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  • Luca Maribondo
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    Coluna


27/05/2011 11:29

Busca da liberdade

Luca Maribondo

Sou um viciado em Internet. Sou mesmo. Eu a uso no trabalho, na comunicação, no lazer, no ócio, no aprendizado... É um vício ora saudável, ora vicioso, com o perdão pela redundância. Mas tem horas em que penso em abandonar a rede mundial de computadores. Penso mesmo. Penso principalmente em mandar as ecartas (isso que a patuléia ignara chama de email) às favas. Sem que eu peça, tem gente me enviando as propostas mais cretinas e absurdas —isso que o vulgo chama de spam, mas não é bem isso.

Principalmente no que se refere a sexo: todos os dias checo minhas caixas postais eletrônicas e descubro, quase sempre com espanto, propostas de sítios pornográficos que me oferecem os mais indescritíveis despautérios eróticos. Por exemplo: um me oferece acesso irrestrito a um acervo de mais de duzentas mil fotos de adolescentes belgas, pela bagatela de doze euros mensais. Nada tenho contra as mulheres belgas, mas o que posso fazer aqui na Guaicurúndia com mulheres dos Países Baixos?

Logo em seguida, vinha outra mensagem eletrônica que me alertava para a imperdível promoção de outro sítio, cujo mote de oferta eram filmes e vídeos nos quais mulheres grávidas apareciam copulando com cães, cavalos, jumentos e outros mamíferos. Logo adiante, surgia nova ecarta, esta me oferecendo acesso gratuito a fotos de garotas bielo-russas, mauricianas e ugandenses em práticas sadomasoquistas, tipo fisting e chuva dourada (não me pergunte: eu não sei o que significam estas expressões!).

Outro sítio me manda cartuns com personagens famosos das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados em situações, digamos, lascivas, obscenas —algumas até divertidas. Tinha desenho da Branca de Neve praticando um guloso blowjob no Príncipe Encantado; o Pato Donald fazendo sexo anal com a Margarida e o Fantasma praticando cunilíngua na estonteante Diana, além da Madrasta beijando sua enteada Cinderela na boca —ambas nuas.

Como se tudo isso não bastasse, achei em minha caixa de mensagens uma carta de apresentação, de autoria de uma suspeitíssima agência de viagens que prestava serviços no intuito de facilitar a vida de turistas interessados em usufruir dos préstimos de garotas de Bangladesh. Banglasex Tour, a referida agência, providenciava tudo: desde os meios para tornar todo o processo o mais discreto possível até o sabor das calcinhas usadas pelas meninas, além de camisinhas com sabores variados e música country.

Dito tudo disso, concluímos que a rede mundial de computadores globalizou e vulgarizou o sexo —os sítios eróticos e pornográficos são, de longe, os mais procurados pelos internautas— e transformou-o em bem transnacional, transcendente de fronteiras. Apesar de todo o avanço tecnológico da rede mundial de computadores, o sexo continua sendo o grande apelo pra muita gente. Não é que sexo hoje seja muito diferente do que era há cem anos; a diferença é que hoje ninguém mais liga pra fechar a janela. O que acabou vulgarizando o sexo.

Nada tenho contra a globalização do orgasmo; tampouco ao que se refere à atuação da web (termo inglês que se traduz para teia, que remete a aranha, que lembra...) em tal processo. O gozo desconhece razões de Estado, fronteiras nacionais e mediações diplomáticas. Com efeito, toma parte nessa bagunça toda —ou tal “festa”— quem quer. Mas eu não quero... Nem sempre quero (não sou moralista e gosto de sexo, como quase todo mundo) —mesmo assim recebo ecartas sobre adolescentes belgas, prostitutas mauricianas e modelos ugandenses e bielo-russas. Para quem goza nenhuma explicação é necessária —para quem não goza nenhuma explicação é possível.

Pelo que sei, não disponibilizei meu endereço eletrônico em nenhum website pornográfico. Ignorante que sou, desconheço os novos métodos de marketing e propaganda em voga na dinâmica marketeira da Internet —principalmente a que se refere ao marketing eletrônico. Tenho, todavia, a certeza basilar de que tais métodos não gozam da prerrogativa de desrespeitar o indivíduo comum e desinteressado nas lascivas propostas oferecidas por tais sites. Estão vulgarizando o sexo ao extremo —pelo andar da carruagem, os sítios sexuais da rede vão conseguir em meia dúzia de anos o que a repressão sexual não conseguiu em séculos: aniquilar com o sexo. Não por reprimi-lo, mas por vulgarizá-lo.

Que continuem a propagar seus produtos e a disseminar suas reputações, digamos, frouxas e seus críveis atributos substanciais; vivemos, afinal, em um País —e, de certa forma, em um mundo-livre. Nenhuma restrição ao direito de manifestação. No entanto, a continuidade do envio das mensagens em massa —erroneamente chamados de spams — pode resultar numa debandada igualmente maciça daqueles que fazem uso dos serviços de e-mail. Por que tais práticas continuam a ser levadas a efeito sem que os responsáveis sejam chamados à prestação de contas?

Em acepção lata, a verdade reside no fato de que o controle efetivo e viável de tais práticas é virtualmente impossível, vez que a obtenção dos endereços eletrônicos alheios dá-se por meios independentes daqueles controlados pelos serviços de e-mail. Aliás, penso na Internet como um sistema anárquico e todos os dias rezo para que assim permaneça. Prefiro a anarquia aos desmandos e à corrupção dos donos do poder que estão sempre pensando em meter bedelho na rede.

Sem mais delongas nesta linha de argumentação, quero dizer apenas que a única via de defesa da qual os usuários dispõem é a exclusão sumária das mensagens indesejadas. Coisa que não fiz, e, digo mesmo, jamais farei. Tenho o ímpeto compulsivo de ler tudo o que me enviam, seja sobre prostitutas vietnamitas, repugnantes práticas de zoofilia ou até mesmo sobre garotas desnudas da ex-União Soviética. Enviaram as mensagens, globalizaram o orgasmo, brocharam a diplomacia e gozam com a nossa cara. O que é melhor: crer em nada ou em nada crer?

Cito Millôr Fernandes: “desde a mais tenra infância não tenho procurado outra coisas na vida do que ser livre. Livre das pressões terríveis dos conflitos humanos, livre para o exercício pleno da vida física e mental, livre das idéias feitas, mastigadas e digeridas”. Millôr Fernandes, citando George Bernard Shaw, afirma que “tenho uma insopitável desconfiança de qualquer idéia que venha sendo usada há mais de seis meses”.

Digo que a liberdade começa quando a gente aprende que ela não existe. Mas —ou talvez por isso— penso que todos devem ser livres. Mas quero a minha própria liberdade —inclusive a de não receber ecartas que não pedi— e não participar daquilo que os outros consideram suas liberdades. Até porque as liberdades dos outros costumam ter asas —e tudo aquilo que tem asas pode alçar vôo e ir aportar em outras plagas.

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Meu caro Maribondo,

A liberdade é igual aniversário, quanto mais temos, mais perdemos.
 
Valter Oliveira em 10/06/2011 05:44:33
Conforme vc vai conhecendo sobre qualquer assunto
vc passa a ter liberdade sobre tal. Não importa qual. por que?
Conhecereis a verdade. E vai autamaticamente será LIBERTO.
e PRONTO.
 
andre ajala em 08/06/2011 12:51:56
Caro Marimbondo, liberdade é não ter celular, isso sim, o e-mail ou ecarta, vem e voce abre se quiser, não tem ninguem do outro lado pra conferir se voce abriu ou não, se vai responder ou não, enfim, hoje voce não precisa ir até o banco para pagar suas contas, pode fazer isto do conforto de seu lar, hoje voce se comunica com pessoas em qualquer parte do mundo sem esperar dois dias para sua ligação ser completada, se for pelo skype então não gasta nem telefone, a liberdade já se foi quando inventaram o fogo e a vida em sociedade, viver em sociedade é viver sem liberdade, estou falando de liberdade no sentido mais primata da palavra, ninguem hoje é totalmente livre, se voce pensa em sair pelado na rua não pode faze-lo por respeito aos seus familiares, amigos, patrão, enfim, quem pensa não o faz. Portanto viva a internet e viva a liberdade, mesmo que monitorada por tudo e por todos.
 
MAXIMILIANO NAHAS em 07/06/2011 04:58:26
antes não tínhamos liberdade,{nós de outra geração} nossos pais criávamos de outra forma, achávamos ruim, mas som essa liberdade, libertina, perderam-se os mínimos valores do ser humano, a sua essência genuina.O ser humano limita-se á uma coisa
 
agnes rodrigues em 05/06/2011 10:24:51
Caro Lucas "A liberdade é um lamentável engano do nosso tempo, nunca se falou tanto em liberdade e nunca fomos tão escravos...Veja a mídia, e a qualidade da educação ai está a chave.
 
Sirlei Simas em 02/06/2011 10:17:14
Meus amigos! teve um cara que disse: " seja o seu sim SIM e seu não NÂO.". Isto é a liberdade mais profunda que existe pois exige muita coragem! O resto é discursso!
 
GILMAR SOUZA CRUZ em 01/06/2011 11:14:42
Há um contagio no ar, "Fenomeno" nem mesmo o proprio homem consegue esplicar seus proprio envolvimento nesta libertinagem ofertada pela web, muitos recebem por Email e tentão não se envolver mas, no fundo desejaria ver um pouquinho desta impressionante avalanche pornografica na web, atingindo em cheio a "alta prozopopeia" da família em todo o mundo, pergunto a quem queira responder... Como educar os filhos com a moral e os bons costumes impostos pelo pais e o proprio governo nos estabelecimentos de ensino no seculo XX? Bem... eu mesmo neste momento não tenho certeza que a moral e os bons costumes à que meus pais me ensinarão, seja defendido por muitos geradores de opiniões, nem pelos criadores de novas leis do seculo XXI. Os autores dos livros sobre a fenomenologia afirmam - Quando o objeto de estudo é o "Homem" o fenomeno esta aferido no sentimento. Portanto...
 
VALDEMIR ALENCAR DELMONDES em 01/06/2011 09:46:49
Senhor Marimbondo, é preferível a caixa de ecartas abarrotada democraticamente de porcariada, à caixa vazia da ditadura!?!? Acredito que existam programas que bloqueiam esses "troços". Um abraço!
 
Vicente de Paulo em 30/05/2011 09:26:17
Nesse aspecto, fico com Arthur Schopenhauer: "Quem não Ama a Solidão, não Ama a Liberdade".
 
Mary Saldanha em 29/05/2011 09:25:06
Defendo a liberdade porque sou pela liberdade e por isso não devo defender a liberdade, porque para defender a liberdade teria de atacar a liberdade, o que me obrigaria então a defendê-la por ser a favor dela - merda! Sou pela liberdade, sou contra a opressão, e isto é simples, é humano, é evidente. E não me chateie mais.
 
Bianca Mann em 29/05/2011 09:19:19
LIBERDADE? OUTRO PONTO MUITO DISCUTIDO E REFLEXIVO, ACABEI DE CRER NUNCA SEREMOS LIVRES, APESAR DE SER DIREITO DE TODOS.
ATUALMENTE O QUE VEMOS, TANTO NA MÍDIA, COMO TAMBÉM GRUPOS CORPORATIVOS. ELES APREGOAM UMA LIBERDADE SEM LIMITES, TODOS AQUELES QUE POSSUEM UM ESTILO DE VIDA DIFERENTE DO QUE A SOCIEDADE APREGOA SÃO CONSIDERADOS COMO QUADRADOS OU ANTIQUADOS. PARECE QUE A LIBERDADE ESTÁ TOMANDO UM RUMO DIFERENTE, O RUMO DA TOTAL FALTA DE RESPEITO.
DEIXE-ME ACREDITAR QUE SOU..."ÁGUIA E NÃO GALINHA" “LIVRE PRA VOAR” MESMO QUE, SÓ EM PENSAMENTOS.
 
Neuci Augusta Fonseca A única e singular em 28/05/2011 06:18:03
Hoje em dia, a liberdade é uma lamentável negligência das autoridades constituídas.
 
Victor H. Saboia em 27/05/2011 08:34:37
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