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08/02/2016 07:26

O outro socialismo

Mário Sérgio Lorenzetto
O outro socialismo

Um Estado assistencialista capaz de fornecer todos os meios de vida para os cidadãos. A sujeição do indivíduo ao interesse coletivo. Supressão de rendas não oriundas do trabalho direto. Proibição dos juros. Nacionalização de grandes empresas. Divisão do lucro das pequenas empresas. Aumento das pensões. Entrega de grandes lojas à administração comunal. Controle da produção, preços e salários. Desapropriação de terras para reforma agrária sem indenização. Proibição da especulação fundiária. Controle da imprensa. Um sistema político-econômico baseado na propriedade estatal dos meios de produção. Essa é uma plataforma comunista? A resposta pode parecer estranha, mas essa não é uma diretriz dos comunistas. Muito pelo contrário.

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Em 1919, um serralheiro de nome Anton Drexler e o jornalista Karl Harrer fundaram o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Em outubro do mesmo ano, um jovem defendeu com vigor o pangermanismo em uma das reuniões desse pequeno partido. O jovem retornou para sua casa e recebeu um cartão postal dizendo que seria aceito para militar no partido. Sua ficha de filiação era a de número sete. Em fevereiro do ano seguinte, o jovem anunciou seus intentos, chamados de Programa Vinte e Cinco, onde marcou o pedido de revogação do Tratado de Versalhes (assinado ao término da Primeira Guerra Mundial). Esse jovem era Adolf Hitler e as diretrizes acima enunciadas foram escritas por ele.

Essa é uma das falácias mais duradouras da história mundial. Hitler não era um ardoroso defensor do capitalismo, pelo contrário, era um socialista, de carteirinha e ideologia. A virada só ocorreria após a tentativa de golpe fracassada que recebeu o nome de Golpe de Estado ou Putsch da Cervejaria. A história da ligação dos nazistas com as cervejarias é concreta. Foi em uma cervejaria que Hitler assinou a entrada nesse partido, e é também nesse ambiente que ele e seus companheiros articularam a tomada de poder. Beberrões de chopp sonhando em chegar ao poder. Parece muito simpático, mas as barbáries praticadas por esses socialistas destruíram o mundo. Esse é outro socialismo.

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O que é que a Alemanha tem?

Que ninguém tem! Fim da música. Início da busca do entendimento das profundas diferenças entre o modelo de sociedade que copiamos dos Estados Unidos, e a que os alemães montaram no pós-guerra. Sem dúvida é possível afirmar que a Alemanha é a economia mais sólida do mundo. É um dos três maiores exportadores globais e tem o crescimento per capita mais alto do mundo. Enfim, qual o segredo da alemã que não usa cocar de bananas na cabeça?

É um sistema cooperativo e, também, baseado na busca incessante do consenso e na produção de alta tecnologia. A fórmula "mágica" alemã é: cooperação + consenso + tecnologia. E isso está entranhado na musculatura social. Está presente em todos os cantos possíveis e imagináveis. Sindicatos e patrões coordenam salário e produtividade com o objetivo de obter aumentos reais dos rendimentos de todos, além de manter os postos de trabalho.

Não é o governo que manda, dita leis, fiscaliza... é um processo natural aceito pacificamente por todos. A integração dos empregados com os patrões é tamanha que os sindicatos têm representantes nos conselhos de administração das empresas. Participam das decisões.

O sistema financeiro também guarda boas diferenças do nosso. A base deles são as centenas de bancos regionais públicos. A experiência brasileira viu a liquidação de seus bancos regionais, a da Alemanha viu o florescimento deles. Eles se encarregam de fazer os créditos alcançarem todos, não importa o tamanho da empresa, terá uma linha subsidiada de crédito a seu dispor. Especialmente para projetos que envolvam alta tecnologia e perspectivas de exportação.

É uma filosofia bastante distinta da nossa que dificulta ao máximo a compra de dinheiro por pequenas empresas. Mas há outra diferença: um banco regional não pode trabalhar com clientes de outra região. Os governos têm representantes nesses bancos, especialmente para checar se o dinheiro está saindo para garantir a manutenção do emprego. Assim, a economia alemã está montada com 95% de empresas de pequeno e médio porte. Pouco interessa se a rentabilidade para os acionistas é alta ou altíssima como em nosso modelo. E vale repetir: as pequenas e médias empresas procuram por alta tecnologia e exportam.

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Stanislav Petrov: a humanidade deve sua existência ao homem que descumpriu a ordem de disparar os mísseis nucleares.

Meia noite do dia 26 de setembro de 1983. Essa era a hora do Juízo Final para a humanidade. A hora que os mísseis nucleares dos russos deveriam ter sido disparados contra os Estados Unidos e não foram. À frente da decisão estava um homem simples e tranquilo. O sistema de alarme russo disparou. Indicava uma chuva de mísseis norte-americanos dirigindo-se à Rússia. Cabia a Petrov informar a seu superior que apertaria os botões do apocalipse.

Petrov agiu por instinto e sabedoria: concluiu que os EUA não estavam enviando uma "chuva de mísseis" porque seu sistema antimísseis ainda não estava pronto. Acreditou em uma falha do sistema de radar dos russos, algo que nunca tinha acontecido - e deu certo. Não avisou seu superior. Petrov salvou a humanidade. Ele foi julgado e repreendido. Chegou a sofrer sanções. Passados sete anos, com o advento da democracia na Rússia a história de Petrov veio a público e ele foi condecorado como herói da humanidade. Ele só se refere a essa noite fatídica usando uma frase: "A sorte é que eu estava no turno da noite".

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Compra de terras por estrangeiros retorna ao debate em Brasília.

Em agosto de 2015 o Congresso Nacional rejeitou uma emenda que permitiria que empresas estrangeiras com atuação no Brasil adquirissem terras com menos restrições legais do que as atuais. Agora, a bancada ruralista passa a apostar no "projeto Kátia". Um novo projeto de vendas de terras por estrangeiros está sendo formatado com o total apoio da ministra Kátia Abreu. A ideia defendida pela ministra é impor limites a esse mercado. As empresas estrangeiras poderiam comprar no máximo entre 100 mil a 200 mil hectares. A resistência à ideia está alocada ao PT. O maior problema aventado pelo partido governista está na possibilidade de encarecimento das terras a serem adquiridas com finalidade de reforma agrária. Em suma, Brasília se depara com o dilema de vender terras ou doar para aqueles que aguardam mais uma rodada de reforma agrária.

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Sabe a origem do fascismo? Um feixe de varas e muita intolerância.

Fim da Primeira Guerra Mundial. A Europa contabilizava 17 milhões de mortos, muita pobreza, desemprego elevadíssimo e inflação descontrolada. A crise brasileira de hoje é um paraíso quando comparada com a daquela época. Discursos ultranacionalistas que propugnavam a estabilidade social e a recuperação econômica fechados em seus países ganhavam força.

Utilizando a simbologia do "fasces", feixe de varas usado por autoridades na época do Império Romano, que procuravam "mostrar" que uma vara sozinha era fácil de quebrar, mas quando muitas varas se uniam tornavam-se impossíveis de serem quebradas, os partidários de Benito Mussolini chegaram ao poder. O Partido Nacional Fascista pretendia reviver os dias gloriosos da época do Império Romano. Perseguiam os opositores, caçaram as liberdades democráticas, fortaleceram o aparato de repressão, propagavam o anti-intelectualismo e o mais incrível: proibiram a macarronada.

As ideias fascistas deixaram uma herança nos dias de hoje. Muitos têm dificuldade de lidar com o pensamento diferente dos outros. Essa propensão continua sendo um problema e fonte de inúmeros conflitos. Cuidado. Não proíbam as macarronadas.

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