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30/05/2016 08:14

O "dedazo" de Lula e de tantos outros

Mário Sérgio Lorenzetto
O dedazo de Lula e de tantos outros

O termo "dedazo" vem da política mexicana. Tem a ver com a escolha de um candidato a presidente daquele país que concorreria pelo Partido Revolucionário Institucional - PRI, que dominou por decênios a administração mexicana. O "dedazo" ocorre quando um presidente, governador ou prefeito indica o candidato que o sucederá. É autoridade que indica (ou forma que era aceitável de autoritarismo). Via de regra, o mandatário (ou mandão) conversa e consulta alguns de seus correligionários antes de indicar o candidato. Este procedimento de escolha foi adotado por Lula quando apresentou Dilma, em 2009, aos membros do PT.

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Há muitos petistas que hoje consideram que o grande erro de Lula foi ter indicado Dilma. Segundo esta visão, qualquer deputado federal do PT ou senador teria governado melhor do que Dilma. Ainda nessa linha de raciocínio, considera-se que Dilma não teve a socialização política necessária para ocupar o cargo mais elevado de nosso edifício político. Ela nunca havia participado de campanha eleitoral. Nunca havia levantado recursos de campanha, feito discursos para obter votos, fechado acordos com líderes partidários ou de outros segmentos da sociedade.

Dilma nunca havia pisado em um parlamento como representante do povo. Todo e qualquer parlamentar deseja apresentar, e aprovar, projetos de lei de sua autoria. O que ele descobre na primeira tentativa é que terá de negociar o seu projeto. É quase impossível que ele seja aprovado sem modificações. Entra em cena a barganha. Essas mudanças no projeto serão feitas para que seus pares no parlamento o apoiem nas comissões legislativas e no plenário. Por outro lado, o autor do dito projeto encontrará a hora de ceder em um projeto de lei de outro parlamentar. Esse é o aprendizado político pelo qual Dilma não passou antes de se tornar presidente. Ela poderia ter sido escolhida em um processo amplo, aberto e democrático de primárias, não necessariamente igual ao norte-americano, os petistas já haviam sacramentado esse método de escolhas antes dela, mas certamente muito diferente do dedazo de Lula.

É possível imaginar que a Dilma escolhida democraticamente seria muito diferente da que conhecemos. Nunca saberemos. Mas o processo de escolha, em geral, tem impacto sobre seu resultado. Processos diferentes acabam por apresentar resultados diferentes. Ela não seria tão autoritária quanto foi. Lula não foi o primeiro e nem será o último a cair na tentação do dedazo. Muitos assim agiram e continuam a escolher candidatos. Pela própria vontade, sentindo-se como um deus personificado. Podemos multiplicar os exemplos e narrar seus desfechos. É provável que a maioria dos casos nos conte uma história ruim. O escolhido pelo dedazo não passam pelo teste de liderança. Vencer uma eleição aberta dentro de um partido é vencer um teste de liderança. O dedazo é irmão siamês da falta de vida partidária que, via de regra, os governantes submetem seus partidos.

O dedazo de Lula e de tantos outros

A profunda transformação do mercado internacional de petróleo.

Para além da Lava Jato, a crise da Petrobras é especialmente decorrente da transformação internacional do mercado de petróleo. Até dez anos atrás, a curva da oferta no mercado de petróleo começava com um segmento horizontal correspondente à produção dos países da OPEP, cujo custo por barril é baixo e relativamente constante. A produção de petróleo fora do Oriente Médio (OPEP) tornou-se cada vez mais cara. A brasileira é caríssima pela profundidade das águas que tem de atingir.

O jogo do preço do barril de petróleo sempre seguia uma lógica. A OPEP diminua o bombeamento de petróleo e encarecia o preço a seu bel prazer e, claro, com a concordância dos demais produtores. A outra variável estava na sede chinesa pelo petróleo -maior a sede, maior o preço.

Esse mundo já não existe. A grande mudança se deu com a inovação na extração do petróleo de xisto. Ela criou a capacidade de produção de petróleo a um custo relativamente constante. A capacidade brasileira em águas profundas é muito variável, bem como seus custos. Com o petróleo do xisto, a OPEP não consegue mais comandar alguma escalada no preço do petróleo. Seus lucros nunca mais serão os mesmos. A verdade para a OPEP é a mesma para o Brasil. Quem dita o preço do barril do petróleo é o produzido a partir do xisto norte-americano. Os Estados Unidos retiraram da OPEP, e do Brasil, a capacidade de comando do mercado global petróleo. A Petrobras perdeu seu valor e não há perspectiva alguma que o readquira. Com Lava Jato ou sem Lava Jato. Com o "petróleo é nosso" - nas mãos do governo - ou sem propriedade estatal.

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Choque de capitalismo e o Brasil entre parênteses.

Parece que o Brasil (e Campo Grande) perdeu a capacidade de gestar bons candidatos, de qualquer matiz. Houve época que era difícil escolher entre um Ulisses, Covas, Brizola, Lula e, depois, FHC e Serra. Hoje, estamos relegados a Marina, Aécio, Bolsonaro, Caiado, Ciro e assemelhados - em uma palavra: liliputianos. Vejamos o caso do nascimento dos tucanos.

Um ano após a fundação do PSDB, nas eleições presidenciais, o senador Mário Covas foi candidato com um programa em que se destacava o propósito de promover um "choque de capitalismo" para o Brasil sair da modorrenta, persistente e grave crise da economia - a década perdida. Foi o início de uma caminhada que, apenas cinco anos depois, produziu a eleição de FHC e a estabilização da economia brasileira.

Passaram-se 30 anos, a plataforma de Mário Covas trazia: "Hoje o Brasil vive entre parênteses. A economia permanece estagnada, os salários achatados, a questão da dívida externa sem solução, a inflação no limiar do descontrole. O desgoverno exacerba pressões corporativistas, comprometendo ainda mais a eficiência e as finanças do setor público e fazendo o peso maior da crise recair precisamente sobre as camadas mais indefesas da população". Trinta anos se passaram. Voltamos ao ponto inicial. Qual candidato tem tamanho e discernimento para borrar para sempre esse texto?

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Os campeões dos juros proibitivos.

Empréstimos com juros superiores a 36% ao ano são considerados extorsivos e proibitivos nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a cobrança é o oposto - os juros são estratosféricos, especialmente para a maioria da população que não tem como entrar pela porta de um banco. O ranking do abuso, das empresas que cobram maiores juros, tem em primeiro lugar a Crefisa (aquela que faz anúncio em camisa de time de futebol e até de juiz) com o absurdo de 913% ao ano. Deveria levar cartão vermelho no primeiro minuto de jogo. Em seguida, na lista dos maiores juros, vem a Agiplan Financeira, com 791% e a Facta, com 580%. Liberdade, liberdade, abre as asas... e leva o dinheiro.




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