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10/11/2011 07:15

Cosmovisão das letras brasileiras em Hélio Serejo

Grandezas da Literatura

O poeta escritor proseador, pesquisador cientista do folclore, jornalista Hélio Serejo, nascido em Nioaque, um viajante incansável do universo das palavras. Seus pontos de parada variam tanto quantas sejam as vertentes dos caminhos. Variegados ao incontável são os caminhos, e ele, andarilho do ser e do saber, acontecer e fazer acontecer, entrega ao mundo e ao tempo, o tempo todo, algo de novo a degustar. Cultor de alimentos espirituais proporciona mesas amistosas onde nos fartamos os buscadores da vida.

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No livro “Contas do Meu Rosário”, publicado em meados da década de 70, Hélio Serejo, já então emergindo de uma dezena de livros que dedicara a folclore, prosa, verso, contos e crônicas, aportou por alguns instantes no romantismo brasileiro, na primeira parte da obra. Em breves linhas sintetiza a essência do movimento de escritores que desafiou o classicismo, no início do século 19, cujos integrantes lançaram-se à aventura da individualidade lírica e intuitiva com liberdade formal.

Sendo imenso o número de contas do seu rosário, o autor relatou alguns dos expoentes preferidos, começando por Casimiro de Abreu, o “poeta da ternura”. Como acontece a todo bom estudioso, ousa explicar as personagens estudadas usando definições próprias, exercendo o poder de expressão do livre observador. Em seguida aborda Álvares de Azevedo, “um dos mais inspirados poetas românticos de nossa Pátria”. Vai encontrá-lo na boêmia da noite paulistana, sonhando e amando a vida. Identificando-lhe, entretanto, a afeição às sombras, afirma, sem titubeio, que o poeta “foi romântico e ao mesmo tempo satanista (a exemplo de Edgar Allan Poe e outros), este último, um atributo poético que o tornou ainda mais gigante”.

Por sequência do que chamou “rosário de divagações literárias”, o autor salta para Monteiro Lobato, o iniciador do movimento editorial brasileiro. Discorrendo sobre Jeca Tatu, “criação imortal do mestre”, Hélio Serejo aos poucos vai tomando o enredo das personagens folclóricas que compõem o coração brasileiro.

Agora lemos sobre a poesia xucra, do Rio Grande do Sul: “A trova é feita com versos que cheiram a coxilha; seu sabor tem a grandiosidade do sol em declínio e a quentura morna do fogo de todos os galpões crioulos”, expõe o escritor, com exemplos vários de construções das trovas entre gaúchos.

O apelo do passado vive em todas as obras de Hélio Serejo, ficando claro que o pretérito de tudo é alicerce, e perder as tradições também significa perder a vida. Reclama do descaso pelos estudos folclóricos, indicando como crime a despreocupação com as coisas da tradição e, por condenação, a pobreza intelectual “a seguirmos assim, mudos e indiferentes ao passado”.

Aí ele nos presenteia com estudos sobre a festa de São João e suas fortes características, a festa do Divino, em estágio de desaparecimento; o cururu, uma dança popular muito difundida, já não praticada como antigamente. “Os seus adeptos vão escasseando — vai cair no esquecimento como tantas outras — as danças tradicionalistas fazem parte da vivência cultural de uma nacionalidade!...”. Fala-nos da marujada, festa tradicional em Cuiabá, que sofreu evoluções, transformações e até deturpações nos estados em que ocorre. Aliás, uma das preocupações do pesquisador é com a degenerescência das tradições, provocada pela desatenção dos próprios brincantes.

Por entre causos, lembra a importância do imaginário na formação das populações. Conta os mitos e lendas de Mato Grosso: “Pé-de-garrafa”, monstro com uma só perna que atormenta os trabalhadores nas matas densas; a “Bruxa”, mulher transformada em elemento satânico — e então, curiosamente o autor ensina sobre as precauções e os rituais popularmente ensinados para evitar o aparecimento da bruxa; assim também sobre a encomendação das almas (lenda sobre o atendimento aos pedidos de espíritos sofredores); “mula-sem-cabeça” (mulher tornada em figura fantástica, punição por haver se casado com um padre); “minhocão-do-pari” (serpente que atrai e mata no rio Cuiabá acima); “cabeça-de-boi” (bicho disforme que varia de tamanho e, junto com o demônio, pratica perversidades); e por aí vai, falando da “árvore que chora”, de fenômenos absurdos, entes sobrenaturais, fantasmas (aparições de pessoas já mortas), encantamentos, assombrações como “os cavalos pretos dos guaicurus”, ocorrentes nas proximidades de Ponta Porã – animais que pertenciam a índios ao tempo em que as forças paraguaias invadiram o território mato-grossense.

Compartilhamos da visão do pesquisador, de que essas lendas deveriam ser mais bem estudadas, muitas delas graciosas e sugestivas, no intuito de compor livros de cunho edificante e estimulante do raciocínio.

Hélio Serejo (1º/6/1912-08/10/2007) ocupou a cadeira 30 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, patrono Otávio Cunha Cavalcanti. Teve 60 obras publicadas. Ele participou de 22 academias, centros culturais e sociedades. Ocupou vários cargos públicos. Colaborador de diversos jornais e revistas.

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É gratificante ver o nome de Hélio Serejo numa coluna que tem tanta abrangencia. Sou estudiosa do escritor na minha pesquisa de dissertação, já quase finalizada, e pretendo continuar a pesquisa no doutoramento para colaborar para que o nome de Serejo e suas vastas obras sejam conhecidas e reconhecidas. Um artigo como este, oxalá, desperte leitores desse notável escritor sul-mato-grossense.
 
Mara R. Pacheco em 11/11/2011 11:31:54
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