhe apareceu em uma clareira do bosque. O prior tremia um pouco, mas procurou dar a impressão de superioridade:

— Então você está por aí, seu preguiçoso. Quer dizer que me ouviu quando pronunciei seu nome!

— Fale com menos arrogância — advertiu o diabo. — Estamos sós, e é você que precisa de mim. Só o servirei se me pagar bem. O que quer que eu faça?

— Quero um muro que contorne o mosteiro, com dez metros de altura e três de espessura, com cem seteiras e um grosso portão de ferro. E precisa ser construído durante a próxima noite, entre o pôr-do-sol e o primeiro canto do galo.

— Vejamos então a minha parte no negócio. Eu construo o muro antes do canto do galo, e você me dá sua alma e a de todos os monges. Eles fizeram voto de obediência, e você pode dispor... O que é isso?!

A aurora começava a raiar, e o mongezinho saía do mosteriro tocando a flauta. O demônio comentou:

— Não gosto desse anão mal construído, está com jeito de quem quer nos espionar. Vou-me embora, e depois apareço na sua cela.

— Não se preocupe, esse anão é um tolo, mais ignorante que os próprios animais. Não sabe nada, não compreende nada. Podemos concluir tranquilamente o nosso negócio.

O diabo redigiu o contrato, leu-o em voz alta e o fez assinar pelo prior, em seguida desapareceu. Mas o mongezinho compreendia as coisas melhor do que imaginava o prior. Entendeu tudo e ficou triste o resto do dia. Até se esqueceu de tocar a flauta ao meio-dia e à tarde, desorganizando as atividades da vizinhança.

Quando o sol se pôs, ele viu chegar um batalhão de diabos. Havia milhares, de todas as cores. Uns puxavam carroças carregadas de pedras, outros cavavam as fundações, outros assentavam as pedras. Todos permaneciam em silêncio, não se ouvia nada, mas o muro ia se erguendo. O mestre dos diabos ia de um lado para outro, espetando com um tridente os que não trabalhavam rápido. À meia-noite o muro estava quase concluído. Chegou uma porta pesadíssima, os diabos se juntaram e a assentaram nos gonzos.

O mongezinho compreendeu que tudo estava perdido. Olhou para a flauta e chorou, pensando que no inferno ela lhe seria inútil. Mas tanto olhou para a flauta, que afinal teve uma ideia. Acordou suas ovelhas e cordeiros, que o acompanharam enquanto saía de mansinho, com a flauta na mão.

Quando os diabos estavam assentando a última camada de pedras no alto do muro, ele começou a tocar a flauta, com toda sua força e toda sua fé. As notas da flauta se espalharam pelos campos e chegaram até os galos, que acordaram sobressaltados e puseram-se a cantar com todas as suas forças.

O canto dos galos chegou às muralhas ainda inacabadas, e o diabo compreendeu que havia perdido. Fugiu com todos os seus operários, urrando, enquanto o monge continuava a tocar alegremente sua flauta para agradecer ao bom Deus.


(*) Jacinto Flecha é médico e colaborador da Abim

(www.jacintoflecha.blog.br)

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