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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
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    Coluna


09/12/2010 14:22

A ignorância ao alcance de todos

Luca Maribondo

Assim como a ignorância, o analfabetismo é um fenômeno cultural e político de grande importância para toda a humanidade, que existe desde a pré-história, até porque na pré-história todos eram ignorantes mesmo. Os primeiros analfabetos, segundo Diodorus, andavam nus, não cortavam os cabelos nem as unhas e comiam carne crua —em compensação foram eles que inventaram o churrasco.

Os gregos, que zombavam dos analfabetos, os apelidaram de analfas ou comedores de analfa, leguminosa que nascia em Atlântida, e que dava ótimo tempero para os churrascos primordiais. Outros, no entanto, afirmam que os analfabetos se originaram na Idade Média, constituindo uma seita hermética liderada pelo monge Ignorus Ignacius, chamada analfas.

Ignorus granjeou um grande número de adeptos por toda a Europa, todos eles levando uma vida das mais ascéticas: bebiam apenas água, comiam apenas frutas, verduras e legumes, acreditavam na total transitoriedade da palavra (a língua é dinâmica, repetiam sempre) e recusavam-se ler ou escrever fosse o que fosse. Cada vez mais os analfas se tornavam mais numerosos e adquiriam grande prestígio.

Corresponde à seita dos analfas muita gente do mundo de hoje. Os analfas estão em todos os lugares: na mídia, na política, no ciberespaço, no desporto e até na televisão. Os seguidores de Ignorus mantêm o hábito do jejum regular ou intermitente, têm prole numerosa, acordam muito cedo pra deitar mais cedo ainda, não lêem livros, jornais ou qualquer outro material impresso.

Por conta disso, de maneira geral, são fiéis, equilibrados, harmoniosos, castos, sóbrios, incapazes de se meter em atividades que alimentam as paixões baixas do homem, tais como a economia, a política, a salvação do próximo, os programas de tv, o onanismo, os sites eróticos da Internet e outras.

Quem são os analfabetos? Entre os seguidores da seita dos analfas ou analfabetos, são mencionados quase todos os seres humanos no início de suas vidas, alguns habitantes dos romances populares (que empregam o pensamento direto), alguns santos, alguns estrangeiros, e um certo número de pessoas registradas como jornalistas profissionais no Ministério do Trabalho.

O analfabetismo é também difundido entre os animais, especialmente os mamíferos, havendo, contudo, exceções. Entre estas aponta-se a anta do fazendeiro Rebouças, que atuou por algum tempo no Pantanal de Mato Grosso do Sul, e que apontava os nomes dos espectadores, separando letras de cartolina, espalhadas no pasto, com suas patas dianteiras. O talento da anta, aliás, chamou a atenção de algumas pessoas gradas, que sentindo nela uma vocação excepcional, conseguiram-lhe uma bolsa de estudos no Ministério da Educação pré-Enem.

Foi assim possibilitado à anta (com grande tristeza de seu dono, o fazendeiro Rebouças) terminar seus estudos fundamentais, completar o curso médio e prestar, inclusive, os exames do Enem. O destino trágico do quadrúpede em pauta vem provar, mais uma vez que o analfabetismo é o estado que melhor condiz com o temperamento pacífico dos mamíferos.

Ao terminar seus estudos, a anta radicou-se em Cuiabá, capital do Mato Grosso (o do norte), fez concurso, foi nomeado para a Funasa e desempenha até hoje, nesta fundação, as modestas funções de analista de sistemas (nível sac). Ninguém mais se espanta com ela, ninguém mais se interessa em comparecer quando se apresenta em alguma cidade do interior.

E é natural que assim seja: pois a anta, enquanto anta, era evidentemente

uma gênia, mas uma vez alfabetizada e educada de acordo com os programas do Ministério da Educação, passou a ser apenas uma anta-funcionária, afundando para sempre na rotina e na mediocridade do serviço público.

Outro caso de mamífero excepcional foi a garça Acolitus,

que gazeava nitidamente todas as letras do alfabeto, inclusive o k, o w e o y, e que chegou a ser examinado por autoridades médicas da Hospital Albert Einstein, de São Paulo. (Era portadora de uma curiosa lesão cardíaca.)

Desistindo de encontrar explicação para o estranho fenômeno, os cientistas, um tanto irritados, soltaram Acolitus que, mais esperta que a anta acima, conseguiu um bom emprego na Rede Brasil de Televisão, para fazer a previsão do tempo, trabalho que realizava com enorme proficiência, pois contava com a ajuda das suas asas Ra verificiar algumas situações in loco.

Embora ninguém saiba exatamente porque, o analfabetismo é considerado uma seita das mais nocivas, um mal que urge erradicar como já se fêz com a malária, a gonorréia e a moralidade administrativa. A campanha contra o analfabetismo é insuflada e agitada pelo inimigo natural do analfabeto: o ser alfabetizado.

Caracteriza-se, êste último, pela capacidade monumental, não só de ler tudo que se escreve, mas também, de escrever quase tudo que se lê. O ser alfabetizado, hoje em dia, insinua-se em quase todos os setores da vida pública e particular —inclusive na política, embora hajam dúvidas a respeito. É possível encontrá-lo nos escritórios, nas repartições, nas redações, nas escolas, até nas Forças Armadas. Infiltra-se no clero, nos esportes, nas artes, na mídia; mesmo em certas camadas da alta administração e do Governo é possível topar, não com um, mas com milhões de seres alfabetizados.

A guerra que os alfabetizados movem aos analfabetos tem sido da mais extrema violência; uma após outra, caem as cidadelas destes, seus generais são aprisionados, seus soldados sujeitos a um intenso tratamento de doutrinação política ou brain-washing, como dizem os americanos.

O resultado é que poucas pessoas podem, agora, manter-se fiéis ao analfabetismo, sem que se exponham à irritada agressão de um alfabeto, brandido tenazmente por um alfabetizado, orgulhoso de sua função social. E assim se extingue mais uma daquelas antigas e saborosas tradições brasileiras, tão do gosto do conhecido escritor Paulo Coelho. Em verdade, só há um meio de defesa à disposição do analfabeto, uma só arma de que pode lançar mão para repelir a furiosa ofensiva dos alfabetizados: a alfabetização em massa e compulsória.

O analfabeto não quer mal ao alfabetizado, que já foi seu irmão. Quer apenas não ser excessivamente importunado, para poder, talvez, converter-se, livre de coação. Pois o alfabetizado, como o evangélico novo, o informatizado novo, o psicanalisado novo ou o recém-casado, procura converter todo mundo à sua fé, e com isso acaba transformando-se num grande chato.

Na realidade, deve-se meditar muito, antes de se dar este passo definitivo e irrevogável, que. fará com que o cidadão passe a ler tudo que se publica, hoje em dia, em livros, jornais, revistas.e cartazes. É de suma importância que o analfa seja instruído no sentido de saber o que está à sua espera a partir do momento em que aprendeu o alfabeto, em que é capaz de distinguir um L de I, em que é capaz de diferenciar um número de um algarismo.

E se for honestamente instruído, é possível que recue no derradeiro instante, decidindo por não tomar contato com o mundo exótico, sanguinário e selvagem das pessoas que sabem ler. Afinal, todo analfabeto é, no fundo, muito preso —preso por tráfico de drogas, por vadiagem e até por corrupção ativa e/ou passiva. Assim, só assim, a ignorância permanecerá ao alcance de todos.

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É REALMENTE, O BRASIL PRECISA CONSUMIR MAIS CULTURA, A educação, sim, é o único meio de preparar o indivíduo para um convívio social, mais harmônico, de forma que se possamos acreditar em uma sociedade, com novos hábitos, valores, do qual, a ignorância do analfabetismo possa ser amenizada ou até mesmo eliminada do convívio social.
 
LUCIVANIA LOMARQUES em 04/01/2011 09:10:09
Luca,
Talvez você tenha se esquecido da outra teoria para a origem dos analfabetos, que parte da constatação de que na Grécia antiga, o conhecimento determinava o acesso às esferas mais elevadas da sociedade e era graduado segundo as letras do alfabeto (alfa, beta etc)

Daí o iletrado era também conhecido como " sem alfa nem beta", em grego, ANALFABETO, ou seja, um sujeito que poderia, no máximo, ser companheiro de Incitato, o cavalo de Calígula, que foi nomeado Senador.

No Brasil a coisa chegou ao ponto de permitir que também fosse Deputado Federal... e rico. Infelizmente eu cometi o erro imperdoável de estudar... e tenho cometido o crime absolutamente indesculpavel e quase hediondo de pensar...

Orai
 
Normann Kallmus em 03/01/2011 12:41:15
A ignorância e analfabetismo, são termos que se entrelaçam no seu sentido literário, pois ser analfabeto, é ser ignorante para com o conhecimento, cientifico, filosófico, histórico, etc..
Sem duvida, o analfabetismo é um problema sério, para o Brasil, como para os demais paises, que tem a mesma situação. O acesso ao conhecimento é uma questão relevante para a emancipação dos cidadãos, tendo em vista que é o meio do sujeito interagir com o meio social, da qual faz parte.
O Mec, tem políticas para dar acesso aos cidadãos, que é constituído de direitos fundamentais, já declaradas pela CF/88, e outorgado pelas LDBs. Mas tem muitos caminhos a percorrer, levando em consideração o alto nível de analfabetos absolutos.
Precisamos de mais políticas, que possam liberar mais verbas para a Educação, e permitir o acesso a todos numa educação de qualidade, principalmente políticas que englobem a diversidade existente de culturas, etnias, e varias formas de manifestação popular, que precisam entrar no currículo.
Podemos dizer que a cidadania plena, só será possível, quando todos sujeitos estejam dispostos a participar, porque não basta políticas sociais para resolver o problema, se os sujeitos não queiram realmente se engajar.
Acabando assim, com o analfabetismo absoluto, analfabetismo funcional, analfabetismo digital, analfabetismo da diversidade cultural, analfabetismo do respeito ao próximo, reconhecendo que o outro é diferente.
Tudo isto só será possível com vontade dos sujeitos envolvidos, Unesco,Ongs, governos Federal, Estadual e Municipal; cidadão, escola (diretor, professor, supervisor, orientador, etc), e a sociedade de forma geral

A educação, sim, é o único meio de preparar o indivíduo para um convívio social, mais harmônico, de forma que se possamos acreditar em uma sociedade, com novos hábitos, valores, do qual, a ignorância do analfabetismo possa ser amenizada ou até mesmo eliminada do convívio social.
 
Nilton Gonçalves em 03/01/2011 08:39:00
Marimbondo ja passou da hora de renovar o material. Feliz 2011. Saude,Paz, Amor e muitas realizacoes.
 
gabriel serafim da silva em 01/01/2011 10:42:20
Entre o ovo e a galinha, haverá sempre a dúvida...Vai daí que...
Abração Luka!

Edson C Contar
 
Edson C Contar em 01/01/2011 02:17:00
Parabéns Lucas, mas, acho que temos que conviver com as diferenças.
 
Waldomiro M. Santos em 27/12/2010 04:27:56
Caríssiomo Maribondo, de que adiante chover no deserto, onde não há plantas a regar, nem ainamis a dessedentar? Tantos alfas (???) que não entenderam o sentido do texto...
Ainda ontem comentava c amigos de que se antes acreditava que a educação era o caminho mais seguro p se consertar o país, hj já não tenho tanta certeza. A "educação" do jeito que está, creio que não deveriq nunca ter abandonado a seita dos analfas.
Mas brasileiro é gente de fé, né? E novo ano começa, quem sabe as coisas melhorem, não é mesmo?
 
Marly Siqueira Caramalack em 27/12/2010 02:16:25
Começou mais ou menos depois se perdeu e a linguiça foi enchendo, a intenção foi boa mas o resultado final foi mediano. Mesmo assim parabens e continue tentando, tem hora que sai coisa boa. Em nosso pais é melhor confiar em analfabeto do que em doutor, que o diga nosso excelentissimo Tiririca, que ao meu ver é nossa única aposta em honestidade, nosso futuro ex-presidente entrou no cargo na semi-analfabetização e esta saindo alfabetizado, ou seja, começou semi-honesto e está saindo formado com louvor em corrupção com doutorado e mestrado. Aliás aqui é a terra dos doutores, ninguem precisa fazer doutorado mas todo mundo quer ser chamado de doutor, seja advogado, engenheiro, médico e por aí vai. VIVA O BRASIL!!!
 
maximiliano nahas em 17/12/2010 04:24:21
Parabéns Luca! Mais uma vez um excelente texto!
 
Nelson Fabio Feitosa em 16/12/2010 09:46:42
Nunca li tanta besteira. Verborragia inútil. Não adianta sapatear, o ENEM vai continuar, pois se não caiu a ficha de vocês eu relembro: a Dilma será a presidente do Brasil! Adios conservadores!!!!!!!
 
alcindo camargo em 15/12/2010 03:17:21
"Multa ferunt anni venientes commoda secum". — "Quanto mais se vive, mais se vê". Parabéns pelo artigo ... Sua análise merece aplauso! Encaminhei para alguns amig@s lerem.
 
Prof. Janio Batista de Macedo em 13/12/2010 04:27:45
Veja só que oportunidade única esse processo se revela para todos os mamíferos, desde que não colocado em face de outras avaliações – caso pois que abismo...
Será o ENEM um artifício revolucionário dos alfabetizados para produzir um novo ser? o “amalfabeto” (um sujeito mal alfabetizado) que apresenta para todos um resultado de média probabilística (igual ao acerto casual) de um exame que não mede conhecimento algum.
A prerrogativa da defesa do ENEM se perfaz de muitos argumentos – “é um modelo igual ao americano” diz uma senadora. Conduto se esta lê-se tudo, até o fim, saberia de antemão que o modelo americano é considerado pelos próprios, obsoleto e ineficiente, e jamais pode ser o único parâmetro de processo seletivo para as Universidades - e lá não é.
Sobre tudo, ser alfabetizado e promover o “amalfabetizmo” é pecado?
 
Higor R Marcelino Tosta em 12/12/2010 02:23:00
Adorei, fantástico!!!
 
Elizabete Costa em 10/12/2010 11:30:36
Mais uma vez um texto que nos faz refletir. Parabéns!!!
 
Romildo Fagundes em 10/12/2010 11:01:27
Se o homem puder discernir na letra, o " espirito que liberta" do "espirito que amarra"
então terá sentido aprender a ler.

(frase indígena do norte americo)
 
jose luis em 10/12/2010 09:52:45
Nasci Analfa de mãe e Beto de pai. Tentei estudar quando as escolas eram pequenas e poucas. Quando as tarefas não feitas ou a tabuada não decorada resultavam no ficar de joelhos sobre milhos e braços abertos com um livro em cada mão. Tentei aprender escrever e ler quando o silêncio só era quebrado com a vóz do professor e o burbúrio na sala de aula terminva com o barulho de uma régua de madeira sendo espedaçada na carteira de algum discente pelo docente.
Nasci Analfa de mãe Analfa que fazia a cola com maizena, com porvilho e isto era prova que a vida era dura. Meu pai beto era muito tenaz em seus princípios e colava em meus aprendizados sem poder comprar uma cola Tenaz para que eu colocasse junto dos lapís preto e coloridos, borrachas e canetas esferográficas.
Antes de entrar em fila para a sala de decoração, cantava desafinado, mirando o infinito e olhando para o pano no mastro, o hino verde de uma esperança longe da realidade. O ritual era macabro para que a mente fosse obrigada a absorver as letras e as palavras ditas e ditadas num regime diet.
No final, aliás, no meio do objetivo ficavam os pobres enquantos os de poderes financeiros disputavam um entrada no paraiso dos doutores.
Minha mãe Analfa em tom uníssoro cm meu pai Beto me disse: Vai filho, conforme o tempo e a necessidade.
Hoje estou velho e o que mais adianta as portas se abrirem se não posso mais ouvir a régua dos docentes no barulho dos discentes. Se meu padrinho não tem força de abrir uma porta sequer comos os piriquitos faziam para os papagaios?
Não sei de devo rir ou chorar; se critico ou aplaudo; mas o importante é que é difícil agradar gregos e troianos.
Continuo sem saber ler e, muito mais, sem saber escrever.
 
Ezio Jose em 10/12/2010 09:16:26
Parabéns, excelente. Assino embaixo.
 
Maria Augusta em 10/12/2010 05:29:55
As palavras e os discursos sempre nos atraem,em especial quando desconhecemos o teatro psíquico. Einstein libertou o pensamento antidialético ou multiangular e, consequentemente, expandiu sua intuição criativa.Seu feeling, capacidade de observar, esquematizar, imaginar, deduzir, se ampliou muitíssimo. Isso fez toda a diferença no seu processo de construção de conhecimento.Quando Einstein morreu, um médico furtou seu cérebro pq queria estudá-lo e deixá-lo como legado para a Humnidade. Atitude ingênua!! O prórpio Einstein acertou ao dizer que para ele a imaginação era mais importante que o conhecimento. A sabedoria de um ser humano não está no quanto tem consciência de que sabe,mas do quanto tem consciência de que não sabe. A consciência da própria ignorância é o primeiro passo em direção à sabedoria. Luca és um homem de grande sensibilidade!
 
maria izabel em 10/12/2010 04:16:25
Parabens Sr. Maribondo, texto belíssimo...nos fez usar o nosso cérebro quase "zero km"!!
 
João Carlos Maciel em 10/12/2010 02:57:08
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