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19/12/2011 07:15

Universalidade Crônica de Maria da Glória

Grandezas da Literatura

Contemplar, sentir, aprender, apreender, resgatar, relatar, criticar, ensinar, divulgar comunicando: eis a fórmula crônica da mestra Maria da Glória Sá Rosa, dama do saber, amiga da memória, ícone da educação e da cultura de Mato Grosso do Sul.

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Seu olhar percu- ciente busca o universo na ânsia não apenas de entendê-lo, mas de viver o que nele há de lúcido e entregá-lo às almas, como prestadora de serviços, para que cada uma, alcançada pelo poder do esclareci- mento, encontre motivos para desfrutar em liberdade as delícias do espírito.

Compaixão de professora. Cientista do compartilhar. Dessa copiosa fonte buscamos o seu livro Crônicas de Fim de Século, de 2001, para construir o presente texto. Receberíamos ainda, em 2002, sua obra Tecendo Palavras (Contos de Hoje e Sempre), dentre o muito que ela prossegue semeando.

Multiplicidade e abrangência caracterizam seu trabalho “Crônicas de Fim de Século”, que bem poderia servir de refrigério a algum solitário recostado por entre escombros, carente de recobrar memória talvez despertando depois de um impossível fim de tudo. O Estado de Mato Grosso do Sul, o Brasil e o nosso planeta estão ali, nas três grandes partes do livro de 264 páginas: Personalidades; Literatura e Cultura; e Viagens.

De tudo ela extrai e expõe poesia, arte, música, cultura. E en- sina a universalidade acolhendo e respeitando as individualidades. Mulher de cinema, teatro, universidades, ensaios, leitura, educação, abstração. Mulher da palavra. Missionária do esforço ascensional humano. Árvore de prata, ouro e aço, multirraízes, expulsando sombras em nosso Estado.

Desde 1939, de Mombaça no Ceará para uma Campo Grande então mais falta ainda de recursos intelectivos, veio semear crescendo. “A cultura ou é comunicação ou não é nada”, ela diz lançando ao ar um desafio. — E que desafio! Pois vai se elevando enquanto se comunica e é difícil ao desavisado alcançar-lhe o nível mais alto, pois do alto sempre lhe vem mais, posto que, para quem muito tenha mais ainda é acrescentado, por lei.

É preciso apertar o cinto, pois o giro é vertiginoso! Ela começa a destacar Personalidades, com Lydia Baïs — pintora, pianista, compositora, “o primeiro grande nome na história de nossas artes plásticas”; segue com Manoel de Barros, para quem “Poesia é voar fora da asa”; e vai somando — Demosthenes Martins, herói sul-mato-grossense, membro fundador da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, cuja humildade “foi o dom que o manteve desligado das mi- sérias do cotidiano”.

Os encontros se sucedem, variados e diferenciados no seu frenético comentar: Humberto Espíndola com seus quadros registra “nos limites da matéria, a noção de transitoriedade”; Camões, de Os Lusíadas. Soldado, navegador, poeta, cheio de “saudade do infinito, no desejo de voltar ao plano das essências”; Maria Constança de Barros Machado, educadora, que introduziu em nosso Estado o necessário entendimento de que o aluno “é o centro do processo educativo”; o renomado ator Rubens Corrêa, nascido em Aquidauana, uma vida de “entrega total e absoluta ao teatro”; a guerreira Aracy Balabanian, aclamada defensora do teatro, destacada entre as melhores numa “profissão sustentada pelo fogo da paixão”.

Agora surge Ignez Correa da Costa, artista plástica brilhante por muitos anos em Campo Grande — cidade que retratava em meados do século passado; Conceição dos Bugres, originalíssima, “símbolo da cultura sul-mato-grossense, pelo gênio criador que desenvolveu com humildade”. Oscar Niemeyer, arquiteto artista do espaço, “fascinado pela linha curva”, idealizador da estrutura física do colégio “Maria Constança de Barros Machado” é brindado pela escritora.

A partir daí Maria da Glória amplia uma estrada de magníficos pavimentos, por onde desfilam personagens queridas, que lhe enriquecem as memórias: sua professora irmã Josefina Di Sano e grande número de colegas professores; Tetê Espíndola, a voz transformada em instrumento; Fernando Sabino, o grande escritor, autor de “Encontro Marcado”; Clarice Lispector, de perfil enigmático e genial; Elis Regina, “completa intérprete da nossa MPB”, “domesticava notas musicais”.

A segunda parte do livro, denominada “Literatura e Cultura” é um manancial de pesquisa e reflexão pelo crescimento humano. Narra o folclore de Parintins (Amazonas); serve à nossa sensibilidade Guimarães Rosa, o revolucionário da língua portuguesa, comentando alguns dos seus contos como “O Burrinho Pedrês” – (pedrês: sal- picado de preto e branco na cor); ensina e alerta sobre os desafios da cultura sul-mato-grossense; exalta Lobivar Matos, o ex-desconhecido poeta da boemia corumbaense, brincante de belas metáforas; Mato Grosso do Som, o grande feito (três CDs) que traduziu musicalmente a cultura regional; traz Emmanuel Marinho, que abole fronteiras gramaticais; enaltece a Associação Campo-Grandense de Professores pela luta contra a ignorância e contra os maus-tratos à educação.

Leva-nos a visitar a Casa do Artesão, referencial de memória e de turismo da Capital; esmiúça sobre o pluralismo da cultura em Mato Grosso do Sul; destaca a profundidade dos “haicais” de Flora Thomé; enumera as vantagens da divisão do Estado, que retirou do abandono o lado sul; comenta a nossa literatura dos anos 30 e 40, começada pelo jornalismo; reapresenta Américo Calheiros e seu livro “Da Cor da Sua Pele”, obra de contemplação e defesa das belezas e dignidades da raça negra; reaviva as noções sobre os poderes e a importância da arte cinematográfica, evocando, para tanto, grandes filmes; na epígrafe “A Festa do Bode”, aponta os horrores da tirania na República Dominicana no meio do século vinte; a força da literatura na formação infantil; os livros que marcam as nossas vidas, “que se colam à pele do leitor”; as aventuras teatrais em Corumbá, transformada no “espaço da amizade”; os sonhos dos fazedores de teatro; os embates que teve, especialmente nas décadas de 60 e 70, com elementos da censura. Mutiladores de textos, “despreparados para lidar com a frágil matéria que constitui o produto artístico”; ela refaz a memória de grandes políticos como Fernando Correa da Costa, “líder de mãos limpas e de decisões rápidas”, desprendido e zeloso para com a coisa pública.

Ao narrar viagens que fez por todos os continentes, esforça-se para traduzir o intraduzível de grande parte das emoções que só se realizam na experiência concreta da visitação. De tudo que observa memoriza o que há de arte-cultura, mistério, beleza e religiosidade, costumes e tradições, mitos e lendas. Ama e quer saber, sempre, da história de todas as coisas.

Do extenso currículo de Maria da Glória Sá Rosa destacam-se a formação em letras neolatinas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, faculdade de Filosofia, o aprendizado de outras línguas (diplomada em Francês), o longo período de atividades na Faculdade Dom Aquino em Campo Grande, a qual fundou e em que trabalhou por 17 anos. Professora em dezenas de estabelecimentos, militante notável da arte e da cultura, colaborou com o Estado ocupando cargos condizentes com suas diversas aptidões.

Doutora honoris causa pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), recebeu recentemente o título de Cidadão Sul-Mato-Grossense. Principais obras: Cultura, Literatura e Língua Nacional (1976) – três volumes, parceria com Albana Xavier Nogueira; Memória da Cultura e da Educação em Mato Grosso do Sul (1990); Memória da Arte em Mato Grosso do Sul (1993) – parceria com Idara Duncan e Maria Adélia Menegazzo; Deus Quer, o Homem Sonha, a Cida- de Nasce (1999); Capítulos sobre música e teatro do livro “Campo Grande: Cem Anos de Construção” (1999); Crônicas de Fim de Sé- culo (2001); e Tecendo Palavras (Contos de Hoje e Sempre) – (2002). Glorinha é uma facilitadora de sínteses. Observadora expositora tem ousadia para classificar, definir e atribuir.

Em seus avisos sobre a cultura em nosso Estado, concordo com ela quando diz, no seu artigo ainda em dois de agosto de 1994, que “Faltam mecanismos para o florescimento cultural dos municípios do interior. Falta uma ação integradora de Mato Grosso do Sul com o contexto brasileiro e universal. Faltam leis de proteção à cultura (...)”. Tantos anos depois, continua faltando muito, Glorinha, falta tanto que seria longo falar.

É mais fácil e rápido falar sobre o que se tem hoje de ações efetivas, pois isso é bem pouco.

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