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04/12/2011 08:15

Sínteses de espiritualidade com Flora Egídio Thomé

Grandezas da Literatura

O livro “Nas Águas do Tempo”, haicais, foi entregue por Flora Thomé em 2002. Haicai é arte poética de iniciação japonesa consistente na construção de poemas curtíssimos de três versos, marcada pela profundidade e pela capacidade de provocar elucubrações intensas no leitor atento.

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Flora Egídio Thomé nasceu em Três Lagoas. Poeta professo- ra palestrante, escritora articulista, movimentadora cultural. Honra a cadeira 33 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, patrono Ovídio Correia. Escreveu até agora seis trabalhos que, fundamental- mente intuitivos, desafiam a capacidade de abstração filosófica dos leitores mais experimentados.

Ela reverencia o poeta japonês Bashô (1644-1694), o homem- -vértice do haicai, figura histórica Zen. Considerado uma forma de budismo, Zen sustenta-se na contemplação interior. Zazen é a prática Zen, se posta além do pensamento, é individuação que não está na palavra, no tempo, espaço ou dimensão lógica.

Aí não existe posse e a busca passa a ser realização e certeza pura do que é divino. Haicai verdadeiro é um esforço, uma compaixão Zen para trazer à reflexão o inenarrável. Aqui neste amigável texto pouco nos esforçamos para alcançar entendimentos previsíveis, e sim nos deliciamos em expressar, também intuitivamente, as possíveis significações de algumas dessas verdadeiras sutras emanadas da espiritualidade Flora Thomé. Entre as aspas, veja os haicais.

“Nasci em tempos de água /nas águas do tempo estou... /vogando sozinha”. — A terra é mãe, a água é mãe da terra. Água traz à vida o indivíduo capaz de sentir o tempo. Indivíduo (o que não se divide) é só. Vogar sozinha é uma faceta da sabedoria da autora. “No meio do lago /um bote... No meio do bote /nada vezes na- dando...”. — O nada não existe, mas é uma figura mental daquilo que seria o impensável. A vastidão eterna é um nada...

Apenas por não encerrar explicação mental. Nosso mundo é uma gota do oceano, o corpo físico é o bote que, parecendo nadar, apenas faz parte de um fluxo. Mas o fluxo universal só existe porque o indivíduo existe.

“Alimenta-se de esperas... /por ela, ninguém espera... Moldura vazia!”. — Ai dos que esperam coisas fixas deste mundo, estereotipadas. Nada espera no incessante movimento e a moldura vazia se equipara a uma flor de plástico.

“Mãe e filha /brincam de casinha /com saudades do futuro”. — Elas estão felizes, reunindo em frações de segundo o passado, o presente e o futuro. Sendo o futuro uma expansão da alegria para os que amam, há saudades para o que ainda virá fisicamente. “Decifrar o tempo /do relógio ou dos sonhos.

"Mistério da vida”. — O tempo é uma dimensão de alto poder plástico. O único modo de conhecê-lo é perder-se nele. Ora, quem nele se perde não se ocupa em decifrá-lo. E o poder do mistério somente é revelado para aquele que se torna um mistério. O que se fez mistério não pode ser decifrado pelo comum. O tempo no relógio e nos sonhos varia inti- mamente para cada um conforme a dor e o prazer.

“Caminhos retorcidos /lembranças que vão e vêm /no chão da memória...”.

A memória humana é tão material e concreta, que pode ser manipulada como argila. Os caminhos se distorcem, pois o ato de memorizar desfaz uma história e a reconstrói. Uma coisa inteira acontece, e as versões criadas pelos pensamentos, no tempo, simplesmente apresentam, sobre a primeira coisa, histórias diferentes, também passageiras.

“Por inteira /a estrada é nosso espaço /por inteiro!”. — Somos todos caminhos. Fazemos com a estrada uma inteireza. “Criaturas indefinidas /procuram outros /indefinidos criadores...”. — Um dos maiores problemas dos que procuram criadores é que eles próprios são também criadores e criativos. Se a criatividade fosse algo já definido, seria apenas congelamento, aprisionamento do ser espiritual.

Empatar a harmonia interna com as dúvidas sobre criadores é embotar a criatividade. Quem para de procurar, encontra. “A gente sonha e esquece /e, sozinho amanhece... /Roda-vida do sonhador”. — No caminho evolutivo sempre estamos interiormente a sós e cada momento de despertar pode significar um amanhecer. O esquecimento é problema passageiro a ser superado pelos aprendizes que somos todos nós.

Despertos no corpo físico estamos absorvi- dos pelos interesses mais materiais, imediatos; quando acordados no mundo espiritual, que é o real, somos alerta naquela realidade e para lá voltamos todos os dias. Roda-vida. “Nessa ausência tão surda /virá alguém ouvir o inteiro /silêncio da alma?”.

O silêncio é a melodia mais completa da alma. Nesse silêncio canta em nós a essência divina que só pode ser ouvida por inteiro quando nos ausentamos dos excessivos ruídos provocados por pensamentos enlouquecidos.

No seu livro Haicais (1999), Flora Thomé também nos perfumou com os sabores do eterno. Afirma-nos na introdução, que a obra é um registro sutil de sentimentos e visões que “acontecem neste lugar, neste momento”, deixando claro o seu perceber das portas do infinito.

Daquela leitura, extraio alguma seiva para a finalização deste texto: “No mar, o horizonte /se perde. No horizonte, /quem se perde é o mar”. — Em êxtase Castro Alves indagava, diante dos infinitos: “Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...”. Bem, para as altas ciências, não há definição invariável para o em cima e para o embaixo (ambos são a mesma coisa).

Para a elevada mística, perder-se é praticar o grande encontro com a vida. “A chave aprisiona /o homem. Sem ela, /está em harmonia consigo”. — A festa no céu é interior. Aquele que vislumbra as delícias do autodescobrimento, mas que se empenha em formalizar uma chave egoística, para vender a preço da satisfação da vaidade, continua sendo prisioneiro da brutalidade.

Sem a chave, ou seja, entregue à simplicidade do espírito, acha o indivíduo aquilo a que chama harmonia. Flora Thomé tem muitos carinhos e sempre oferece algum aos poetas, como neste haicai: “O poeta caminha /longe de amores. /Mas cheio de amor”.

Somente à distância do que é mais desejado e querido surgem sofreguidão, o frenesi da alma, o dizer criativo de uma canção embriagada de amor. Misteriosamente as maiores belezas poéticas são extraídas da dor à distância do amor, com que rima. Estamos, afinal, sempre felizes se caminhamos cheios de amor.

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