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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
  • Luca Maribondo

    Coluna


09/05/2011 11:11

Alguém quer brincar comigo?

Luca Maribondo

Quando se é criança, os adultos vivem tentando ensinar um bocado de coisas pra gente não quebrar a cara na louca da vida. Lembra-se de frases como “não bote o dedo na tomada”; “não coma coisas encontradas no chão; “não tire catota do nariz”; “não ponha a mão em uma panela no fogo”, “não chute o cachorro”; “não bata na tua irmã”? E vai por aí afora.

Apesar de tantos avisos e ensinamentos, insistimos em contrariar as advertências e lá vamos nós experimentar a vida por nossa própria conta e risco. E, claro, estamos sempre recebendo choques, tomando porrada e levando quedas pelo caminho. Isso é o que se chama viver. Viver é, no mais das vezes, muito mais eficiente em termos de aprendizado do que aquelas reprimendas de “não faça!” que os adultos vivem nos obrigando a ouvir. Os percalços e as experiências por que passamos é que nos ensinam do que se trata a vida. Mas a ajuda dos adultos é imprescindível, claro.

Mas, se muitas vezes repudiamos as lições dos adultos, é por causa delas que aprendemos a confiar neles, principalmente nossos pais. Quantas vezes você não se arrependeu de levar o agasalho que a mãe tanto insistiu? Quando ainda somos crianças eles estão sempre preocupados e pensando no seu bem-estar.

Experiência. Esta é a palavra. Eles já viveram tudo aquilo que você passou ou está passando: aquela vontade de riscar paredes, a curiosidade de desmontar os brinquedos, a primeira vez ao volante de um carro, aquele temor de ligar para aquela garota ou aquele primeiro porre. Escutamos e aprendemos —claro que nem sempre.

No fim crescemos. Aprendemos alguma coisa. E descobrimos que eles mentiram. O mundo não é bem como nos ensinaram que era. Pelo contrário! Quando somos pequenos, se acreditamos em nossos pais, se seguimos seus ensinamentos, somos bem-educados e, por isso, elogiados. Quando crescemos, se continuarmos acreditando, somos chamados de otários. Somos desiludidos.

Comi todo o arroz-com-feijão do prato e não cresci forte e bonito. Trabalho doze, quatorze horas diárias, e estou longe de ficar rico. Procuro e não encontro aquela linda e sensual princesa encantada prometida. Engoli todo o mingau e continuo fracote. Comi todas as bananas necessárias e desnecessárias e continuo desvitaminado. Sou honesto e ético, mas nunca valorizado por isso. Procuro ser bom com os outros, mas não há um Papai Noel no final do ano para me dar um belo presente de recompensa. Os bandidos nunca são punidos no final. O mau-caráter sempre fica com a mocinha e com o carro último tipo.

Na vida adulta não há espaço para ingenuidade —não é possível a existência de crianças, ainda que as crianças não sejam tão ingênuas quanto se imagina. Hollywood só existe nos filmes. A virtude e a pureza morreram há muito tempo. Os últimos românticos vivem numa permanente via crucis.

Não há qualquer charme em ser bom, enquanto há uma aura sensual em ser mau. A malandragem é fator diferencial (eu diria até crucial) na ascensão de uma carreira ou de obter a fortuna. Ter princípios é antiquado. Ética é careta. Honestidade é burrice. Cidadania é estupidez. Hoje é impossível exagerar sobre nossa desonestidade pública.

Aprendemos? Ou desaprendemos? Em quem confiar? Em nossos pais que sempre zelaram por nós ou em um mundo que sempre nos acerta na cabeça e no coração se seguimos a linha deles, nossos pais? Ser uma criança eterna, sonhar, viver, buscar e por muitas vezes chorar e apanhar de um valentão qualquer. Ou abrir os olhos, se encaixar em um mundo canalha e roubar a matula daquele otário fracote? Chego à conclusão de que estamos precisando urgentemente de um código de falta de ética.

Numa sociedade imbecilizada como a atual, um dos traços mais marcantes que demarcam uma cultura provinciana, parece imperar sem fronteiras: a maioria das pessoas insiste em aprender de cor e salteado a tabuada da “indústria do pensamento” (atenção, pessoal, o Big Brother —ou Mano Veio— vai voltar...). Resultado da operação: todos se sentem à vontade para transpor linha —sutil, mas clara—, que separa a malandragem da velhacaria, da canalhice.

A malandragem sempre esteve presente nos mais variados aspectos da vida brasileira, mas principalmente nas artes, na música, na literatura, nos esportes, no futebol principalmente (jogo de malandros, como se dizia antigamente). A diferença entre velhacaria e malandragem pode ser simbolizada por dois astros da música popular: o sambista Moreira da Silva, o símbolo do malandro no samba, e o pagodeiro Belo —lembra-se dele?—, o bandido do pagode, preso durante algum tempo e agora, novamente, nos palcos e coxias da vida.

Porém sigo com minha decisão. Fecho meus olhos ainda com esperanças de um dia o mocinho vencer no final. Continuo em meu canto solitário, brincando com minhas pipas —ou pandorgas, como se diz por acá— e bolinhas de gude, esperando que um dia tenha companhia para brincar. Releio estas palavras e fico com a sensação de que sou o maior otário do mundo, ou talvez o mundo precise de mais colorido das pandorgas.

Depois de escrever tudo isso, eu, homem branco, de idade já um tanto provecta, de minha janela voltada para a rua lá em frente, ouço o barulho dos carros, respiro a fumaça fedida dos ônibus, vejo a paisagem horrorosa do terreno eternamente baldio lá na frente —atulhado de mato e lixo— e, com um copo de vinho jerez na mão, fico com certeza de que a vida seria muito melhor se não fosse diária e que o mundo visto de perto ou à distância, continua ameaçador.

Acordei com os cheiros, os horrores, os barulhos da vida como ela é e, como sempre, acabo vendo a vida como eu sou. Será que alguém gostaria de brincar comigo?

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Tudo que você escreve é muito bom. Na verdade maravilhoso. Ao ler este seu texto, só voltei para este mundo depois de muito pensar... Parece que você conhece a alma da gente. AMEI.
 
JACQUELINE WOLKMANN PARANHOS em 05/11/2011 05:53:08
É o importante é acordar mas que mais que, novelesco marimbondo com sapolândia ai não dá!
 
sandra lima em 17/05/2011 02:18:46
Marinbondo,parabéns! como sempre, leio seus comentários e fico maravilhada,mas, esse....... eu me questiono as vezes vale a pena ser honesto......... o mocinho agoraé sempre o vilão só por "DEUS"
 
mary woiciek em 17/05/2011 01:01:17
Marimbondo!!
Não fomos enganados. Fomos poupados. Infelizmente...
Quem sabe um outro bicho não tenha mais sorte do que a gente no futuro, né?! Darwin neles...


Grande texto.
 
Jose Alvarez Coelho em 16/05/2011 11:42:29
simplesmente








sinplesmente perfeito...








 
celso roberto colombo em 16/05/2011 06:49:15
Acorde mesmo...com seus cheiros..horrores..e o barulho da vida...mas ACORDE...nem que seja mais tarde...do que nunca...na preguicosa CIDADE MORENA...e como diria Nelson Rodrigues...olhe o mundo pelo "buraco da fechadura"...depois de despertar.....meu caro ressaquedo "cronista"...com esta barba branca de "matusalem da sapolandia"...nos todos seus leitores...ja estamos brincando com vc......
 
Lucidio Estevao em 16/05/2011 01:33:41
Os comentários são unânimes, Eu não consigo pensar diferente.
Sempre leio comentários.
Esses acima me encheram de esperança quanto à um fato.O bom português
Estão, talvez não em todo, bem escritos, com concordâncias, sinais, etc... tornando-se, gostoso de ler tanto quanto a matéria em si, sem comparações, é claro, dado o nível superior do nosso escritor.
Porque cito isso? È, revoltante ver como os jovens, nem todos, trocam e-mails, mensagens, recados manuscritos, entre outros. Usam a pressa (ou a falta de sabedoria) para destruir toda uma vida em sala de aula, ignorando os ensinamento do mestre em português. Para mudar o futuro da humanidade, demonstrando total poder de influencia através do consumismo.
Antes a sociedade permitia a repreensão dos filhos; os pais iam no mercado e criança não tinha direito de opinar nas compras, elevando o custo ao dobro, se contentava com uns caramelos, um sorvete no caminho de volta e só, ficavam aguardando a próxima compra.
Hoje não podemos ignora-los. respondem por uma economia emergente e totalmente fútil. E o que isso tem a ver com a matéria? Bem, estamos falando de costumes e criações. De quem será o futuro? Quem pensou, será dos jovens, ora, um dia falaram que ia ser nosso, lembram? Será dessa cultura imposta pelo capitalismo consumista; senhores! sem demagogia, mas contra isso não há boa criação que resista.
Contudo, continuem pondo freios, pelo menos, talvez você não verá coisas piores.


 
gilberto indalecio landiva em 15/05/2011 09:15:04
Gostei do que escreveu, mas comparo o mundo com um copo pela metade de água, onde costumo olhar sempre para a metade cheia do copo, em sua escrita percebi que vc olha mais para a metade vazia do copo...
O mundo ja tem muita coisa ruim, se vc canaliza-se sue talento, que nao e pouco, para falar mais da metade cheia do copo, isso traria mais felicidades para quem le suas linhas.

 
Jean Paulo em 14/05/2011 09:11:08
Marimbondo
“Experiência. Esta é a palavra”. Concordo plenamente contigo. Por que será que nossos filhos não escutam quando falamos? Acham que estão sempre certos. Fomos assim também. E quantas vezes quebramos a cara, aprendemos, eis o nosso crescimento.
Marimbondo, como eu adoro ler o que escreve, vem sempre de encontro com o que eu penso isso faz pensar e refletir. Penso que, precisamos aprender a ouvir a voz da experiência, ela está sempre certa, cometeríamos menos erros. Antes era só dar sua palavra e pronto. Estamos precisando mesmo desse código. Vivo permanentemente nessa via crucis. Sei que sou estúpida, mas ainda confio nas pessoas. Estou no fim da jornada e constato que sempre o vilão vencerá e não o mocinho. Brinco, sim!
 
Neuci Augusta Fonseca em 14/05/2011 04:18:49
Luca marimbondo,concordo com você,seu texto me fez pensar e me avaliar,mas é assim que conseguimos sonhar com um mundo onde exista mais amor entre as pessoas, e sermos concientes que estamos agindo certo,fazendo a nossa parte, gostaria sim de brincar com voce num mundo faz de contas,e fingir que os homens não destroem a natureza,que sempre existe uma mão estendida para ajudar alguem,que noticias policiais não aconteceram,que todos vivam em paz,enfim que tudo vai muito bem, parabéns pelo seu texto,e vamos continuar a brincar.
 
Teresa m lopes em 13/05/2011 11:13:57
Maribondo. Você é realmente talentoso em sua escrita, se me permite dizer, em minha modesta opinião. Embora pareça um tanto desanimado quando escreveu esse texto...(talvez seja o efeito desse vinho aí..) Continue escrevendo, nos brindando com sua inteligência, suas idéias são bem vindas e com certeza inspiram muita gente. Grande abraço!!!
 
Ricardo Canavarros em 13/05/2011 04:25:38
Meu Deus, parece que você escreve de uma forma como se não gosta do que somos hoje, será que você tem saudades do passado?
Feliz ou infelimente gosto de viver a vida acreditando em dias melhores e com fé que tudo um dia dará certo, pena que tavez ficarei velho e não verei esse dia, mas tudo bem, faz parte da vida.
Logicamente, sempre escutei os concelhos dos meus pais e isso ajudou a ser quem sou e moldou o caráter que tenho hoje, agradeço a eles por sempre acreditar em mim.
Enquanto a você Luca, pedirei a Deus para te ajudar nessa imensa caminhada.
 
Washington Andrade em 12/05/2011 04:40:38
Acabei de conhecê-lo, Marimbondo, e pude experimentar a sensação de que há esperança. Há gente de bem por aqui. Um marimbondo só não faz uma caixa, ainda que de ressonância. Conte comigo para "zumbir" e brincar.
 
Henrique José em 11/05/2011 09:42:46
Viver é bom, mas é coisa séria. Conviver...

Haaa..... se pudessemos brincar.
 
José Felice em 11/05/2011 09:03:15
É um belo texto mesmo! Mas esse pessimismo disfarçado de interrogação não é bem uma novidade. Meu medo é que o Marimbondo sai na rua em pleno dia com uma "lampada" dizendo procura-se um "homem". No fundo... temos que aprender que somos essencialmente sós! nem a sociedade mais perfeita poderia suprimir esta questão tão impactante! Quando entende-se existêncialmente este fato é que estamos prontos para sermos discípulos DELE, o Cristo, o Homem de fato. PLENO. Para muitos filósofos só restou a "cicuta" mesmo.
 
GILMAR SOUZA CRUZ em 11/05/2011 07:31:48
Parabéns pelo texto!!! Emocionante!
 
Marcia Freitas em 10/05/2011 10:38:59
Brincaria com você sim! Por concordar com suas palavras.
 
Marcos Santolaia em 10/05/2011 07:53:09
Luca, vc me surpreende a cada texto! Muito bom! Esse em especial está formidável, parabéns!
 
Larissa Veneroso em 09/05/2011 09:39:29
Emocionante! A caneta ainda lhe funciona muito bem. Mesmo com tudo isso, quem sabe não possamos brincar de escrever juntos, grande pessoa? Um abraço alencarlino. rsrsrs
 
Carla Marzagão - CE em 09/05/2011 08:28:01
SIMPLESMENTE PERFEITO....
 
ÉRISTON S. DE BARROS em 09/05/2011 05:32:37
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