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23/11/2011 07:15

Ordem e coragem com Rui Garcia Dias

Grandezas da Literatura

Quando vi pela primeira vez a capa do livro “Bar Zói Vermeio”, do acadêmico Rui Garcia Dias, pensei ter a obra principalmente cunho cômico, visto o nome curioso e o desenho de um assustado “fantasma” com olhos vermelhos, em cima de uma árvore. Pareceu-me que seriam historietas sobre frequentadores de bar. Como se diz - bar também é cultura e de fato milhares de dramas estão ali, sintetizados por trás de olhos vermelhos, ejetados, mortiços, tristonhos ou simplesmente com os brilhos inexplicáveis produzidos pelas práticas etílicas, mas dispostos à galhofa, em maioria disponíveis a piadas, ironias, gargalhadas doloridas, pseudofilosofias de vida como o rir das próprias desgraças.

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Mas, não. O autor expressa a ordem possível no mundo. Quando damos ao título deste artigo as palavras “Ordem e Coragem”, queremos identificar no autor o equilíbrio psicológico e o bom ânimo para viver e lutar. Ele parece estar chegando de um tempo distante, e isso é um fato. Nas últimas décadas as transformações ocorridas na Terra e nos terráqueos desafiam a velocidade e a multiplicidade. A desagregação de valores e os multifacetados cruzamentos de ideias, situações e conclusões de difícil entendimento nos turbilhões sociais interfenomênicos, no mundo de agora, deixam qualquer um de “zói vermeio”.

Zói Vermeio quis explicar a situação, passageira ou não, de dor e precariedade em que vivem os migrantes pobres deste país (como em todo o mundo). Saúde em risco, fragilidade pessoal, horizonte turvo no barco da incerteza. O autor preferiu descrever um caminho de superação e o alcance da vitalidade aos seus personagens. Bar do Zói Vermeio é o nome que dá a uma pousada oferecida por um migrante pioneiro chamado Severino Bago Baixo; ali aportavam os mão-de-obra-barata, arregimentados pelos “gatos” para as lides rurais. Dentre eles são pinçadas as personagens Manecão do Angico, esposa e filha, que, com sua descendência e história de vida servem como fulcro à construção do livro.

Vale agora, deixando o sabor dos enredos e suas fluências para os que puderem ler o livro, de distribuição gratuita, tecer considerações sobre o fundo de alguns dos pensamentos surgidos com as letras de Rui Garcia Dias, que despretensiosamente interpretamos, em parte.

As chagas sociais da má exploração do trabalho são evidentes, vistas as desigualdades geradoras de novos crimes. Em meio ao vale de lágrimas há, porém, espaço para aprendizado, força, persistência, disciplina e generosidade. Surgem inteligências emocionais, analítico-operativas, interpessoais e criativas que podem salvar a Pátria. A família de Manecão soube encontrar um Ponto Novo, vencendo a inferioridade social e inclinando-se a construir um novo mundo.

De entremeio, o autor destaca usos e costumes fortes de época como o câmbio (troca, permuta, escambo), barganhas boas e necessárias quando não corre dinheiro “vivo” — solução que não abandona o proscênio mundial. Relata a rudeza do trabalho campestre: a intempérie, o borrachudo, a mutuca, a sanguessuga.

Por meio das figuras de Manolo, advogado a magistrado e Serafim, seu irmão firmado produtor pecuarista dominador no meio rural, ensina sobre as vocações, utilidades e efeitos sociais positivos decorrentes das boas práticas.

O escritor consegue mostrar o crescendo da trama e, mesmo gerando, com a letra, mudanças bruscas, o faz sem provocar choques no leitor. Ao meio caminho expõe e pergunta sobre Deus e Seus propósitos e as noções que os humanos conseguimos conceber a respeito, nesse estágio de evolução.

— Rui, o confrade judicante poeta escreve que “O objetivo do Direito é a paz e a forma de consegui-la é lutar” — ainda, que ética é o “debate prático da sociedade”; e “O certo é ter fé porque o homem é aquilo que pensa todos os dias da sua vida”. O amigo tem o Evangelho, tem por companheiros os estivadores do pensamento Sócrates, Platão, Aristóteles, Maquiavel, Bertrand Russel e muitos outros sofredores da reflexão. Nos aceite, por favor, em sua mesa de debates humanos!

Rui Garcia Dias, desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, cadeira 23, patrono Sabino José da Costa. Suas principais obras, além de “Bar Zói Vermeio” são: “Biografia do Poeta Sabino José da Costa”; “O Pistoleiro”; “O Capanga e Outros Casos”; e “Toque de Reunir”.

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