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25/12/2011 08:15

O pão simples da transcendência com a sofisticada Raquel Naveira

Grandezas da Literatura

Ao dedicar seu livro “O Arado e a Estrela” ao padre João Mohana, que lhe ensinou a “arregaçar as mangas, colocar as mãos no arado, à luz da estrela-ideal”, Raquel Naveira começa decifrando a cosmologia em seus aparentes antípodas: terra e céu, cimo e chão; revelação simples como as do estonteante Jesus, donde vem embriagada daqueles vinhos sagrados.

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A divindade que a tudo entremeia é entranhada nos pios, nos arrulhos, nos caminhares do vento, nos cantares das almas generosas, na nossa voz quando oferecemos amor. A obra foi lançada em 1996, pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), na configuração de ensaios. A poetisa escritora ensaísta é natural de Campo Grande; membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras ocupa a cadeira oito – em que substituiu Germano Barros de Sousa – cujo patrono é Itúrbides Almeida Serra.

Apresenta respeitável militância cultural; bacharel em Direito e em Letras, professora em literatura brasileira, teoria literária e literatura latina; dos seus livros despontam “Fiandeira” e “Abadia”, trabalhos premiados como muitos outros de sua lavra. Prosseguem o arado e a estrela em quatro partes, quatro temas, poemas – e prosa formatada em poesia contemporânea ao influxo de ricas citações de consagrados autores. Nos “Regionais”, vai do embevecimento diante da natureza sul-mato-grossense à homenagem ao piedoso poeta Lino Villachá.

Ela aprendeu com Hernâni Donato que o Paraíso original poderia ter sido localizado próximo a serra de Maracaju. Então escreve “O Paraíso era Aqui”, e nesse poema “Eu o sinto toda vez que subo nesta pedra, /No meio do rio Taquari” – “E a maçã? /Bem, poderia ter sido um caju ou um caqui”.

Faz um encontro etéreo com “duas afilhadas de Nossa Senhora” que marcaram a cultura sul-mato-grossense: Conceição dos Bugres – “Vela consumida até o fi m, /Recendendo guavira”. (...) “Foi esculpir bugres na noite índia, /Nos riachos puros onde fremem sapos”; e Conceição Ferreira, atriz espetacular que “Virou fantoche no teatro do mundo, /Mas aqui, /Bem na alma do Brasil, /No centro-oeste” (...), marcou época e “Faleceu em 1992, em Campo Grande, cansada e esquecida”.

Ao Lino Villachá experiente de Deus (poeta tomado por grandes sequelas da hanseníase, residente no hospital São Julião, na Capital, com quem manteve correspondência), escreve: “Tive medo de olhá-lo, /De fixá-lo para sempre dentro de mim, /Eu que o amava /Pois que amo a Poesia”. (...) “Nunca o vi... /Talvez tivesse visto o Cristo, /O brilho das alamandas douradas (...)...”.

Nos “Temas Históricos” redescobre meandros e personagens.

Tinha visto com Irmã Luris, freira salesiana, que “a história tem o fascínio das coisas dinâmicas”, então diz num poema: “A História tem vozes em coro /Derretendo pedras, /Cantando hinos, /Clamando justiça. /A História tem olhos acesos /Destilando ideias, /Semeando prantos, /Admirando estrelas”. (...) “... a História é viva, /Viva como carne viva /E estamos todos cobertos das suas feridas”. Contemplando o Egito Antigo que “mais parece uma fábula”, se permite trans- porte como no poema “Nefertiti”: “Sou flor de lótus /Perdida no rio, /Sofro solidão de múmia na cripta (...)”.

Nem “José do Egito” escapa de Naveira, que o revê como o mais famoso intérprete de sonhos, eternizando no dizer popular do mundo inteiro, os períodos de “vacas gordas e vacas magras” vislumbrados no sonho do faraó. Napoleão e outros personagens históricos também desfilam nas páginas sutilmente inquietantes de Raquel. Em seus “Temas Místicos” ensaia a língua dos anjos: “puros espíritos” – eles “estão ao nosso lado, livrando-nos dos perigos da selva escura cheia de abismos”. Ama a terminação “el”, sufixo dado aos nomes como Rafael, Miguel, Ariel, Jeriel. Milhares de integrantes da corte celestial que “exalam o perfume das fl ores brancas /Como o lírio /Ou o jasmim /E deixam um rastro de luz (...)”.

Por antítese, “Bandos de bruxas me perseguem” – diz. “Tentam afogar minha alma /Numa lama escura”. A poetisa assume, sem deixar de expressar sua permanente vigilância e busca de proteção, identificar em si mesma, tendências (combatidas) que “poderiam ter me tornado uma mulher com cara de urso e garras de escorpião”.

Pura poesia de virtuosa cristã consciente a respeito da falibilidade humana. Explora o demonismo e a santificação atribuídos à mulher desde os tempos primevos: “Através da mulher o mal entra no mundo e ao mesmo tempo é por ela aniquilado”. — Maria esmaga a cabeça da serpente com os pés. As dissertações aplicadas aos “Temas Sobre o Fazer Poético” encerram o livro. Vai varrendo com poesia no rebuscar dos fazeres e percepções da Idade Média e, no tempo, o drama e a tragédia, a comédia, a emoção, os contrastes violentos, o aprendizado, a família.

Tem brilhos desafiadores até em autodefinições: “Sou dramática, exagerada. Uma égua lúcida, um anjo condenado. A poesia está no meu peito como uma ferida cintilante”. Grita que “Poeta é cão perdigueiro /Farejando tudo: /Até no lixo /Encontra cacos de estrela”.

Diviniza o adjetivo “azul” que “ilumina” todos os substantivos. E da sua experiência pessoal no esforço de transcendência: “— Livra-me, Senhor, do dragão da maldade, /Quero subir, quero subir! /Mas uma voz interior me disse: /— Vou purificá-la no fogo /Como ouro”. Com as mãos no arado e a mente cintilando nas estrelas interiores, em seu livro Raquel Naveira nos ensina a saciar todas as fomes, no texto simplicidade: “Como Deus é simples! Escolheu o pão para ser seu corpo por toda eternidade.

Se podemos nos alimentar de algo tão puro como o corpo de Deus, o que nos falta?”.

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