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24/11/2011 07:15

Vida e alma sul-mato-grossenses com Camalotes e Guavirais de Ulisses Serra

Grandezas da Literatura

Referir-se à pessoa como “alma” é um belo costume dos antigos, usando o termo para designar sintetizando tudo o que o indivíduo é e representa. Se for assim, e a considerar o quanto o luminar Ulisses Serra veio entranhar-se no que é Mato Grosso do Sul em essência nas sementes e primórdios, temos então, nesse escritor proseador, a alma do Estado.

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Habitante da medula das coisas regionais, daí pôde o homem vibrar e dimanar com autenticidade e autoridade do verbo. Feita a plataforma estética, quis, sabendo querer, evocar o cheiro e o sabor dos guavirais e o movimento e beleza dos camalotes para identificar a alma de Mato Grosso do Sul, ao banho sagrado e poderoso do Rio Paraguai.

O jornalista escritor memorialista Ulisses Azuil de Almeida Serra (1906-1972), autor do livro “Camalotes e Guavirais” (13 de outubro de 1971), obra clássica que em crônicas revela e descreve a grandiosidade simples das coisas locais e regionais, e, a cada dia mais, se nos afigura importante relembrando o iniciático e nos inspirando ao valor permanente. Puro e natural tem poder e força, porque seu principal estribo está na verdade do que viveu; a descrição literária é que faz o sonho e a magia do positivo contágio.

Ele fez casa para a palavra, criou dimensão para o exercício do pensamento nesta terra. Fundou a Academia de Letras e História de Campo Grande, que resultou na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfi co de Mato Grosso do Sul.

Em seu trabalho singular, que ainda merece melhor divulgação, focalizou pessoas e realizações emblemáticas citadinas e rurais, infância em Corumbá e o restante em Campo Grande. A leitura de “Camalotes e Guavirais” é base para historiadores e quem mais se interesse por entender o nosso hoje em Mato Grosso do Sul. Os pioneiros, a família, as fi guras populares, comércio, instituições, prédios, ruas e lugares, ecologia, mitos e lendas, os elementos propulsores da sociedade, poetas e escritores, política, artistas e meios culturais, as culturas nascente e remanescente, nossos principais arquétipos estão aí enfeixados.

Pensando nas qualidades mais atraentes de Ulisses Serra, comunicador no sentido lato da palavra, sentimos o seu olhar humano a humanos, ternamente vinculado a terra em que vive e ama. Confraterniza. Critica. Solidariza-se. Alimenta compaixão. Lembra. Enaltece. Chora.

Sobre a popular Maria Bolacha e os moleques que lhe atormentavam o cotidiano, “enquanto forças teve, disputou o direito às ruas, defendeu sua dignidade e repeliu a rebenque e pedradas a alcunha desmoralizante ”. Outro; Josetti. Teria sido moço da alta sociedade, arruinado por uma desilusão amorosa. Vagante. “Dominava a cidade com a origem da sua desventura, com seus anéis baratos, reflexos do que ele fora outrora, com seu sorriso e sua mansidão”.

Da alfândega de Corumbá, do período áureo, emerge o guarda Alípio, amparado na reminiscência de Ulisses. “Sua vida assemelhava-se aos camalotes, presos nos remansos ou a boiar no caudaloso Paraguai, levados docemente ao sabor das correntezas”. Na ambiência corumbaense, Alípio é um modelo boêmio da “noite branca”. Alheio às regras mais comezinhas, inteligente, desprendido e gozador, perde-se por amor-paixão, mulheres e jogos, dá-se à embriaguês, derrama sua alma sensível e vai-se embora com o vento.

Relata descuidos diante da maldade. Fala de um seresteiro “sempre a cantar sua canção predileta, fundo musical da sua alma vadia. Nostálgicos e plangentes não eram propriamente os versos, mas a melodia que se espraiava no silêncio da noite como dorida litania e murmúrios do mar”. O cancionista, inadvertidamente aceita o cargo de aprisionador de animais soltos nas vias públicas. Apreendera um cavalo pertencente a Artur Carroceiro, um perigoso pernambucano. Brevemente “o corpo de Nenê Guató estava de borco na Rua 13, na grama fria, molhada de orvalho e empapada de sangue. Calara para sempre a voz do cancioneiro solitário e triste, ingênuo como todos os moços”.

Estudos muitos ainda se há de fazer a partir do que nos ensina o autor, principalmente em se tratando de verificação da história, que, longe de configurar meramente passado obsoleto, na verdade se refaz a cada passo, com o movimento anterior reagindo sobre o momento posterior. Seus testemunhos propiciam, por exemplo, importantes observações sobre os fenômenos de insegurança, crime e inquietação social.

E escreve com amor para Campo Grande: “No imenso e insondável encadeamento das gerações, a nossa vida, por mais longeva, é fração de segundo imedível frente às gerações que já se passaram e às gerações que os milênios hão de trazer. Distante, longínqua, aureolada de lendas e fantasias, há de resistir ao tempo a figura do desbravador intimorato, o pioneiro, o fundador, o mineiro José Antônio Pereira, que não sabia que o chiado monótono das suas carretas cantava a sua glória”.

Ulisses Serra! Ninguém morre, e você escreve algo que poderá ser presente a todo espírito constantemente renovado: “Sadios e joviais, supúnhamos ledamente que o mundo fosse todo nosso, azul e luminoso; que manteríamos sempre a mesma destreza e o mesmo tônus muscular; que caminharíamos por doiradas estradas da vida sempre a impelir para o alto os nossos dardos e os nossos sonhos”.

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