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29/12/2011 08:20

Valmir Corrêa: Mato Grosso em convulsão sem revolução no século 19

Grandezas da Literatura

A sabedoria e a graça popular costumam resumir o mundo a termos quase monossilábicos. 44 é lei. Revólver em Mato Grosso. O próprio topônimo sugeriu, ao Estado, impressões do clima bravio e inóspito. Na quinta década do século 19 a região tenta tomar fôlego por entre as violências.

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Acaba o período regencial brasileiro (1831- 1840), um dos mais inquietos do Império. Daqui nós partimos para novos fenômenos político-econômico-sociais sem quebrar significativa e interiormente o modo tradicional exploradores X explorados, injusto que vige não apenas neste Centro-Oeste como no Brasil e em todo o planeta.

O livro História e Violência em Mato Grosso — 1817-1840, de Valmir Batista Corrêa, lançado em Campo Grande no ano de 2000, revela algo diferente do que seria uma colonização predominantemente pacífica e às vezes sobressaltada. Fala da violenta psicologia humana que estremece o cotidiano em confronto com a terra agreste, da rebelião que marcou a história precedente do Estado, o Mato Grosso que não se revolucionou.

Valmir Batista Corrêa, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, cadeira 17 – anteriormente ocupada por Walmir Coelho (em memória), patrono Eduardo Olímpio Machado –, é escritor historiador, professor filósofo, mestre e doutor em história econô- mica do Brasil pela Universidade de São Paulo.

Publicou mais de 60 títulos, principalmente sobre Mato Grosso - Mato Grosso do Sul. Está radicado no Estado desde 1971. Foi secretário de Educação e vereador por duas vezes em Corumbá. No extenso currículo em que se identificam jornadas extrema- mente produtivas, destacam-se-lhe, na última década, cargos como os de coordenador de Ações Estratégicas e Relações Internacionais em Mato Grosso do Sul, diretor-presidente da Fundação Luiz Chagas de Rádio e Televisão Educativa, coordenador de Comércio Exterior da secretaria de Estado de Produção, membro do Conselho Editorial do Instituto Histórico e Geográfico de MS e a comenda de Membro do Conselho da Ordem do Mérito Pantaneiro, no grau de Grão-Cruz.

O ano de 1817 é tomado por Valmir Corrêa como ponto inicial do estudo sobre um ciclo de violência na região mato-grossense pós- -Independência. A Capitania de Mato Grosso fora criada pela Coroa portuguesa em 1748, tendo então por sede Vila Bela da Santíssima Trindade – que depois perdeu para Cuiabá a condição de Capital e passou a denominar-se Mato Grosso, retomando em 1978 o seu antigo nome. Nesse marco (1817), escreve o autor, “A despeito de um florescimento cultural, marcadamente em Vila Bela e Cuiabá, como tentativa dos capitães-generais de transplantar um pouco do mundo cultural português para a Capitania, o que realmente restou desse período – (até 1840) – foi a consolidação da violência no cotidiano mato-grossense”.

Claro, a Capitania era estruturada em moldes militares, por defesa e para conquista. O indígena era problema de resistência e solução escrava na busca do ouro. Nunca foi fácil submeter índios e negros, mas nem sempre o contato foi de agressão. “Da descoberta do ouro nas margens do Coxipó decorreu a introdução do homem num ambiente cuja hostilidade variou desde doenças epidêmicas até ataques indígenas – (nós dizemos, resistência) –, levando-o a uma coexistência forçada com a violência extrema”, escreve, declarando a violência, afi - nal, como “uma expressão do cotidiano mato-grossense”.

O contexto do período estudado inclui que Portugal era preocupado com a atenção espanhola sobre a América. “Na defesa de suas posses, pouco interessou à Metrópole se seus representantes enfrentassem fome, doenças, animais ferozes ou outras formas de violência”, lembra Valmir. O dever do morador-soldado, para com o governo, envolvia todo que pudesse pegar em arma para defender fronteira e interferir em áreas de atrito.

O quadro de dificuldades – principalmente logísticas – impunha decadência econômica de Mato Grosso. “A pobreza, a falta de condições mínimas de sobrevivência e o abandono em relação à administração provincial foram os aspectos comuns dos povoados e das guarnições – (militares) – localizadas na região”, diz.

O escritor trata de Rebelião Cuiabana o que os atenuadores da história quiseram considerar como “rusga”. Num estado convulso, “A rebelião iniciada na noite de 30 de maio de 1834, em Cuiabá (...) Resultou de maneira efetiva na tomada de poder por parte dos nativistas locais e na desarticulação das forças tradicionais de controle político e econômico da região”. “A conquista rebelde provocou a fuga de portugueses, saques de suas casas comerciais e morte de muitos deles (...)”.

Em sequência o movimento nativista foi violentamente reprimido e desarticulado. Pretender-se-ia identificar o momento como revolucionário, entretanto, não apontava alterações de status quo, mas a simples transferência de poder. Era a massa rude e ignara manipulada por uma minoria alçada à inteligência de poder. Todavia, rebelião e não simples rusga.

Valmir, fi ca garantido o valor desta obra no brilhantismo da sua vasta coleção, fosse somente reflexão de que este regional esforço humano pela sobrevivência tem permitido a preservação das fronteiras, os nossos desenhos nobres no mapa do Brasil indelevelmente fixado no mapa-múndi, de toda sorte preservado como se, considera- do ao longe, fosse um feito extra-humano em meio a mil torvelinhos históricos de invasões, conquistas e retomadas.

Que é a violência em seus múltiplos aspectos? Importante estudo é apresentado na terceira parte do livro. Ente misterioso presente em todas as épocas por toda parte, a violência aparece com mil trajes diferentes, espiando ultrajes, soluções, transformações incessantes.

Instinto, ausência de razão? Seja como for, mais temível é a violência calada, implícita, a todo instan- te preste a cair ou recair como causa ou efeito na nossa vida. Não tenham sido e não sejam em vão as violências que temos tomado, abrigado ou suportado, saberemos aproveitar o seu estudo em busca de que não nos sucedam dias piores.

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