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04/11/2011 07:15

O homem visceral no espelho de Argus Cirino

Grandezas da Literatura

Cada um de nós é o Homem do Espelho. O espelho é uma figura poético-filosófica maravilhosa, pois ele se transforma instantaneamente conforme aquele que se lhe antolha. Em seu livro “O Homem do Espelho”, publicado em 1983, Argus Cirino, autor que demonstra viver num mundo interior de intensa e profunda elaboração, nos coloca diante de nós mesmos e se nos apresenta, ao mesmo tempo como um vivo bisturi de questionamento ardente no quadro frágil da saúde geral humana.

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Argus Cirino, nascido Benedito Inácio Cirino (Águas das Bicas, PR, 1939 – Mundo Novo, MS, 1997), ocupou a cadeira 35 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, hoje ocupada pelo escritor Rubenio Marcelo, patrono Múcio Teixeira. Foi médico que exerceu sua profissão em Mato Grosso do Sul a partir do início da década de 1980. Escreveu também: (1) “O conflito”, 1978, romance; (2) “Elo perdido”, 1979, poemas; (3) “Relicário”, 1980, aforismos; (4) “O primeiro chamado”, 1981, contos; (5) “Este chão que eu amo!”, 1982, crônicas; (6) “As aventuras de um menino de internato” (1984); (7) “Biografia de Múcio Teixeira” (1987); e (8) “Uma razão de viver” (1987).

Dentre as estórias recheadas de história, contadas por Argus Cirino em “O Homem do Espelho”, salta de imediato o item O Homem do Espelho (mesmo nome do livro) – Ou: a Iniciação de Tanatus. Com a referência Tanatus, o autor diz do elemento Tânatos, pulsão de morte em oposição a Eros, dito por Sigmund Freud como instinto de vida. Na mitologia grega Tânatos era o deus da morte.

Descrevendo a iniciação de Tanatus, o autor deixa entrever a vastidão interna de uma alma e mostra como se pode escapar do circuito mental conhecido, formalmente explicado, para vasculhar, com relativa liberdade, o cosmo, os mundos paralelos, as diferentes dimensões vibratórias. Aborda como se fosse fácil dizer, a elaboração por uso e força da vontade individual, com manipulação da energia pensamento. Esse poder de intervenção (a elaboração) é atributo do personagem iniciado, que move a vida e a morte conforme suas opções advindas do livre-arbítrio acionado em resultante dos desdobramentos de caráter mental-psíquico.

Argus Cirino é um dos nossos tantos autores que merecem amplos estudos. É mais um dos formidáveis que temos reapresentado ao mundo cultural sul-mato-grossense – uma sociedade que guarda, em seu próprio seio, tesouros tais que, embora quase esquecidos, fazem parte da nossa simples história cotidiana. Foi passando por aqui, entre nós, vivendo e trabalhando nas nossas comunidades, que Argus Cirino, em carne e osso, disse e escreveu sobre a existência das muitas dimensões de realidade.

O escritor em nota explicativa da obra “O Homem do Espelho”, ensina-nos a lê-lo, pois, apesar da forma literária de narração em primeira pessoa, os textos são produtos exclusivos da imaginação. Daí a importância de lhe buscarmos, em primeiro, a riqueza da construção da realidade. Em meio à ficção, todavia, derrama o dia-a-dia da sociedade brasileira de sua época, com ênfase às décadas a partir de 1960. O autor usa todos os elementos reais do mundo objetivo, a exemplo das personagens virtuais e possíveis, citadas com detalhes até mínimos, certamente, muita vez com inspiração de pessoas que viveram de fato, sendo-lhe contemporâneas.

O pensamento do autor revela uma constante abismal, um desânimo e, ao mesmo tempo, uma curiosidade irônica acerca do comportamento humano. Um personagem-autor lidador com a miséria humana, dotado de especial capacidade de visualização com acuidade médica, para além das aparências do humano sofredor.

Tal profundidade de observação habita as entrelinhas das 10 estórias constantes do livro. Por exemplo, o mundo psicológico e as circunstâncias de um assassinato em “Viagem ao Inferno”; a podridão presente na sociedade, em “Decisão Trágica”, narrativa que envolve um procedimento cirúrgico e a correspondente responsabilização médica; investigações da paranormalidade, estudos do “mundo invisível” e a presença de forças ocultas como a de pretensos “magos negros”, na estória “O Manuscrito Maldito”.

A metarrealidade e o irrealismo são abrigados em seus subtítulos a exemplo de “A Torre”, “Bloqueio” e “Na Dobra do Tempo”, repletos de fenômenos misteriosos a desafiarem a racionalidade. Em meio a tudo isso a espiritualidade e a finalidade da existência humana são fundamente tocadas mediante questionamentos velados. Em outras das estórias de “O Homem do Espelho”, como em “A Estranha Saga de Pedro Paulo”, “O Dentista” e “O Cobrador” as personalidades e suas estranhas motivações são estudadas sem moralismo, mas com crítica bem humorada e, às vezes, com uma pitada de compaixão.

— Argus Cirino! Olhando para o espelho que você nos apresentou, vi que as aparências do mundo refletem a interioridade das coisas... E nem sempre. Mas falei ao seu Espelho abstrato, concordando em que há muitas inferioridades, falhas, sucessos e belezas humanas em meio ao mistério de tudo que há... Dialoguei com multidões e, ao observar melhor, notei que falava basicamente comigo mesmo.

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