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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

02/09/2013 08:00

"Ilha de prosperidade", aldeia guarani produz tudo sem depender da Funai

Reserva em Paranhos colhe um milhão de quilos de mandioca, cria porcos e tem frota própria, de caminhão e ônibus

Edivaldo Bitencourt, enviado especial a Paranhos
Rebanho de 180 porcos é mantido pela comunidade e  carne é dividida entre as 120 famílias (Foto: João Garrigó)Rebanho de 180 porcos é mantido pela comunidade e carne é dividida entre as 120 famílias (Foto: João Garrigó)

Em meio a violência, miséria e falta de terras, uma aldeia da etnia Guarani Kaiowá surpreende ao se tornar auto sustentável e viver com boa qualidade de vida. Em Paranhos, a 440 quilômetros da Capital, a Aldeia Sete Cerros, com 556 habitantes, consegue garantir renda, alimentos e até comprar equipamentos sem depender do poder público.

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A saga até parece inacreditável entre os 43 mil índios guaranis, de um população indígena total de 61.737 em Mato Grosso do Sul, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2012. A etnia é marcada por sofrer com a falta de terra, a miséria, a violência, drogas, alcoolismo e suicídios. 

Na reserva de 8,5 mil hectares, cada uma das 120 famílias obtém uma cesta básica por mês, contam com ônibus próprio de 46 lugares para ir à cidade, que fica a 48 quilômetros, três vezes por semana e dois tratores.

A renda mensal está garantida com o arrendamento de 3 mil hectares para pecuaristas da região, que deixam 1,6 mil bovinos nas pastagens da reserva. Os índios ganham em torno de R$ 11,2 mil por mês pelo arrendamento. A prática, que é condenada pelo Ministério Público Federal em outras regiões do Estado, garante a independência financeira aos moradores do local.

Índios no meio da plantação de mandioca, que deve dobrar área cultivada neste ano (Foto: João Garrigó)Índios no meio da plantação de mandioca, que deve dobrar área cultivada neste ano (Foto: João Garrigó)

Graças ao arrendamento, eles não precisam ficar dependendo do poder público para comprar óleo diesel para cultivar 40 alqueires de lavoura. Neste ano, segundo o capitão Pedro Valiente, 39 anos, foram colhidas aproximadamente um milhão de quilos de mandioca. O faturamento da produção chegou a R$ 170 mil.

Só um grupo de sete mulheres ganhou R$ 20 mil com o plantio da mandioca, já que a lavoura é cultivada por grupos. Todos trabalham na aldeia, que não registra suicídio, casos de desnutrição nem violência, um fato raro entre as comunidade da etnia Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul.

Com apenas a segunda série do ensino fundamental, o capitão comanda a revolução na aldeia. Ele faz planos ousados. A primeira meta é dobrar a área plantada, de 40 para 80 alqueire. Tudo preparado com recursos próprios. Os 20 mil litros de diesel enviados anualmente pela Funai (Fundação Nacional do Índio) não são suficientes para atender uma das cinco aldeias do município, reconhece o prefeito Júlio César de Souza (PDT).

O cultivo e o arrendamento permitem a Aldeia Sete Cerros investir em logística, digamos assim. Além do ônibus, os índios compraram um Ford 4000, ano 2004, e estão trocando uma caminhonete Ranger por uma Fiat Strada.

Ônibus adquirido com recursos próprios leva moradores até a cidade (Foto: João Garrigó)Ônibus adquirido com recursos próprios leva moradores até a cidade (Foto: João Garrigó)
Um dos dois tratores: índios não dependem da Funai para obter óleo diesel (Foto: João Garrigó)Um dos dois tratores: índios não dependem da Funai para obter óleo diesel (Foto: João Garrigó)

Eles não ficam dependendo de favores do poder público para iniciar o plantio. Compram a própria semente de milho e a rama da mandioca. E completam o óleo diesel dos dois tratores estacionados na “sede” da reserva.

A fartura é grande. Além de cada família criar galinhas, a comunidade tem um rebanho de carneiros, 96 vacas leiteiras e porcos. Geralmente, Valiente mata de cinco a seis leitões e divide a carne entre os índios.

Os 180 porcos ficam soltos durante o dia e são recolhidos à noite em um chiqueiro, que fica em um canto da reserva. Um dos dois cuidadores dos porcos é o aposentado Lucildo da Silva, 65 anos. Ele contou que dá ração aos animais dois vezes por dia. “A vida é boa”, conta ele, aos risos.

Não é o único que aparenta estar feliz. Juvenil Vera Martins, 36 anos - pai de quatro filhos de 1, 6, 10 e 13 anos – cultiva a mandioca e o milho. Ele vende a produção que garante o sustento da família. Todos os filhos estudam na escola da aldeia. Um já concluiu o 5º ano do ensino fundamental e vai utilizar o transporte escolar para chegar na escola urbana.

Velasques criou oito filhos e vive bem na reserva indígena (Foto: João Garrigó)Velasques criou oito filhos e vive bem na reserva indígena (Foto: João Garrigó)

Alison Valiente, 19 anos, dá aula de educação física na escola indígena. Ele está cursando o último ano do ensino fundamental, mas já sonha com a faculdade de Educação Física. O jovem conta com uma motocicleta para participar dos campeonatos de futebol amador em Paranhos e na cidade paraguaia de Ype-Jhú.

Até quem não costuma sair da reserva reclama. O aposentado Francisco Velasques, 67 anos, tem oito filhos. Sete já estão casados. Ele diz que não tem do que reclamar. Enquanto outras aldeais se queixam da falta de médico, um profissional realiza atendimento duas vezes por semana no posto de saúde local. Também não falta remédios, garante o capitão.

Pedro Valiente tem sonhos ambiciosos para a família, formada por cinco filhos e a esposa, Elza, 32 anos. A maior aposta está no filho Cleber Valiente, 15 anos, que é o Vinícius da dupla sertaneja Pedro Paulo e Vinicius. Eles já gravaram o primeiro DVD e promovem shows pela região. A dupla será uma das atrações da Expobai (Exposição Agropecuária de Amambai), um dos principais eventos do agronegócio da região sul do Estado.

A boa convivência dos índios com os grandes produtores da região é outro destaque na Sete Cerros. Para o capitão, o conflito não é bom para ninguém.

Capitão dirige F-4000 que tem ar condicionado e até quente para proteger do frio (Foto: João Garrigó)Capitão dirige F-4000 que tem ar condicionado e até quente para proteger do frio (Foto: João Garrigó)

E a aldeia Sete Cerros tem bons números para mostrar. O último suicídio ocorreu há mais de cinco anos, conforme as lembranças do capitão. Para o prefeito de Paranhos, a reserva é um exemplo para os índios da região e de todo o País.

“Eles têm qualidade de vida”, analisa o pedetista, que quer espalhar o exemplo para todo o município. Com esse objetivo, o prefeito articulou a retomada da farinheira, uma fábrica de farinha de mandioca que estava fechada há vários anos.

A proposta é reabrir a fecularia em 90 dias com capacidade para 110 mil toneladas de mandioca por ano. O faturamento pode chegar a R$ 18,7 milhões por ano.

Diante do sucesso, o plano é levar o exemplo da Sete Cerros para as outras quatro aldeias do município. Pela proposta, cada grupo de 7 a 8 famílias cultivariam de cinco a sete hectares de mandioca. “Se esperar pela Funai, não tem nada”, avisa Júlio César.

Capitão com a esposa e os filhos, a boa qualidade de vida na aldeia (Foto: João Garrigó)Capitão com a esposa e os filhos, a boa qualidade de vida na aldeia (Foto: João Garrigó)
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obrigado a vcs comentador por ver essa materia e comentar.. esperamos mais comentários de vcs.. porem queremos melhorar mais a nossa aldeia sem depender do poder pubrico.. e mostrar a todas as comunidade indígena. que devemos correr atras do nossos obejetivo....
 
clarina colacho em 25/10/2013 15:12:42
a partir do momento que ö sustento é garantido com arrendamento de terras"deixou de ter sentido a "ilha de prosperidade", a ideia é excelente mas tem que evoluir.
 
Miriam Correa em 03/09/2013 10:30:58
Todas as aldeias arrenda terra, pelo menos esse sabe usar o dinheiro e não deixa sua comunidade passar fome. bom é o que eu penso.
 
Thiago Portantt em 03/09/2013 06:50:35
Eu estava doidinha para parabenizá-los.
Mas depois que li dos 8,5 mil hectares, eles arrendar 3 mil hectares pela singela quantia de R$ 11.500,00 (se verdade), aí mudei de idéia.
Indio quer terra para arrendar? É isso?
Até eu que sou bobinha vou prá frente, com tudo que teria direito!
 
Elviria Santos Ferreira em 02/09/2013 15:44:19
Arrendar área para 1.600 bovinos ao custo de R$ 11.200,00, ou seja R$ 7,00 (sete)reais por cabeça, é um "negócio da china", para quem arrenda.
 
Marcelo Venâncio em 02/09/2013 14:08:21
Arrendar terras da UNIÃO, é ilegal.
Ou seja, um contracenso os indígenas lutarem por mais terras em outras regiões, sendo que em Paranhos, pelo visto tem terra de sobra, pois arrendam.
Os demais fatos são dignos de parabéns, pois estão cultivando na terra e produzindo sua riqueza.
 
Marcelo Venâncio em 02/09/2013 13:35:04
FIQUEI MARAVILHADA DE LER ESSA MATERIA,,
INDIOS COM CAPACIDADE DE VENCER TODOS OBSTACULOS ELES SAO CAPAZES, DE SER GRANDES HOMENS SEM FAZER ESSE TIPO DE CONFUSAO POR TERRAS,
LUTAM PARA VENCER E TER DIGNIDADE, PROSPERIDADE E SER FELIZ.....
PARABENS A TODOS DA ALDEIA GUARANI,,,EM ESPECIAL AO CAPITAL UM HOMEM QUE TEM SABEDORIA PARA LEVAR ADIANTE O SEU POVO
QUE DEUS OS ABENÇO SEMPRE COLOCANDO ESSA UNIAO NO MEIO DA ALDEIA
PARABENSSSSSSS
 
ROSALINA BENITES em 02/09/2013 12:25:35
Belo exemplo para as outras aldeias.
 
sidnei da fonseca veiga em 02/09/2013 12:19:15
Que beleza!!! ainda bem que essa tribo, esta mostrando exatamente que o Índio é capaz de PRODUZIR.
Concordo, com os comentários dos demais colegas leitores.
É gostoso demaiiis, ver o sorriso estampado no rosto dessa galera. A TERRA SÓ NÃO DÀ, O QUE NÃO SE PLANTA.
Funai e governo federal, só serve para atrasar a vida do índio, do sem terra e demais pessoas dependentes desse povo.
 
Neyde de Oliveira em 02/09/2013 11:42:15
Nosso povo precisa apenas de respeito. CIMI, MINISTÉIO PÚBLICO, ONGS, FUNAI.... olhem o exemplo e caiam fora.
 
Reinaldo Ferreira dos Santos em 02/09/2013 11:36:23
Quem disse que índio precisa de Funai para viver? O que a população indígena precisa é de tratamento digno e igualitário. Somos todos iguais e capazes! Dar ao indígena a condição de auto sustentar-se é o jeito mais humano e correto de inclusão. Parabéns às lideranças que realmente se preocupam em melhorar a vida nas comunidades indígenas...Também queria saber o que o CIMI tem a dizer sobre isso.
 
Magda Correa em 02/09/2013 11:29:55
...que beleza sorriso estampado no rosto desta "pessoas", a dignidade faz qualquer um sorrir eles são capazes, de produzir para sua sobrevivência, com dignidade. Eles são seres humanos e não animais irracionais...parabéns a esta Tribo
 
Ester Menacho em 02/09/2013 10:29:26
Atenção!! Gestores municipais, façam um curso de administração com o cacique desta aldeia.
 
Amarildo Aquino em 02/09/2013 10:14:39
Parabéns! Índio é trabalhador! Não pode viver de cesta básica ou doações! Se planta, a terra dá de tudo! Funai pra quê?!
 
josé airton recalde em 02/09/2013 10:13:12
Parabéns! Pena que é exceção.
 
RODRIGO FERREIRA em 02/09/2013 10:12:15
Gostaria de ver o CIMI comentado essa matéria!!!!
 
Marcos Santos em 02/09/2013 10:07:00
Como é bonito de se ver pessoas, felizes e com muita dignidade.
 
Ademilde Silva em 02/09/2013 09:38:58
Esses índios estão de parabéns!!! podia levar esse "case de sucesso" para o nordeste, quem sabe mudaria a vida daquele povo sofrido e sobraria mais dinheiro para investimentos na própria região.
 
Marcio Barbosa em 02/09/2013 09:32:58
Até que enfim se vê uma notícia excelente relativa a comunidade indígena de nosso Estado pois o normal é se divulgar as mazelas das comunidades e os conflitos. Não concordo com as invasões e os milhares de hectares reivindicados, pois os índios não vivem mais do extrativismo, caça e pesca, etc., e aí está o exemplo de que podem e tem capacidade de tocarem suas vidas sem a ineficiência da FUNAI, o excesso de "proteção" deixa muitas comunidades dependentes do apoio oficial. Parabéns aos dirigentes dessa aldeia e continuem assim. Sucesso e prosperidade à comunidade; e que esse exemplo possa ser seguido por outras comunidades.
 
Erudilho Nabuco em 02/09/2013 09:19:53
Taí um exemplo de trabalho que deve ser seguido, e não ficar esperando que o poder público somente resolva.
 
rhode de figueiredo rocha em 02/09/2013 09:19:49
vocês estão de parabéns sabem administrar o que tem não fica esperando o poder público e verbas federais, estão produzindo, vocês tem que levar a sabedoria e o conhecimento para outras aldeias e etnias mostrar como sabe valorizar , com muito esforço e trabalho, todos prosperam
 
jose carlos em 02/09/2013 09:10:36
Que belo exemplo a ser seguidos por todas as etinias.
Avante!!
 
Carlos Eduardo Goulart em 02/09/2013 09:09:41
Os índios vivem bem porque o Governo ainda não descobriu um jeito de "sugar" o lucro dessa aldeia. Daqui uns dias, deve aparecer um fiscal do governo, questionando sobre impostos da produção, questionando os métodos de produção (desmatamento, queimadas, etc.), será que os motoristas do ônibus e do trator tem habilitação? usam equipamentos que o Governo sugador exige?
O que quero dizer é o seguinte, se o Governo não interferir o povo se desenvolve, o grande problema do Brasil é o Governo, parabéns aos indígenas.
 
Edson Peralta em 02/09/2013 09:01:13
Parabéns!!! Como diz na reportagem o que parece inacreditável tb pode acontecer. Mas eu parabenizo essa aldeia "conjunto" pq não esperaram o poder público, não aguardam migalhas para sobreviveram, gerando compra de votos, massa de manobras, invasões e outros. Se esperassem pelo poder público não teriam nem uma carroça usada. Parabéns mesmo aos Guaranis, que os outros lideres indígenas sigam o exemplo digno. Que Deus abençoe a todos.
 
Glauber Klein em 02/09/2013 09:01:01
Essa é a prova cabal de que a FUNAI, Ministério Público, Judiciário e Ongs só atrapalham a vida dos índios...ousaram se libertar e, honestamente, sem ferir direitos de quem quer que seja, estão indo muito bem....
 
JÂNIO FAGUNDES BORGES em 02/09/2013 09:00:17
A liberdade as vezes é uma questão de opção. Essa aldeia fez a opção correta. Vemos que as coisas acontecem naturalmente. Uma boa dose de autonomia, gestão inteligente, empreendedorismo participativo e os índios vivendo praticamente por suas próprias iniciativas uma vida digna. Daqui a pouco vai alguém lá e resolve que o contrato de arrendamento com os fazendeiros é inconstitucional porque as terras indígenas pertencem a União.
 
Aldo Silva Rocha em 02/09/2013 08:56:37
Parabéns capitao, o Sr é um exemplo a ser seguido.
 
ALESSANDRO BOGADO em 02/09/2013 08:30:14
Que bacana, desenvolvimento sustentável!.....Ah se todas as aldeias tivessem líderes como este......
 
Dilza Paes em 02/09/2013 08:20:41
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