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13/12/2011 07:15

Hernâni: uma lenda histórica de São Tomé

Grandezas da Literatura

É de sempre que o homem vê entregues ao mistério, depois de muito laborar, as suas reflexões sobre a origem e a consistência das coisas. A fé, o milagre, a realidade, a verdade e a história têm pro- fundos laços entre si.

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É por isso que em tese, para bilhões de pessoas, pouco importa a notícia ou a materialidade. Verdadeiro passa a ser o em que se acredita; autêntico, aquilo que está aceito na interioridade. Deixa de sentir o sabor dos enredos da humanidade, aquele que busca apenas a racionalidade fria, a explicação formal demonstrada ou pressuposta.

Os mitos e lendas de cada povo compõem a essência da história mundial. Estudando a América, o renomado escritor Hernâni Donato, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (cadeira nº 1, patrono Nicolau Fragelli), nos trouxe a obra Sumé e Peabiru: mistérios maiores do século da descoberta, editada em 1997.

O rico documentário do fantástico real mostra objetivamente as resultantes morais, memoriais e práticas do que teriam sido as passagens de São Tomé, apóstolo de Jesus, insculpidas no seio das comunidades nativas por toda a América.

Essas passagens ocorreriam antes dos chamados descobrimentos do século 16, porém, mil anos após os eventos de vida, paixão e morte de Cristo e os 12 discípulos. O jornalista escritor, historiador e conferencista Hernâni Do- nato, detentor de dezenas de prêmios, publicou mais de 60 livros, incluindo contos, romances, biografias e historiografia, literatura infanto-juvenil, mitologia e outros.

Estudou Sociologia, fez o curso da Escola de Arte Dramática de São Paulo, lecionou Merceologia e Português. Ele participa de várias outras instituições de cultura, com destaque para o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Academia Paulista de História, Academia Paulista de Letras, Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba e Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

Esmiúça o livro Sumé (simplificação de “São Tomé”) e Peabiru (caminho grande), os registros de prodigiosos feitos do misterioso, sábio e poderoso benfeitor que marcou profundamente o mundo moral e prático dos indígenas, conforme numerosos depoimentos contidos na obra, colhidos entre variadas categorias de pessoas, das mais simples às ilustres e estudiosas.

Dessas realizações (parte 1) eleva-se “a — miraculosa — abertura — (com seu simples caminhar) — da estrada pré-cabralina, que, cortando o continente, ligava, principal- mente, São Vicente à região onde seria fundada a cidade de Assun- ção, Paraguai. No seu outro extremo, o Peabiru adentrava Cuzco — (Peru) — e desta descia às praias do oceano Pacífico”.

São Tomé teria recebido do próprio Cristo, a missão de cuidar da América e principalmente do Brasil. Fartos testemunhos de brasilíndios encerraram que Sumé, muito descrito na feição de homem branco, portentoso, cabelos e barba longos, trazendo um bordão e o sinal da cruz, havia ministrado (técnicas de agricultura) o cultivo da mandioca (o sagrado pão) e de outros alimentos (batata-doce, milho, erva-mate), remédios, costumes salutares. Mas também trouxe a incomodativa legislação.

É comum das pessoas contemplarem os sentidos físicos e desprezar os esforços de humanização e crescimento espiritual. Explica Donato com grande número de referências, que os beneficiados rechaçaram de Sumé-Tomé a cristianização. A par da caridade material, o santo pregava o viver em boa regra, o Deus único, a imortalidade da alma, a recom- pensa do bem e a punição do mal. Perseguido de mil maneiras deu por encerrada a missão, prometendo voltar (fora, depois, esperado ansiosa e desesperadamente pelas nações arrependidas).

Desapareceu para o lado do mar, deixando gravada em rochas a planta dos seus pés. São as “pegadas de São Tomé”, estruturas conhecidas de todo o mundo. As interpretações do fenômeno “Sumé e Peabiru” levam a variadíssimas versões, do simplório ao delirante. A descrença atribui o aspecto espiritual a meras manipulações de homens religiosos como os jesuítas.

E prefere, por exemplo, no que tange a Peabiru (estrada de qualidade superior às existentes na Europa, pronta e acabada cruzando imensas regiões tidas por selvagens – apenas habitadas por homens primitivos), creditar a obra tão somente à engenharia dos incas (no livro, parte 3).

Esse caminho existe. Foi proibido por motivos estratégicos (disputa entre os conquistadores portugueses e espanhóis) e seu uso cotidiano, por isso, esquecido. O autor nos remete também ao assunto de que nas crenças da idade média o Brasil foi o Paraíso Terrestre. Nada melhor para justificar um palco de milagres. Isso é arraigado na brasilidade.

No milagre brasileiro Deus é brasileiro, o Brasil é o celeiro do mundo, o país mais religioso. Acompanha-nos o sonho embalado por todos: o Éden perdido. Acariciamos os mitos, pois a queda de cada um deles arrasta consigo muitas vidas desavisadas, dependentes das imagens que criaram.

Hernâni Donato com ajuda de São Tomé pavimenta a nossa estrada espiritual.

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