10/01/2012

As Casas da Alegria

 
Luca Maribondo

Os bordéis têm florescido em todas as sociedades desde o início da História da humanidade —há 6.300 anos aproximadamente, com os primórdios da civilização sumeriana. Não é por acaso que a prostituição é chamada de “a mais antiga profissão do mundo”, o que nos leva ao fato que a segunda profissão do mundo é a dos escritores sobre prostituição: desde que nasceu a primeira rameira surgiu logo atrás alguém documentando sua vida.

Mulheres das mais distintas classes têm dedicado a vida ao prazer sexual, desde a Grécia clássica até as cortigiane di candela da Itália do século 15; desde as kehbebs muçulmanas até as geishas japonesas de hoje. Em português há grande número de denominações, do comportado garota de programa ao debochado puta, passando por cortesã, dama, horizontal, madame, marafa, marafona, messalina, moça-dama, mulher-dama, mundana, murixaba, pécora, piranha, prostituta, quenga, rameira, rapariga, vadia, vulgívaga, zabaneira e outros.

O termo bordel surgiu no século 10, derivado de bordello, cabana, choça e, depois, antro de devassidão. Antes, havia directorium (talvez tenham até denominado as antigas pastas dos computadores) e lupanarium (o lugar das lobas, como as prostituas foram chamadas em determinadas épocas). Depois, variou em português ao longo do tempo e conforme a região: bordel, prostíbulo, alcouce, lupanar, serralho, puteiro, açougue, casa de mulheres, covil, curro, casa de tolerância, inferninho, crefe, brega, castelo, liceu, conventilho, cabaré...

Qualquer que seja o termo utilizado, porém, o que confere um interesse extraordinário ao bordel é o modo como ele reflete a sociedade em que funciona. Tanto quanto à música, a pintura, a fotografia, a literatura, mais recentemente o cinema, todas as artes, enfim —através da sua arquitetura, sua decoração, seus empregados, suas comidas e bebidas— retrata a cultura da época. E, obviamente, antes de mais nada, a sociedade e a política onde está inserto.

A Internet, com toda a sua modernidade tecnológica, não ficou imune à sina dos locais de prostituição. Os lupanares eletrônicos e os sites de pornografia estão entre os mais acessados na Rede Mundial de Computadores. A prostituição cibernética cresce diariamente em proporções geométricas: quem precisa de uma dessas moças de vida airada basta abrir o computador e buscar nos sites.

A história do bordel em Mato Grosso do Sul, se reveste de uma aura toda especial, que envolve a marginalidade, os políticos notórios, revolucionários desgarrados, contrabandistas, e até um certo mistério, possui uma aura toda especial, talvez por ser área de fronteira. Nele encontramos a prostituta que se torna imperatriz e a imperatriz que se torna prostituta. E também as rainhas da ribalta que desejam possuir suas próprias casas de tolerância, cortesãs que atingem a imortalidade e meretrizes que determinam o curso da política de determinada cidade ou região. Neles há cocotes ninfomaníacas e filles de joie lésbicas.

Entre os cáftens e cafetinas da nossa história há ladrões exímios, chacinadores, jagunços e suicidas aos montes. Trata-se de um bando muito variado, de que fazem parte os perversos e malvados, virtuosos e nobres — exatamente como no resto da humanidade. Quanto aos proprietários, patrocinadores e protetores dos bordéis, estes apresentam um cortejo notável: banqueiros e empresários, capitalistas loucos e assassinos amáveis, astros do cinema e monges, degoladores e reis, fidalgos arrojados e patifes bastardos, charlatões e pastores evangélicos, assaltantes e janotas, alcaiotes e príncipes, traficantes e aristocratas empobrecidos, santos e espiões, sádicos e sodomitas, filósofos e degenerados, padres pecaminosos e excomungados, pintores malucos, políticos respeitáveis e gênios.

Com uma turma dessas moldando a história do bordel, não admira que a instituição não exista na maior parte das sociedades primitivas. Trata-se essencialmente de um produto da civilização.

Como em quase todas as cidades do mundo, antes os bordéis eram segregados. Muitos deles ficavam restritos a guetos em que a maioria dos habitantes eram as meretrizes, suas famílias, e os trabalhadores da área, garçons, leões-de-chácara (hoje chamados de seguranças), cozinheiros, cafetões, cafetinas, parteiras e outros. As casas eram identificadas à noite por lâmpadas vermelhas em suas portas. Tinham nomes insólitos, Casa do Portão Rosa, Boate da Tia Zica, Ponto Azul ou algo parecido.

Em Campo Grande, hoje esse modelo não mais existe. Os lupanares se espalharam pela cidade e estão nos bairros das “zelites”, na periferia –existe até condomínios-puteiros em edifícios decadentes do centro da cidade—, tão disfarçados que são facilmente confundidos com as residências mais caturras e conservadoras. Luzes vermelhas, nem pensar. Os frequentadores são apenas os iniciados, esotéricos, que só participam da esbórnia se são convidados ou indicados pelos frequentadores mais expertos. E as moças? Ora, as moças podem ser qualquer uma, a garota que caminha de shortinho pela sua calçada ou a menina loirinha sentada à ponta do balcão.

Se mudou a forma dos bordéis se espalharem pela cidade, sem segregação ou ruas e bairros isolados, suas funções de casas da alegria continuam as mesmas: homens procurando diversão com sexo fácil e descompromissado em mulheres transformadas em objetos de consumo de massa.

Na verdade; a mais antiga profissão do do mundo, é a de eletricista; quando Deus disse: faça-se a luz; o eletricista estava a postos.

 
joao batista da silva borges em 07 de março de 2012 - quarta às 22:40

Meu caro Marimbondo...você sabe como dar a sua ferroada. Bela matéria, muito embora o assunto seja promíscuo. Gostei também do comentário do Sergio Roberto que fala a respeito de certos setores da vida pública que a despeito de bons políticos estão se transformando em locais que poderiam também ser usados em seu artigo,isto é, verdadeiras zonas.

 
Alicio Mendes em 27 de fevereiro de 2012 - segunda às 10:55

... e adentrarem os machos-alfa para comprarem as bebidas e colherem a açucarada e fértil manada feminina. E nem me digam que não sabiam disso. Talvez por isso mesmo esse comentário nem seja postado, pois vemos e sabemos tão claramente que tb ao final da av principal encontra-se não o bordel principal desse estado, mas o mais temível.
Como é poética e alusiva o PP de "p*&ta p*&aria". E q me diz?

 
Orlando Lero em 20 de fevereiro de 2012 - segunda às 18:41

Devo opinar, já considerando que deverei ser censurado novamente, pois raramente postam o q escrevo.
O do teclado em questão, esqueceu de se referir claramente que hoje em dia os ditos cujos Jacutinga (em alusão ao famoso prás bandas no caminho de Bonito) se encontram em plena Av Principal e suas transversais, travestidos de bares que "mulher não paga" e ainda toma de graça até abrirem as porteira

 
Orlando Lero em 20 de fevereiro de 2012 - segunda às 18:38

Sou obrigado a concordar com o Sergio Alberto, em genero e numero.

 
Luiz Carlos Da Silva em 19 de fevereiro de 2012 - domingo às 14:25

Continuação:
essas madames da sociedade e mesmo do povo, muitas até casadas, que saem à noite em busca de sexo e cujos pais, maridos e protetores de uma moral insana, as vestem de santas, muitas vezes mal amadas vão procurar fora o que falta em casa, resumindo, mulher é tudo igual, apenas o preconceito as faz diferentes. Quem acha que não é assim, está tampando sol com peneira.

 
João Batista em 13 de fevereiro de 2012 - segunda às 13:37

Luzes vermelhas, nem pensar?!? Como assim?!?! Faz o trajeto linha 51 Bandeirantes/ Av Fernando Correa no sentido Bairro, mais precisa apos a Salgado Filho e fica olhando do teu lado direito, após igreja "fervorosa", da-se uma casa ou melhor um salão não só com luzes, mas todo apetrecho de uma "Altêntica casa da Luz Vermelha"
Vale conferir se há irregularidades, fica aqui o ALERTA.

 
eliane guimaraes em 08 de fevereiro de 2012 - quarta às 21:20

muito boa matéria ,quero só lembrar que vc esqueceu de colocar um outro nome usado também que é o de politico pois o serviço oferecido é o mesmo , pena que é feito com o nosso dinheiro . o congresso nacional é a maior casa de tolerância do país.espero ter sido entendido.lembrando que toda regra a exceções.

 
sérgio roberto em 06 de fevereiro de 2012 - segunda às 09:35

ja faz alguns anos que axistia a casa de prostitutas,profissão registrada e acompanhada por medicos que solicitavam axames,hoje tudo é livre,de qualquer geito,por isso existe doenças espalhadas por ai.e muitas moças seguindo por caminhos que nada tem de casa de alegria.porque o resultado não é nada compensador.infelismente.

 
Lucas da Silva em 31 de janeiro de 2012 - terça às 16:45

Muitos dos jornalistas brasileiros da atualidade devem aos bordéis as sua formação de caráter e intelectualidade. São evidenciadas com textos como o postado nesta coluna de tamanho valor didatico.

 
John Alves em 30 de janeiro de 2012 - segunda às 10:37


Muito bom seu artigo, parabéns. De fato a moral e os bons costumes andam em baixa. As mulheres não se respeitam mais e os homens perderam de vez a descencia. Acho que as autoridades constituídas precisam agir urgentemente para acabar com a pouca vergonha.

PS: Depois você me passa o endereço do tal "condomínio puteiro" que quero verificar se uma garota loirinha empinada trabalha por lá.

 
PAULO FORTES em 30 de janeiro de 2012 - segunda às 09:21

A alegria instantânea que ajuda a suportar o incessante tédio dos dias úteis. Não traz nem nunca trará felicidade, mas alívio, sempre.

 
josé santos em 23 de janeiro de 2012 - segunda às 16:17

parece formula de remedio...historico do assunto...desde a antiguidade...depois atualidade..e por fim em CG...esta formula ja ta gasta...muito fraquinho...ainda bem que aquela "Luiza"..que ta la naquela cafundo do frio Canada...vai escapar de saber o que e casa da alegria......

 
lucidio estevao em 21 de janeiro de 2012 - sábado às 01:31

Até os vinte e cinco, é só alegria. Depois , tem que
ouvir os mais velhos.

 
Vanir queiroz Corinthiano em 15 de janeiro de 2012 - domingo às 21:24

Jornalismo é a segunda mais antiga profissão." (Paulo Francis)

 
Áureo Torres em 10 de janeiro de 2012 - terça às 20:34

hehehe, Marimba...tu és uma figura!
Faltou dizer que há muita "gatinha de pograma" (sim, pograma), que com o dinheiro ganho paga a faculdade, compra seu carrinho ou ajuda em casa.

Agora é meio de vida aceitável da classe média, a que mais fornece "material", sir...
Gostei da sua abordagem. Foi suficientemente liberal e sem frescuras. Sucesso!

 
arsenal djow em 10 de janeiro de 2012 - terça às 18:45

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