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23/05/2014 08:35

As pequenas “locomotivas” do progresso brasileiro – as mulas

Mário Sérgio Lorenzetto
As pequenas “locomotivas” do progresso brasileiro – as mulas

Menos charmosas que os cavalos, mas impulsionaram o desenvolvimento nacional

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Sem o charme dos cavalos e sem os estudos das boiadas, as mulas foram por, pelo menos, um século e meio as grandes responsáveis pelo desenvolvimento da economia nacional.

O que negociavam os homens que, aos de gritos de “Boa estrada!”, se cruzavam pelos campos e sertões? Tropeiros, ou quem vivia de tropear, compravam e vendiam, sobretudo muares. A mula é um híbrido, resultado do acasalamento do jumento com a égua. Tal acasalamento não é fácil. Um viajante estrangeiro, em 1858, assim o descreveu: “As éguas têm que ser quase enterradas para suportarem o estranho garanhão”.

A grande característica do animal nascido desse cruzamento é a enorme capacidade de carregar pesos. Os machos eram castrados aos 2 anos, a fim de serem vendidos como animais de carga. Não eram chamados de mulos, e sim de machos. Estáveis nas trilhas pedregosas, resistentes às variações climáticas, sem medo de viagens em terrenos alagados, com poucas exigências às pastagens, eram animais de cascos fortes, bom porte e pernas vigorosas. Em tarefas contínuas, suplantavam, de longe, os cavalos.

Vivam nos extremos da simplicidade – um pouco de sal ou substituía-se o sal pela queima de pastos. Logo que a terra resfriava, as mulas iam lamber as cinzas. Nelas se concentravam substâncias alcalinas. As cinzas também serviam de purgativo e para combater doenças pútridas dos muares e bovinos.

Eficientes e lucrativas, as mulas adaptaram-se tão bem às necessidades de trabalho que, em pouco tempo, do início dos anos 1700 até meados de 1800, viraram febre.

As pequenas “locomotivas” do progresso brasileiro – as mulas

Os criadores de cavalo esbravejavam

Alarmado como prejuízo fiscal e comercial – as mulas não eram importadas de Portugal – o rei resolveu acabar não só com a tradição do uso, mas até com a existência desses animais. Ordenou a extinção de todas as mulas. É óbvio que a obediência a tal ordem significaria o colapso da economia. A reação dos brasileiros foi brutal e, passados três anos sem respeitar a ordem real, o mandatário expediu nova carta régia desdizendo a primeira.

Ao longo da estrada, pousos: pequenos núcleos de civilização e comércio. Aos domingos, um vigário rezava missa. Nos ranchos, nas longas varandas, cujo costume permanece até os dias atuais, os tropeiros descarregavam, faziam fogueira e preparavam-se para comer. Café fumegante só nos anos finais do ano 1700. A cachaça era usada em confraternizações ou como remédio. Descarregados de seus fardos, as mulas eram raspadas com facão para tirar o pó e o suor.

Nas diminutas vendas encontrava-se um pouco de tudo para enfrentar a estrada – cachaça, doces, velas, livros de missa, toucinho, açúcar, sal, espingardas e munições.

À noite, acendia-se o fogo, preparava-se a bebida, gemia a viola. Examinavam arreios e apetrechos. Seus lucros se perdiam em apostas nas patas dos cavalos, pois não faltavam corridas. Iam de visita onde se encontravam as “perdidas” nas “casas de alcouce” – ou seja, de prostituição. Nelas, sexo, jogo e bebidas.

A predominância desses comerciantes estendeu-se até a chegada do trem.

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O tempo é dinheiro, mas o tempo também é lazer

Em 1748, Benjamin Franklin cunhou o seguinte pensamento ao se dirigir a jovens homens de negócio: “Lembra-te que o tempo é dinheiro... Lembra-te que o dinheiro é produtivo e se multiplica... A par da sobriedade e do trabalho, nada é mais útil a um moço que pretende progredir no mundo que a pontualidade e a retidão em todos os negócios”.

Pois bem, um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Toronto (Canadá), mostrou que não é bem assim.

Os pesquisadores pediram a voluntários que calculassem quanto ganhavam por hora. Alguns realizaram a tarefa e outros não. Em seguida, os jovens foram liberados para um tempo de lazer – ouvir música, navegar na internet ou o que bem desejassem fazer.

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E, de repente, a surpresa...

Procederam a entrevistas após esse tempo, um a um dos jovens foram inquiridos. Observaram que os que calcularam quanto ganhavam por hora ficaram mais impacientes e insatisfeitos no tempo de lazer e os que não calcularam seus ganhos estavam foram mais alegres e felizes, aproveitando bem os momentos que lhes foram dados para fazer o que bem entendessem.

Segundo o estudo, a máxima “tempo é dinheiro”, eternizada por Benjamin Franklin, serve para incentivar a produtividade, mas boicota as horas de lazer. Aconselham a se esquecer desse pensamento quando estivermos de folga.

A outra parte dos dizeres de Franklin – “...nada é mais útil a um moço que pretende progredir no mundo que a pontualidade...” não é aplicável no Brasil. Em nosso país até os protestos contra a Copa do Mundo estão atrasados.

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Forças da divergência e o exercício do desconhecimento

Existem marxistas que vivem no século XIX, outros preferem usar as ferramentas fornecidas pelas teorias de Marx e observar o século XXI. A sofrível interpretação histórica que percebia luta de classes em todos os momentos da história ou a defesa da “revolução” e da ditadura do proletariado são conceitos difíceis de serem defendidos, apesar de que, aqui e ali um ou outro incauto, como um renomado Secretário que posta desconhecimentos em um site de notícias, procure provar “cientificamente” a dialética – coisas para causar vergonha em quem leu duas linhas de Aristóteles ou, ocasionalmente, do próprio Marx.

Longe de todo este arcaísmo estão os estudos realizados por Thomas Piketty em seu novo livro “O Capital no Século XXI”. Piketty, professor de economia em Paris passou duas décadas estudando a desigualdade.

Filho de parisienses que participaram das revoltas de 1968, ele estudou por alguns anos nos EUA mas retornou para Paris por questões culturais, os primeiros ídolos de sua formação acadêmica eram historiadores franceses e filósofos de esquerda, Lucien Febvre, Braudel, e outros membros do Annales que procuraram estudar o cotidiano. Ele estabeleceu como sua principal tarefa estudar os picos e quedas da renda e da riqueza, um tema vastamente negligenciado por economistas. Primeiro ele concentrou seus esforços na coleta de dados antes de realizar a interpretação dos mesmos. Estudou como a desigualdade de renda evoluiu na França durante o século XX.

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Distribuição, aumento e queda de renda, verdades instigantes

Na sequência, analisou os dados dos Estados Unidos entre 1913 e 1998. Detalhou como a distribuição da renda ocorreu entre famílias no topo da economia continuou a crescer nas primeiras décadas do século XX e, depois, decaíram durante e após a Segunda Guerra Mundial. Contudo, elas voltaram a crescer durante as décadas de 1980 e 1990. Piketty expandiu seu trabalho para outros países como a Inglaterra, China, Índia e Japão. Estabeleceu junto com outros pesquisadores um banco de dados mundial da renda que cobre cerca de 30 países. Piketty atualizou seus dados para mostrar que, a parcela da renda das famílias mais ricas continuou a subir durante e depois da crise de 2008 e como, em 2012 as famílias que formavam o 1% no topo da renda ficavam com 22,5% da renda total do país, o número mais elevado desde 1928! Os estudos de Piketty influenciaram debates em diversos lugares, desde o movimento Occupy Wall Street até o FMI e a Casa Branca, Obama afirmou que o combate à desigualdade e à estagnação salarial eram os maiores desafios dos EUA.

A questão é qual a razão de aqueles que estão no topo continuarem naquela posição. Pikkety desafiou as explicações convencionais dos economistas que não prestavam atenção para a acumulação de capital, o processo de poupar, investir e construir riqueza que Ricardo, Marx e Mill enfatizaram. Assim, Piketty define capital como qualquer investimento que produz um retorno monetário, abrangendo capital físico (imóveis e indústrias), intangível (marcas e patentes) e ativos financeiros (ações e títulos).

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Desigualdade e política, a compreensão de um é indissociável ao outro

Na economia moderna o termo “capital” já foi afastado do seu fogo ideológico original e é tratado como qualquer outro “fator de produção” que, como o trabalho ou a terra, tem uma taxa de retorno competitiva baseado em sua produtividade. Para Piketty, o crescimento da desigualdade não pode ser compreendido sem o fator político. Apesar do título de seu novo livro, ele não acredita que o capitalismo está condenado ou que a crescente desigualdade é inevitável – determinismos questionáveis presentes nos escritos de Marx. Existem circunstâncias em que a renda de todos pode aumentar e promover o crescimento firme da qualidade de vida das massas.

Isto foi observado nos EUA entre 1945 e 1973, nos anos após a Segunda Guerra Mundial. Porém, Piketty adverte que isto pode ter sido uma exceção, as “forças da divergência” podem se recuperar e é isto que parece estar acontecendo no início do século XXI. Na década de 1950, o chefe executivo de uma empresa nos EUA recebia 20 vezes a mais do que o empregado mediano. Atualmente, a diferença entre o CEO e o empregado médio é de 200 vezes, isto pode ser visto na diferença entre o empregado médio da Apple e seus administradores ou no caso do Walmart. As 85 pessoas mais ricas do mundo têm mais dinheiro do que 3,5 bilhões de pessoas que formam a metade da população mais pobre do mundo. Eventualmente, avisa Piketty, uma sociedade como a Europa do século XIX poderia reemergir.

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